A riqueza das famílias portuguesas cresceu significativamente nos últimos 15 anos, impulsionada sobretudo pela valorização dos imóveis e pelo aumento dos ativos financeiros. Mas, por detrás dos números que mostram um património total de quase 1,2 biliões de euros, persiste uma realidade desigual: a maior parte da riqueza está concentrada numa pequena parcela da população.
Entre 2010 e 2025, os 10% de famílias com maior riqueza líquida concentraram 59% do património líquido total em Portugal. No extremo oposto, metade das famílias portuguesas, aquelas que apresentam menor riqueza depois de descontadas as dívidas, detinha apenas 6% do total. Os dados constam de uma análise divulgada pelo Banco de Portugal (BdP), que acompanha a evolução e a distribuição da riqueza das famílias ao longo deste período.
A distribuição manteve-se relativamente estável durante os 15 anos analisados. Ou seja, apesar do aumento expressivo do valor global do património, não se registou uma alteração significativa na forma como a riqueza líquida se reparte entre as famílias.
Mais 480 mil milhões de euros em património
Em 2025, a riqueza líquida das famílias portuguesas ascendia a 1.196 mil milhões de euros, mais 480 mil milhões do que em 2010, o equivalente a um crescimento nominal de 67%. Este indicador corresponde ao valor dos ativos detidos pelas famílias, depois de deduzidos os respetivos passivos, incluindo os empréstimos.
O percurso, contudo, não foi linear. No início da década de 2010, a crise financeira internacional e a crise das dívidas soberanas na Europa contribuíram para uma redução do património, que atingiu o valor mais baixo em 2013, nos 656 mil milhões de euros. A partir desse ano, a riqueza líquida retomou uma trajetória de crescimento, influenciada sobretudo pela valorização dos ativos.
O aumento nominal não significa, porém, que a riqueza tenha crescido ao mesmo ritmo que o peso das famílias na economia. Em 2025, o património líquido correspondia a cerca de 390% do Produto Interno Bruto (PIB), menos dez pontos percentuais do que em 2010. O valor mais elevado foi registado em 2020, quando atingiu cerca de 433% do PIB, num período em que a pandemia provocou uma redução da atividade económica.
A habitação continua a ser o principal ativo
A evolução do património das famílias portuguesas está estreitamente ligada ao mercado imobiliário. Os imóveis residenciais continuam a representar a maior componente dos ativos, apesar de outras formas de riqueza, como as participações em capital e os depósitos, terem ganho importância relativa.
Entre 2010 e 2025, o valor dos imóveis aumentou quase 50%, passando de 473 para 708 mil milhões de euros. O crescimento refletiu sobretudo a valorização dos imóveis ao longo do período. Ainda assim, o seu peso no total dos ativos das famílias diminuiu de 54% para 52%.
As participações em capital, incluindo empresas familiares, e os depósitos representavam, cada um, 19% dos ativos das famílias em 2025. Em 2010, os primeiros correspondiam a 14% e os segundos a 16%.
A importância da habitação é particularmente evidente entre as famílias com menor património. Em 2025, os imóveis representavam cerca de 74% dos ativos das famílias cuja riqueza líquida se situava abaixo da mediana. Entre os 10% mais ricos, essa proporção era inferior a 40%.
Neste último grupo, as participações em capital correspondiam a 28% dos ativos, evidenciando uma maior diversificação patrimonial. Embora os depósitos continuem a ter um peso relevante em todos os escalões de riqueza, as famílias mais ricas dispõem de uma composição de ativos mais diversificada, que inclui uma maior exposição ao capital empresarial.
Estas diferenças ajudam a perceber como a riqueza pode evoluir de forma distinta entre grupos de famílias. O património imobiliário tem um peso particularmente elevado entre quem possui menos riqueza líquida, enquanto os grupos mais favorecidos apresentam maior capacidade para distribuir os seus ativos por diferentes categorias.
A riqueza mediana continua abaixo da média europeia
A riqueza líquida mediana das famílias portuguesas aumentou de 77 mil euros, em 2010, para 104 mil euros, em 2025. A mediana corresponde ao valor que divide as famílias em duas metades: uma com património líquido superior e outra com património inferior.
Apesar da subida, Portugal continua abaixo da área do euro. No mesmo período, a riqueza líquida mediana das famílias da moeda única passou de 106 mil para 151 mil euros.
A diferença relativa manteve-se praticamente inalterada. Em 2010, a mediana portuguesa correspondia a cerca de 72% da observada na área do euro; em 2025, representava 69%.
Há, contudo, uma particularidade na distribuição nacional. Entre 2010 e 2025, as famílias portuguesas abaixo da mediana detinham, em média, 6,1% da riqueza total, acima dos 4,5% registados na área do euro. Segundo o Banco de Portugal, esta diferença está associada ao peso elevado dos imóveis no património das famílias portuguesas com menor riqueza.
Desigualdade próxima da média da área do euro
A concentração da riqueza em Portugal não é muito diferente da observada no conjunto da área do euro, segundo outro indicador analisado pelo Banco de Portugal. O índice de Gini, que mede a desigualdade na distribuição do património numa escala de zero a 100, situava-se em 72,6 em Portugal, em 2025, e em 73,1 na área do euro.
Em ambos os casos, a desigualdade aumentou ao longo da década de 2010, diminuiu no final desse período e voltou a subir nos anos seguintes.
Os dados mostram, assim, duas realidades que coexistem. Por um lado, a riqueza líquida das famílias portuguesas cresceu de forma expressiva em termos nominais e atingiu 1.196 mil milhões de euros em 2025. Por outro, essa riqueza continua concentrada: os 10% mais ricos detêm 59% do total, enquanto metade das famílias fica com apenas 6%.
Mais do que o valor agregado do património, é a sua distribuição que permite perceber como a evolução da riqueza se reflete de forma desigual na situação económica das famílias.
com Lusa





