A Anthropic apresentou oficialmente o pedido de entrada em bolsa esta segunda-feira, antes da abertura dos mercados norte-americanos. O documento, com 335 páginas, confirma o crescimento meteórico da empresa de São Francisco, criadora do Claude, e dedica uma parte substancial aos riscos associados à Inteligência Artificial (IA). A empresa ainda não revelou a avaliação desejada nem o número de ações que pretende colocar no mercado, embora vários meios de comunicação social apontem para uma possível estreia em Wall Street em novembro.
O documento oferece também uma visão pouco habitual sobre o funcionamento interno da tecnológica, os seus clientes, os custos de operação e os desafios que enfrenta à medida que procura transformar o crescimento da IA num negócio sustentável.
Receitas disparam, mas os prejuízos continuam a pesar
Segundo os documentos fornecidos, a Anthropic registou receitas de 16,3 mil milhões de dólares (14,5 mil milhões de euros) no primeiro semestre de 2026, contra 1,2 mil milhões de dólares (1,02 mil milhões de euros) no período homólogo do ano anterior. O valor supera também largamente os 4,6 mil milhões de dólares (4,1 mil milhões de euros) faturados ao longo de todo o ano de 2025.
O ritmo de crescimento é invulgar mesmo para o setor tecnológico. num artigo publicado, a agência Lusa escreve que nunca uma empresa tinha alcançado receitas desta dimensão em apenas cinco anos de existência.
Mas o aumento da faturação não significa que a Anthropic esteja perto de alcançar a rentabilidade. A empresa reportou prejuízos de 80,7 mil milhões de dólares (68,6 mil milhões de euros) no primeiro semestre, face a 13 mil milhões de dólares (11,05 mil milhões de euros) no mesmo período do ano anterior.
A Anthropic ainda não divulgou a avaliação pretendida para a entrada em bolsa nem a data oficial da operação.
Estes valores incluem um efeito contabilístico relacionado com a avaliação das ações da empresa, que teve um impacto negativo de 72 mil milhões de dólares (64,2 mil milhões de euros). Mesmo excluindo esse efeito, a Anthropic continuou a registar prejuízos de 8,4 mil milhões de dólares (7,4 mil milhões de euros).
Ao contrário de concorrentes como a Google e a Meta, ou da SpaceX, que controla a xAI, a Anthropic não dispõe de receitas provenientes de outras áreas de negócio que possam ajudar a financiar o desenvolvimento dos seus modelos de inteligência artificial.
Compromissos de 265 mil milhões de dólares com a computação na nuvem
Uma das maiores exigências financeiras da Anthropic é garantir capacidade computacional suficiente para treinar e executar os seus modelos de IA.
Para assegurar esses recursos, a empresa assumiu compromissos significativos com fornecedores de serviços de computação na nuvem (cloud). No final de junho, esses compromissos ascendiam a 265 mil milhões de dólares (236 mil milhões de euros), distribuídos ao longo de 20 anos, segundo o documento apresentado aos reguladores norte-americanos. A esse montante acrescem contratos que não estabelecem um valor mínimo de despesa.
Estes compromissos ilustram a dimensão dos investimentos necessários para sustentar o desenvolvimento de modelos cada vez mais sofisticados, num setor em que a capacidade de computação se tornou um recurso estratégico e dispendioso.
Mais de 250 empresas gastam acima de 10 milhões de dólares por ano no Claude
O documento revela também a dimensão da base de clientes empresariais da Anthropic e o peso crescente do Claude nas operações de grandes organizações.
A empresa tinha mais de 11.900 clientes que gastavam anualmente mais de 100.000 dólares (85.000 euros) nos seus serviços. Mais de 1.900 clientes despendiam acima de um milhão de dólares (850.000 euros) por ano, enquanto cerca de 250 gastavam mais de 10 milhões de dólares (8,5 milhões de euros) anuais.
A adoção do Claude estende-se também às maiores empresas cotadas do mundo. Mais de 30% das organizações incluídas no ranking Global 2000 da Forbes, que reúne algumas das maiores empresas públicas a nível mundial, gastavam pelo menos 100.000 dólares (85.000 euros) em serviços da Anthropic à data de 30 de setembro de 2026.
Apesar desta expansão, a concentração das receitas representa um risco. Os cinco maiores clientes da empresa foram responsáveis por cerca de 25% da faturação nos nove meses terminados em 30 de setembro de 2026. Nenhum cliente individual representava mais de 10% das receitas, mas muitos destes contratos não estão sujeitos a compromissos de longo prazo, têm prazos de validade próximos ou permitem aos clientes reduzir ou terminar as despesas a qualquer momento.
A dependência de um grupo relativamente pequeno de grandes clientes pode, assim, tornar as receitas mais vulneráveis a alterações nas prioridades de investimento das empresas.
Anthropic gasta mais com o Claude do que com os seus trabalhadores
Um dos dados mais reveladores do documento diz respeito à utilização interna da própria tecnologia. Entre janeiro e setembro de 2026, a utilização do Claude dentro da Anthropic aumentou mais de 250 vezes. Em abril, o valor mensal dessa utilização ultrapassou as despesas mensais com pessoal, excluindo a remuneração baseada em ações.
O modelo também está a transformar a forma como a empresa desenvolve o seu próprio software. Mais de 90% das contribuições para a base de código da Anthropic foram escritas pelo Claude. Além disso, nos três meses terminados em 30 de setembro de 2026, o volume de código acrescentado por engenheiro foi mais de 45 vezes superior à média diária registada em 2024.
Os números dão uma ideia do papel crescente da IA no desenvolvimento dos próprios sistemas que alimentam esta tecnologia, num ciclo em que os modelos ajudam a acelerar a criação e a melhoria de novas ferramentas.
Milhões gastos na segurança pessoal dos principais executivos
O documento revela ainda despesas significativas com a proteção dos principais responsáveis da Anthropic. Em 2025, o conselho de administração concluiu que eram necessários serviços de segurança pessoal reforçados para proteger o diretor executivo, Dario Amodei, e a presidente da empresa, Daniela Amodei.
A Anthropic declarou despesas de cerca de 2,75 milhões de dólares (2,34 milhões de euros) com a segurança pessoal de Dario Amodei, além de 97.000 dólares (82.450 euros) em viagens aéreas privadas. No caso de Daniela Amodei, os custos com proteção pessoal, segurança da residência e transporte ascenderam a 1,29 milhões de dólares (1,1 milhões de euros).
A documentação expõe não apenas a dimensão dos seus compromissos financeiros, mas também as preocupações de segurança associadas à liderança de uma das empresas mais influentes do setor da inteligência artificial.
Segundo estimativas da Forbes, as participações de Dario Amodei e Daniela Amodei na Anthropic estão avaliadas em 13,6 mil milhões de dólares (11,56 mil milhões de euros) e 13,7 mil milhões de dólares (11,65 mil milhões de euros), respetivamente.
Utilização indevida dos modelos também gera receitas
Outro dado que sobressai no documento é a estimativa de que entre 5% e 7% das receitas da Anthropic, nos nove meses terminados em 30 de setembro de 2026, terão tido origem em clientes que utilizavam os seus modelos, a plataforma ou as aplicações em violação das políticas de utilização ou dos termos comerciais da empresa.
A revelação evidencia uma das dificuldades enfrentadas pelos fornecedores de IA: controlar a forma como os seus sistemas são utilizados depois de disponibilizados a clientes e organizações.
A Anthropic reconhece que os seus mecanismos de controlo e salvaguarda, concebidos para impedir a utilização maliciosa dos modelos, já falharam, foram configurados incorretamente ou foram desativados por engano. A empresa admite que situações semelhantes poderão voltar a ocorrer no futuro sem serem detetadas.
O documento alerta ainda que os próprios modelos poderão causar danos de forma autónoma, incluindo através da execução de ações perigosas que não tenham sido solicitadas por qualquer utilizador.
Estes riscos poderão aumentar à medida que os modelos se tornam mais poderosos e recebem maior autonomia através de agentes de IA capazes de executar tarefas sem intervenção humana constante.
Palavra “segurança” aparece 250 vezes no documento
Quase 100 das 335 páginas do documento, excluindo os anexos, são dedicadas aos riscos a que a Anthropic está exposta, em particular os relacionados com a inteligência artificial. A palavra “segurança” aparece 250 vezes.
A empresa identifica quatro áreas em que acredita que a IA poderá contribuir para o progresso: avanços na biologia e na medicina, crescimento económico, maior acesso a benefícios e serviços públicos e outras melhorias na sociedade.
Em paralelo, aponta quatro grandes categorias de risco: a utilização da tecnologia para causar danos, o uso por governos autoritários, a possibilidade de perturbações económicas significativas e o comportamento autónomo da IA de formas indesejadas.
A Anthropic admite, assim, que os mecanismos destinados a evitar abusos não são infalíveis e que o desenvolvimento de sistemas com maior autonomia poderá tornar mais difícil antecipar todas as consequências.
A empresa tem também clientes governamentais nos Estados Unidos e noutros países, embora os contratos com entidades públicas tenham representado apenas cerca de 1% das receitas em cada um dos períodos analisados no documento.
com Lusa e Forbes Internacional





