Piada de Mbappé pode custar milhões: perde três patrocinadores chineses e arrasta a La Liga para a polémica

Kylian Mbappé, estrela do Real Madrid, deverá ganhar 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) esta época, mas uma piada sobre Mao Tsé-Tung já levou três empresas chinesas a romperem acordos comerciais com o futebolista e provocou a suspensão das transmissões da La Liga na televisão estatal chinesa. O impacto financeiro total ainda é…
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Uma piada sobre Mao Tsé-Tung já custou a Kylian Mbappé três patrocinadores chineses e levou a televisão estatal a suspender as transmissões da La Liga. O impacto financeiro ainda é desconhecido num futebolista que deverá ganhar 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) esta época.
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Kylian Mbappé, estrela do Real Madrid, deverá ganhar 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) esta época, mas uma piada sobre Mao Tsé-Tung já levou três empresas chinesas a romperem acordos comerciais com o futebolista e provocou a suspensão das transmissões da La Liga na televisão estatal chinesa. O impacto financeiro total ainda é desconhecido, mas a polémica ameaça receitas de patrocínios e coloca em risco a relação comercial do campeonato espanhol com um mercado estratégico.

A polémica começou com um excerto de um programa online francês, The Bridge. Questionado sobre o meme da Internet que mais o fazia rir, Mbappé escolheu uma montagem que sobrepunha o seu rosto ao de um homem que descreveu como um ditador chinês, sem o identificar pelo nome. A imagem que se tornou viral mostra o futebolista sobre um retrato de Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China.

O vídeo original foi entretanto retirado, mas já tinha sido gravado e partilhado por utilizadores de todo o mundo. Na China, a sátira a figuras fundadoras do Partido Comunista pode ser punida ao abrigo das regras que protegem os chamados “heróis e mártires”.

A reação comercial foi rápida. A Dongpeng Beverage, também conhecida como Eastroc, a gigante dos lacticínios Mengniu e o fabricante de queijo Milkground anunciaram o fim das respetivas parcerias com Mbappé. A Dongpeng justificou a decisão com a sua política de tolerância zero perante comportamentos que ofendam o sentimento nacional.

A bebida eletrolítica Bu Shui La, da Dongpeng, tinha utilizado a imagem do futebolista em garrafas e campanhas publicitárias espalhadas por cidades chinesas durante o verão, no contexto do Campeonato do Mundo.

A polémica não se ficou pelos patrocinadores. A plataforma RedNote afirmou que a sua parceria de conteúdos com Mbappé tinha terminado no final de 2024 e que iria remover material relacionado com o jogador. Segundo o Global Times, as marcas Dior, Hublot e On também retiraram conteúdos promocionais de Mbappé das respetivas páginas na rede social Weibo. Novos utilizadores deixaram ainda de poder seguir as contas do futebolista na RedNote e na Weibo.

Quanto pode perder Mbappé?

A Forbes estima que Mbappé irá auferir 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) durante esta época, o que o coloca no terceiro lugar da lista dos futebolistas mais bem pagos do mundo, publicada no início de outubro.

Desse montante, 70 milhões de dólares (59,5 milhões de euros) deverão ser provenientes da atividade desportiva, enquanto os restantes 30 milhões de dólares (25,5 milhões de euros) resultam de patrocínios e interesses empresariais.

Nenhuma das empresas chinesas revelou quanto pagava ao jogador, pelo que ainda não é possível calcular o impacto direto da perda dos três contratos nas receitas comerciais previstas para esta época.

O risco, contudo, pode ir além dos acordos agora terminados. Um dos casos mais relevantes é o da On, marca suíça de equipamento desportivo com a qual Mbappé assinou este ano, depois de terminar uma relação de 20 anos com a Nike. O acordo inclui uma participação acionista na empresa, segundo apurou a Forbes.

A On não tinha comentado publicamente a polémica até terça-feira. A China é, porém, um mercado importante para a marca, que procura reforçar a sua posição internacional. Como Mbappé tem uma participação na empresa, a sua imagem no mercado chinês não está apenas ligada ao valor que recebe por campanhas publicitárias: poderá também ter implicações para o valor económico do investimento. Para já, não existem dados que permitam quantificar as perdas de Mbappé ou o eventual impacto na sua participação na On.

La Liga perde transmissões na televisão estatal chinesa

As consequências também chegaram ao campeonato espanhol. O Grupo de Media da China (CMG), que controla a televisão estatal CCTV, confirmou a suspensão das transmissões dos jogos da La Liga relacionados com Mbappé, bem como dos anúncios publicitários e conteúdos em vídeo protagonizados pelo futebolista.

A suspensão entrou em vigor a 26 de outubro, segundo a entidade. A televisão estatal chinesa rejeitou entretanto as explicações atribuídas ao Real Madrid, segundo as quais Mbappé nunca teria tido intenção de ofender e teria o direito de expressar as suas opiniões.

Um porta-voz do CMG afirmou que as palavras do jogador ultrapassaram os limites e que, enquanto o clube espanhol não apresentar um pedido de desculpas considerado satisfatório, “não há nada a discutir”.

A decisão representa um risco comercial para a La Liga, que tinha recuperado recentemente a presença na televisão estatal chinesa. Em 2024, o campeonato assinou um acordo com o CMG, o primeiro com a emissora estatal em nove anos, segundo a SportBusiness. Os direitos, não exclusivos, abrangem as épocas de 2024/25 até à atual, com jogos transmitidos gratuitamente no canal CCTV-5+.

Mas o acordo televisivo não é o único em causa. No início de agosto, o presidente da La Liga, Javier Tebas, assinou em Pequim um contrato que tornou a Migu, plataforma de streaming detida pela operadora estatal China Mobile, parceira exclusiva de novos meios de comunicação da competição na China continental até à época de 2029/30.

A Migu transmite os 380 jogos de cada temporada através de um modelo freemium. Quando anunciou o acordo, Tebas classificou a China como um mercado estratégico para a La Liga.

A Migu também é detida pelo Estado chinês, mas ainda não é claro se seguirá a decisão da televisão estatal. A eventual suspensão das transmissões digitais poderá ampliar o impacto da polémica sobre a exposição comercial do campeonato espanhol no país.

La Liga e Real Madrid pressionados a pedir desculpa

A reação institucional intensificou-se na terça-feira. Javier Tebas enviou uma carta ao CMG na qual condenou o comportamento de Mbappé, classificando-o como “inaceitável”, e pediu desculpa pela ofensa causada.

A emissora respondeu que a La Liga, o Real Madrid e, em particular, o futebolista deveriam apresentar desculpas públicas e enviar uma carta formal de desculpas.

Mbappé acabou por divulgar um comunicado em francês, chinês e inglês, no qual lamentou as suas palavras e expressou “profundo respeito” pelo povo chinês e pela sua história.

“O meu comentário foi irrefletido e compreendo agora que magoou muitas pessoas na China e nas comunidades chinesas em todo o mundo”, afirmou o jogador.

Ainda na terça-feira, Tebas reuniu-se com o embaixador chinês em Espanha, Yao Jing, numa tentativa de encontrar uma solução para a controvérsia. A La Liga mantém outros acordos de cooperação com entidades chinesas, incluindo uma parceria estratégica com a liga profissional do país, válida até 2029.

A plataforma chinesa de notícias e comunidade de futebol Dongqiudi também anunciou que não iria traduzir a entrevista de Mbappé, por considerar que as suas palavras feriam os sentimentos dos adeptos e do povo chinês.

O caso ganhou uma dimensão política mais ampla com a intervenção do Global Times, jornal ligado ao Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês. Num editorial publicado na quarta-feira, o jornal advertiu as celebridades internacionais de que não podem beneficiar comercialmente do mercado chinês sem respeitar as sensibilidades nacionais.

“Respeitar não é opcional. Ninguém pode lucrar com a China enquanto a desrespeita”, escreveu o jornal, defendendo que os contratos comerciais com figuras públicas internacionais passem a incluir cláusulas mais claras sobre a sua conduta pública.

Uma segunda polémica do Real Madrid na China em poucos meses

Este é o segundo conflito do Real Madrid com sensibilidades políticas chinesas desde o início da temporada. A 30 de agosto, o clube publicou uma fotografia de um minuto de silêncio no Santiago Bernabéu pelas vítimas de inundações “no Nepal e no Tibete”.

O Global Times criticou a referência ao Tibete e exigiu que fosse utilizada a designação chinesa “Xizang”. O Real Madrid apagou a publicação a 3 de setembro, sem apresentar uma explicação pública.

O episódio seguiu-se a uma publicação nas redes sociais, em fevereiro, do defesa Dean Huijsen, pela qual o clube pediu desculpa em seu nome, numa declaração divulgada na Weibo, segundo o Managing Madrid.

A nova controvérsia surge, assim, num contexto em que a relação comercial com a China exige atenção não só ao desempenho desportivo e à promoção das marcas, mas também à forma como clubes e atletas se posicionam perante temas politicamente sensíveis.

Para Mbappé, o valor exato das perdas permanece por conhecer. Para a La Liga, a questão é mais ampla: a suspensão das transmissões pela televisão estatal já está confirmada, mas o futuro da parceria digital com a Migu e o regresso dos jogos aos canais chineses dependem agora da evolução de uma disputa que ultrapassou rapidamente o campo desportivo.

com Lusa e Forbes Internacional

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