O maestro e violinista neerlandês André Rieu está de volta a Portugal com a sua Orquestra Johann Strauss, para três espetáculos, a 29, 30 e 31 de outubro, todos na MEO Arena. Com mais de 40 milhões de álbuns vendidos e uma carreira de mais de quatro décadas, Rieu tornou-se um dos artistas clássicos de maior sucesso comercial do mundo, levando valsas, bandas sonoras, ópera e canções populares a públicos de todas as idades e origens.
Conhecido pela energia contagiante dos concertos e pela proximidade com o público, Rieu defende que a música clássica não tem de ser solene ou distante para preservar a sua qualidade. Na entrevista que deu à Forbes Portugal, por ocasião dos concertos natalícios do ano passado na sua terra natal, Maastricht, nos Países Baixos, e que aqui recuperamos, o artista falou sobre liderança, da importância do humor, da relação com os músicos eda forma como transforma cada espetáculo numa experiência partilhada.
No momento em que regressa a Portugal, André Rieu recorda também a ligação especial ao nosso país, onde já viveu momentos marcantes perante milhares de espectadores, e revela, no seu habitual tom bem-disposto, que, mesmo depois de tantos anos de carreira, continua a ter um sonho por concretizar: tocar na Lua.
É muito mais do que um músico extraordinário: lidera também uma grande equipa, com dezenas de pessoas. Quais foram as lições de liderança mais importantes que procurou pôr em prática?
Poderíamos estar aqui uma hora a falar sobre isso! Penso que, quando se está à frente de uma orquestra como maestro, é preciso ouvir tudo. E eu ouço tudo, tenho um bom ouvido. Quando alguém comete um erro, talvez o público não se aperceba, mas eu ouço. Olho para essa pessoa e, da próxima vez, ela já não volta a cometer o mesmo erro.
Por outro lado, acho muito importante comunicar através da expressão facial. Eu dirijo muito com o rosto, e o público também vê muito as minhas expressões. É assim que faço as coisas. E funciona.
“Quando alguém comete um erro, talvez o público não se aperceba, mas eu ouço. Olho para essa pessoa e, da próxima vez, ela já não volta a cometer o mesmo erro”.
É conhecido por manter um ambiente descontraído em palco. Mas, nos bastidores, pode ser exigente? Como equilibra o rigor com a descontração?
Claro que sim, sou o chefe. Mas também sou uma figura paternal. Não trabalho, divirto-me, e quero que as pessoas que trabalham comigo também se divirtam. Naturalmente, tudo tem de funcionar.
Sei perfeitamente que sou exigente e que quero que tudo esteja correto. Mas porque não juntar as duas coisas? É precisamente essa exigência que permite criar leveza. Quando tudo funciona como deve ser, conseguimos descontrair e divertir-nos. E é bom quando as pessoas pensam: “Eu também consigo fazer isto!”
Numa orquestra não pode haver democracia. É preciso haver uma pessoa a liderar, e essa pessoa sou eu. Mas quero que tudo decorra da forma mais tranquila possível. Por isso, viajamos com os nossos próprios cozinheiros, médico, treinador físico e a mesma equipa técnica. Também temos uma boa combinação de diferentes gerações na orquestra e na equipa.
“Não trabalho, divirto-me, e quero que as pessoas que trabalham comigo também se divirtam”.
Que qualidades procura num novo músico ou colaborador para a sua equipa?
É evidente que tem de ser um excelente músico. Mas também tem de se integrar na nossa “família” musical e querer tocar a nossa música, que abrange estilos muito diferentes: bandas sonoras, ópera, opereta, valsas, canções pop, temas tradicionais e música folclórica.
É importante que goste verdadeiramente daquilo que faz e que consiga transmitir esse entusiasmo em palco.

Nesse espírito, qual é a regra de ouro que os novos músicos que entram na sua orquestra têm de ter?
Percebo logo quando alguém tem aquilo que procuro: tem de tocar com o coração.
A sua orquestra apresenta-se sempre com uma energia contagiante. Essa energia resulta da técnica ou das emoções que transmite enquanto líder?
Resulta da música que tocamos e da alegria que sentimos por a interpretar em conjunto. E também vem do público.
Gostava que pudesse ver aquilo que eu vejo em palco. Há tantas emoções! Pessoas a rir, a dançar, a chorar, a cantar. As emoções são a chave!
“Gostava que pudesse ver aquilo que eu vejo em palco. Há tantas emoções! Pessoas a rir, a dançar, a chorar, a cantar. As emoções são a chave!”
Nos bastidores, consegue também manter essa energia positiva, como pudemos comprovar. Como consegue?
Faço o mesmo que estou a fazer agora consigo: sou eu próprio. E sou honesto.
Que lugar ocupa o humor na sua vida?
O humor é muito importante, não apenas aqui, mas em toda a vida. É a coisa mais importante que existe. O humor pode resolver problemas antes mesmo de eles surgirem. Sou um grande adepto do humor, também enquanto líder.
Nunca temos problemas, porque consigo identificá-los antes de aparecerem. E faço uma piada!
“O humor é a coisa mais importante que existe”.
E o humor, que utiliza tanto em palco, pode ser uma boa ferramenta de liderança?
Excelente pergunta! É muito importante. Com humor, conseguimos resolver muitas situações difíceis ou desafiantes.
Ao interpretar obras tão icónicas como “Danúbio Azul”, como encontra espaço para acrescentar algo pessoal sem desrespeitar a tradição?
Tocamos as notas exatamente como foram compostas. Não as altero. Mas há algo de diferente na forma como a minha orquestra as interpreta: tocamos com um sorriso! Convido o público a dançar. Nenhuma outra orquestra faz isso. Onde quer que toquemos o “Danúbio Azul”, em qualquer parte do mundo, as pessoas levantam-se dos seus lugares e começam a dançar.
“Onde quer que toquemos o “Danúbio Azul”, em qualquer parte do mundo, as pessoas levantam-se dos seus lugares e começam a dançar”.
O seu violino Stradivarius de 1732 era quase uma extensão de si próprio. Como é que este instrumento se tornou parte da sua identidade artística?
Já não tenho o Stradivarius de 1732. Atualmente, toco num Stradivarius de 1692. De vez em quando, há pessoas que me abordam para perguntar se estou interessado em comprar um violino. Depende do instrumento e de sentir que é o certo para mim.
É um dos artistas clássicos com maior sucesso comercial em todo o mundo, com mais de 40 milhões de álbuns vendidos. Esse número representa um peso ou dá-lhe liberdade?
Deixa-me muito orgulhoso e feliz. Fico contente por tantas pessoas apreciarem aquilo que faço. É um sonho tornado realidade.

Ao tornar a música clássica mais leve, divertida e acessível, sente que alguns colegas continuam a olhar para si com desconfiança?
Talvez, sim. Mas a maioria nunca assistiu a um dos meus concertos.
Como responde às críticas de que a sua abordagem mais próxima da música pop pode retirar rigor à música clássica?
A música clássica deve ser acessível a todos. Nos meus concertos, vejo pessoas de todos os meios, desde a senhora da limpeza ao professor universitário.
Aquilo que faço é completamente diferente do que fazem outras orquestras. Nunca tocaria uma sinfonia completa — deixo isso para as outras orquestras. Sou eu que escolho o meu programa, com o coração. Se uma melodia me toca, sei que também vai tocar o público.
“Se uma melodia me toca, sei que também vai tocar o público”.
O que aprendeu sobre o público internacional que muitos músicos clássicos ainda não compreenderam?
Que é importante comunicar com o público. As minhas intervenções entre as peças são uma parte fundamental dos concertos. Conto histórias e interajo com as pessoas. O público é uma parte muito importante da minha grande família musical.
Durante os meus concertos, nasceram muitas amizades entre espectadores vindos de diferentes partes do mundo.

Que sinais lhe indicam que alguém da sua equipa pode estar a perder a motivação?
Muitos dos meus músicos trabalham comigo há mais de 25 anos. Adoram aquilo que fazemos e divertem-se verdadeiramente em palco. Vejo que gostam mesmo do que estão a fazer: não é representação. Se não estivessem motivados, não andariam a viajar pelo mundo comigo.
Há algum momento vivido em Portugal de que ainda hoje se recorde de forma especial?
O público maravilhoso, absolutamente maravilhoso. Lembro-me do primeiro ano [em 2019, n.d.r.] em que esgotámos 13 concertos em Lisboa, num só ano. Foi extraordinário.
Recordo-me muito bem de ver o público a cantar connosco aquela encantadora canção infantil, “A Loja do Mestre André”. Foi muito divertido! Também tive oportunidade de conhecer um pouco de Lisboa. É uma cidade lindíssima!
“Recordo-me muito bem de ver o público a cantar connosco aquela encantadora canção infantil, “A Loja do Mestre André”. Foi muito divertido!”
Depois de mais de quatro décadas de carreira, o que continua a motivá-lo?
O amor. O amor pela música, pela minha orquestra, pelo público e pela nossa empresa. E, sobretudo, o amor pela minha mulher, com quem trabalho há 48 anos.
Ambos adoramos aquilo que fazemos e nem sequer pensamos em reformar-nos!
Há alguma coisa que ainda não tenha feito e que gostasse de concretizar num futuro próximo?
Vou viver até aos 140 anos, por isso ainda só estou a meio do caminho! Mas gostava de tocar na Lua.





