Jensen Huang, CEO da Nvidia, parece ter encontrado uma fórmula para conquistar a confiança dos trabalhadores. Milhares de avaliações de funcionários da tecnológica na plataforma Glassdoor destacam a qualidade da liderança, o respeito pelos colaboradores e a preocupação da administração com as equipas.
“Nenhum profissional de marketing poderia ser melhor do que Jensen a promover a sua própria empresa — as pessoas que trabalham lá veneram-no”, escreveu um engenheiro de software este ano. Outros funcionários destacam que são tratados como adultos e que a gestão de topo demonstra um nível de preocupação com os trabalhadores que não encontraram noutras empresas.
Estes testemunhos ajudam a explicar a baixa rotatividade de pessoal da Nvidia: apenas 3,7% entre os seus 42 mil trabalhadores, em comparação com uma média de quase 22% no conjunto do setor tecnológico, segundo o mais recente relatório de sustentabilidade da empresa.
A Nvidia voltou, assim, a ocupar o primeiro lugar da lista das empresas mais confiáveis dos Estados Unidos, elaborada pela Forbes. Marriott, Delta, Chick-fil-A e Costco ocupam, respetivamente, as posições seguintes.
A classificação abrange 300 empresas, selecionadas a partir da análise de mais de 2500 organizações públicas e privadas. A metodologia considera dezenas de indicadores relacionados com a confiança, incluindo a satisfação e a permanência dos trabalhadores, a fidelidade dos consumidores, o crescimento das receitas e das ações e a notação de crédito.
“A confiança é fundamental para a existência de uma marca”, afirma Joe Feldman, analista sénior de retalho da Telsey Group, em Nova Iorque. “Se tratar bem os seus trabalhadores, eles tratarão bem os clientes, e a empresa será recompensada com mais visitas e mais dinheiro”.
A Nvidia conquistou o primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo, graças sobretudo à consistência do seu desempenho nas diferentes categorias. Destaca-se tanto no crescimento das ações e das receitas a um e cinco anos — ocupando o oitavo lugar entre todas as empresas — como nas avaliações dos trabalhadores, onde surge na 21.ª posição.
Contudo, como a Nvidia não vende diretamente aos consumidores e os seus chips são integrados noutros produtos, não pôde ser avaliada por clientes finais na componente de satisfação direta do público.
Esta ausência de avaliação junto dos consumidores finais poderá refletir a diferença entre a utilização dos produtos e a perceção pública da empresa. Embora os chips da Nvidia contribuam para produtos e serviços cada vez mais avançados, a contestação à inteligência artificial e às grandes tecnológicas tem vindo a crescer nos Estados Unidos.
Em março, uma sondagem da Gallup revelou que 71% dos norte-americanos se opunham à construção de centros de dados nas suas comunidades. A oposição tem também consequências políticas: em estados decisivos como Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, vários responsáveis políticos e candidatos têm criticado as grandes tecnológicas e a expansão destas infraestruturas. Sondagens realizadas nesses estados indicam que cerca de três quartos dos inquiridos se opõem à construção de centros de dados. No Wisconsin, a mesma proporção considera que os custos destas instalações ultrapassam os benefícios.
Seth Bodnar, candidato independente ao Senado norte-americano pelo Montana, considera que “a inteligência artificial está rapidamente a ficar fora de controlo, ameaçando transformar profundamente as nossas comunidades”.
“Enquanto os gigantes tecnológicos prometem inovação, a realidade é uma vaga incessante de centros de dados gigantescos que sobrecarregam a rede elétrica, consomem recursos naturais essenciais e ignoram as vozes das comunidades locais”, acrescenta.
Marriott, Delta e Costco também conquistam a confiança dos consumidores
A Delta, apesar de alguns aumentos nos preços dos bilhetes, tem conseguido manter a confiança dos passageiros. Segundo a Cirium, foi a companhia aérea norte-americana com maior pontualidade durante cinco anos consecutivos. Ao contrário de outras empresas do setor das viagens, que têm reduzido o valor dos pontos dos programas de fidelização e o acesso a clubes e salas VIP, a Delta tem mantido, em geral, benefícios sólidos para os clientes frequentes.
A Costco, por sua vez, beneficia da confiança que os consumidores depositam na seleção de produtos disponíveis nas suas lojas. Para muitos clientes, o valor da adesão não está apenas nos preços, mas na convicção de que a empresa já avaliou a qualidade dos artigos que vende.
“Se precisar de um desumidificador para a cave, pode ir à Costco e provavelmente encontrará dois ou três modelos. Escolhe um e está feito”, explica Feldman. “Confia que a Costco fez o trabalho por si e escolheu o produto certo.”
O exemplo mostra como a confiança pode tornar-se uma vantagem competitiva: em vez de comparar dezenas de alternativas, o consumidor delega parte da decisão na empresa.
Perder a confiança pode sair caro
A confiança dos consumidores, porém, pode desaparecer rapidamente. Foi o que aconteceu este ano à Taco Bell, depois de um surto de ciclosporíase, uma infeção intestinal, ter levado a cadeia de restauração a retirar alface, coentros e outros ingredientes potencialmente afetados.
A Yum! Brands, proprietária da Taco Bell, da Pizza Hut e da KFC, caiu do 200.º lugar no ranking da Forbes no ano passado para a 271.ª posição.
Rob Pace, CEO da empresa de investigação HundredX, cujos dados de inquéritos aos consumidores constituem uma das principais componentes da classificação, afirma que as avaliações da Taco Bell pioraram após o incidente, embora estejam a recuperar gradualmente.
“A perda de confiança é uma das situações mais difíceis de gerir para uma administração, sobretudo no setor da restauração, onde está em causa a perceção de segurança alimentar”, explica Pace. O problema afeta não só a intenção de voltar a comprar, mas também a perceção da qualidade e do próprio menu.
No entanto, os dados recolhidos pela HundredX sugerem que, no caso da Taco Bell, o impacto foi limitado. “Há alguma preocupação, mas não uma perceção generalizada de que se trata de um risco recorrente”, acrescenta.
A confiança dos trabalhadores também influencia os investidores
As empresas que conseguem criar relações de confiança com os seus trabalhadores tendem a registar níveis mais baixos de rotatividade, afirma Ben Eisenberg, CEO da People Data Labs, empresa que acompanha indicadores relacionados com a permanência dos funcionários nas organizações.
Esta estabilidade pode também contribuir para conquistar a confiança dos investidores, que procuram sinais de que uma empresa está bem preparada para crescer e gerar lucros.
“Os investidores olham para a retenção de talento como um indicador, porque sabem que as empresas que conseguem manter os seus trabalhadores tendem a apresentar melhores resultados”, explica Eisenberg.
“Se os funcionários acreditarem na missão da empresa, sentirem que aquilo que a organização promete está realmente a acontecer e confiarem na liderança, vão permanecer. Muitas empresas ignoram este fator quando se concentram nos indicadores financeiros, nos comunicados de imprensa e nas parcerias”, conclui.
A classificação da Forbes mostra, assim, que a confiança empresarial vai muito além da reputação de uma marca junto dos consumidores. A forma como uma organização trata os trabalhadores, cumpre as suas promessas e mantém um desempenho consistente pode ser tão importante como os resultados financeiros para sustentar relações duradouras com clientes e investidores.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





