Durante quase duas décadas, a Bola de Ouro foi muito mais do que um prémio individual. Foi também o palco de uma rivalidade que ajudou a definir uma geração de adeptos, a estabelecer novos padrões de excelência e a alimentar uma discussão interminável sobre quem seria o melhor futebolista do mundo: Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo.
O argentino conquistou o troféu por oito vezes, enquanto o português soma cinco. Os dois transformaram épocas extraordinárias em referências quase obrigatórias e fizeram da conquista do prémio um capítulo de uma rivalidade que ultrapassou o futebol.
A vitória de Harry Kane na 70.ª edição da Bola de Ouro, realizada na segunda-feira à noite, em Londres, pode marcar o início de uma nova etapa. Não porque o avançado inglês, de 33 anos, tenha posto fim à carreira de qualquer dos seus antecessores, mas porque a sua consagração abre espaço a uma pergunta que há muito aguardava resposta: o que vem depois de Messi e Ronaldo?
Kane superou Kylian Mbappé, segundo classificado, e Lamine Yamal, terceiro, numa votação que reconheceu uma temporada de números extraordinários, títulos conquistados e protagonismo internacional. Mas a história por detrás do prémio ajuda a perceber por que razão esta vitória tem um significado que vai além das estatísticas.
O sucesso que demorou a chegar
Harry Kane não chegou ao topo do futebol mundial como uma estrela adolescente destinada a dominar a modalidade durante anos. A sua carreira foi construída através da persistência, da regularidade e de uma evolução contínua, num percurso diferente daquele que acompanhou a ascensão de Messi e Ronaldo.
Antes desta conquista, o melhor resultado de Kane na votação da Bola de Ouro tinha sido o décimo lugar, em 2024. Apesar de ser há vários anos um dos avançados mais produtivos do futebol mundial, faltava-lhe o reconhecimento individual de maior prestígio.
A ausência de grandes títulos coletivos também pesou durante parte da carreira. No Tottenham, clube pelo qual se tornou o melhor marcador de sempre, com 280 golos, Kane construiu uma reputação internacional sem conquistar um grande troféu. Pela seleção inglesa, ganhou a Bota de Ouro do Mundial de 2018 e tornou-se o melhor marcador da história da equipa nacional, mas perdeu as finais do Euro 2020 e do Euro 2024.
A transferência para o Bayern Munique mudou o contexto. O avançado passou a competir numa equipa habituada a disputar os principais títulos e conquistou, na temporada 2024/25, o seu primeiro grande troféu, com a vitória na Bundesliga. Na época seguinte, acrescentou a Taça da Alemanha ao currículo, completando a dobradinha nacional.
Aos 33 anos, Kane tornou-se também um dos vencedores mais velhos da história da Bola de Ouro. Desde a primeira edição, em 1956, poucos jogadores conquistaram o prémio numa idade superior. Stanley Matthews tinha 41 anos quando recebeu o primeiro troféu; Lionel Messi venceu aos 36, em 2023, e Karim Benzema aos 34, em 2022.
A vitória do inglês contraria, assim, a ideia de que o reconhecimento máximo tem necessariamente de chegar no início de uma carreira ou durante os anos de maior exuberância física. No caso de Kane, chegou depois de uma longa aprendizagem e de uma mudança de contexto competitivo.
73 golos e uma forma diferente de jogar
Os números da temporada 2025/26 ajudam a explicar a escolha dos jornalistas. Kane marcou 73 golos em 65 jogos pelo Bayern Munique e pela seleção inglesa, incluindo 61 em 51 partidas pelo clube alemão. Só na Bundesliga, apontou 36 golos em 31 jogos, terminando como melhor marcador do campeonato pela terceira época consecutiva desde que chegou à Alemanha.
Na Liga dos Campeões, marcou 14 golos, ficando a um de Mbappé na classificação dos melhores marcadores. O Bayern chegou às meias-finais, onde foi eliminado pelo Paris Saint-Germain.
Ao serviço da seleção inglesa, Kane marcou seis golos e fez uma assistência no Mundial de 2026. A Inglaterra terminou a competição no terceiro lugar, depois de perder com a Argentina nas meias-finais e vencer a França na disputa pelo último lugar do pódio.
A produtividade goleadora, porém, não conta toda a história. Referem os analistas que Kane combina as características de um ponta de lança tradicional com competências habitualmente associadas a um organizador de jogo. Os especialistas destacam que o jogador é capaz de finalizar dentro da área, recuar para participar na construção ofensiva, encontrar colegas com passes decisivos e ajudar a determinar o ritmo dos ataques. Essa versatilidade permite-lhe influenciar o jogo de formas diferentes, mesmo quando não é ele a marcar. A sua importância não se limita, por isso, à contagem de golos: está também na capacidade de criar oportunidades e de contribuir para o funcionamento coletivo da equipa.
A passagem da Premier League para a Bundesliga foi igualmente importante para demonstrar que a sua influência não dependia de um único campeonato ou contexto. No Bayern, Kane encontrou um ambiente competitivo diferente e transformou a regularidade individual em títulos coletivos.
O fim de uma referência única?
A hegemonia de Messi e Ronaldo não se limitou à acumulação de troféus. Os dois jogadores elevaram a fasquia daquilo que se esperava de uma grande temporada e tornaram a excelência individual uma obrigação quase anual.
Durante esse período, a discussão sobre a Bola de Ouro foi frequentemente condicionada pela comparação entre ambos. A cada edição, a pergunta era, muitas vezes, qual dos dois merecia ganhar, mesmo quando outros jogadores apresentavam argumentos fortes.
A vitória de Kane pode contribuir para alterar essa lógica. Com duas figuras que dominaram a modalidade durante tantos anos já fora do centro da disputa pelo prémio, a avaliação pode voltar a concentrar-se numa competição mais aberta entre jogadores de diferentes gerações, posições e estilos.
Mbappé e Yamal, segundo e terceiro classificados, representam duas dessas possibilidades. Kane oferece outra: a de um jogador que atingiu o auge do reconhecimento internacional depois de uma carreira longa, sem ter sido considerado, desde muito jovem, uma figura inevitável na luta pela Bola de Ouro.
O prémio é decidido por jornalistas, que classificam os jogadores nomeados tendo em conta as prestações individuais, os resultados coletivos e o comportamento desportivo. O desempenho individual é o critério prioritário, embora os títulos conquistados possam reforçar uma candidatura.
No caso de Kane, os golos, os títulos nacionais e o Mundial constituíram um argumento particularmente forte. A sua vitória mostra também como o contexto coletivo pode ajudar a transformar uma carreira individualmente brilhante numa carreira reconhecida ao mais alto nível.
Uma vitória partilhada com quem ficou para trás
No discurso de aceitação, Kane procurou afastar-se da imagem do herói solitário. Em vez de se concentrar apenas nos números e na dimensão do prémio, dedicou uma parte importante das suas palavras à família, aos treinadores e aos clubes que marcaram o seu percurso.
Dirigindo-se ao irmão Charlie, recordou os tempos em que os dois davam pontapés numa bola no jardim. Agradeceu aos pais os anos de sacrifícios, as deslocações para os treinos e o apoio constante, independentemente do local onde jogava.
“Quando nos rodeamos das melhores pessoas, isso só nos torna melhores como pessoas e como jogadores”.
A mulher, Kate, a quem chamou a sua melhor amiga e maior apoiante, também teve um lugar central no discurso. “Não seria possível sem ti”, afirmou, reconhecendo os sacrifícios que fez para o ajudar a concretizar os seus objetivos.
Kane dirigiu-se ainda aos filhos, que acompanhavam a cerimónia a partir de casa, e deixou uma mensagem que resumiu a dimensão pessoal daquele momento: “Vocês são a razão pela qual faço isto”.
O avançado não esqueceu o Tottenham, clube onde construiu a maior parte da carreira antes de se mudar para a Alemanha. “Não estaria onde estou hoje sem o Tottenham”, afirmou, agradecendo aos treinadores e aos adeptos que o acompanharam ao longo dos anos.
Entre os treinadores mencionados estavam Harry Redknapp, Mauricio Pochettino, José Mourinho, Thomas Tuchel e Vincent Kompany. Kane atribuiu a todos um papel importante no seu desenvolvimento, tanto como jogador como pessoa.
“Quando nos rodeamos das melhores pessoas, isso só nos torna melhores como pessoas e como jogadores”, disse.
A referência ao Bayern foi igualmente significativa. Kane agradeceu à equipa técnica e aos colegas pela forma como o incentivaram e contribuíram para a sua evolução. Disse ter melhorado como jogador, pessoa e líder desde que chegou ao clube e descreveu como uma honra representar o emblema alemão.
“Para qualquer rapaz ou rapariga que queira concretizar o seu sonho, tudo é possível”.
A terminar, deixou uma mensagem dirigida a todos os jovens que sonham chegar ao topo do futebol: “Para qualquer rapaz ou rapariga que queira concretizar o seu sonho, tudo é possível”.
A frase resume uma carreira que não correspondeu ao modelo habitual da estrela precoce, mas que encontrou reconhecimento através da persistência e da evolução.
A vitória de Kane não apaga o legado de Messi e Ronaldo, nem determina quem dominará o futebol nos próximos anos. Mas representa uma mudança na conversa sobre o que significa ser o melhor jogador do mundo. Depois de uma geração marcada por duas figuras quase inigualáveis, a Bola de Ouro volta a premiar um percurso diferente — e a deixar em aberto a definição da próxima era do futebol.
com Lusa e Forbes Internacional





