A infeção por VIH existe mesmo quando não falamos sobre ela. Este tema pode ter desaparecido do espaço público, no entanto isso não significa, o fim da sua existência. O estigma que ainda rodeia o VIH faz com que o silêncio seja confortável, e esse conforto leva a que se prefira ignorar a realidade. E qual é a realidade? Que, apesar de termos um caminho já percorrido no que diz respeito ao diagnóstico e tratamento do VIH, de que nos devemos orgulhar, há todo um outro que nos falta percorrer, ao qual devemos estar atentos.
O relatório mais recente do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e da Direção-Geral da Saúde (DGS), com dados até junho de 2025, mostra que entre 2015 e 2024 se observou uma redução de 35% no número de novos casos de infeção por VIH e de 43% em novos casos de SIDA (Ref: Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde/Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Infeção por VIH em Portugal – 2025. Lisboa: DGS/INSA; 2025). Até aqui, boas notícias.
No entanto, ao mesmo tempo que o documento mostra que temos aquilo que chama de tendência decrescente que se mantém “sustentada”, alerta para o facto de Portugal continuar a apresentar taxas de novos diagnósticos de infeção por VIH e de SIDA superiores aos valores médios registados na União Europeia. E casos que continuam a ser diagnosticados em populações jovens (27,6% tinham idade inferior a 30 anos). Aliás, os dados revelam que a taxa de diagnóstico mais elevada se registou no grupo etário dos 25 aos 29 anos (Ref: Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde/Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Infeção por VIH em Portugal – 2025. Lisboa: DGS/INSA; 2025).
Estes são dados que confirmam a necessidade de se falar sobre o tema e de se falar junto das populações mais jovens, que claramente continuam a necessitar de informação. E as escolas são um espaço por excelência para a partilha desta informação. Não só para esclarecer sobre o que é a doença e como se transmite, explicando as formas de transmissão e de prevenção, como ainda para reforçar a importância da testagem, que permite diagnosticar precocemente a infeção e facilitar o acesso atempado aos cuidados de saúde.
Aliás, os dados do relatório acima citado mostram que também aqui há um trabalho essencial a fazer, uma vez que, em mais de metade dos casos (53,9%) registados, a apresentação no momento do diagnóstico foi tardia. Ainda que este seja um problema maior nas pessoas com 50 ou mais anos, a escola continua a poder fazer parte da solução. Isto porque um aluno que aprenda hoje na sala de aula como prevenir a infeção por VIH, a importância da testagem e que existem cuidados e tratamento disponíveis não guarda necessariamente esse conhecimento para si, mas pode levá-lo para casa e partilhá-lo com os pais e com os avós. A sala de aula não termina com o toque da campainha.
A literatura sobre aprendizagem intergeracional mostra que a partilha de conhecimento entre gerações pode contribuir, entre outros resultados, para aumentar o conhecimento sobre saúde e prevenção da doença, um fenomeno conhecido como como “transmissão intergeracional de conhecimento”. Neste sentido, a informação trabalhada em contexto escolar pode também criar oportunidades de diálogo para além da sala de aula, envolvendo famílias e comunidade.O que significa que o poderão fazer também quando o tema é o VIH.
Apesar de todos os avanços, os desafios associados ao combate ao VIH/SIDA não desapareceram. O relatório indica ainda que, em 2024, o número de novos casos de SIDA foi superior ao registado nos dois anos anteriores, reforçando a importância do diagnóstico atempado. (Ref: Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde/Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Infeção por VIH em Portugal – 2025. Lisboa: DGS/INSA; 2025).
Falamos ainda na demora do diagnóstico – o tempo médio estimado entre a infeção e o diagnóstico fica nos 3,7 anos, com uma redução que tem sido lenta ao longo do tempo – e de pessoas que vivem com VIH sem diagnóstico – estima-se que cerca de 2.888 pessoas viviam com VIH sem diagnóstico em Portugal no final de 2023 (Ref: Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde/Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Infeção por VIH em Portugal – 2025. Lisboa: DGS/INSA; 2025).
Os números mostram que o progresso é real, mas também que não é transversal: há quem chegue tarde ao diagnóstico e há quem viva anos sem ter conhecimento que vive com VIH. Informar não resolverá tudo, mas é fundamental para que as pessoas tomem decisões informadas. Por isso, na escola, em casa ou no centro de saúde, falar sobre VIH não deve ser um tema incómodo ou a evitar. É a condição para que o caminho já percorrido não fique a meio.
Rita Tinoco,
Diretora Médica da ViiV Healthcare Portugal





