O valor económico da água na agricultura portuguesa pode ser resumido num simples número: o regadio ocupa apenas 17% da Superfície Agrícola Utilizada, mas assegura cerca de 30% da produção agrícola nacional. A diferença mostra que a água é muito mais do que um recurso natural ou uma preocupação ambiental. É um fator de produtividade, competitividade e segurança alimentar – um valor cada vez mais pertinente nos dias que correm.
Esse modelo enfrenta agora um teste decisivo. Num cenário climático mais desfavorável, e mantendo-se as atuais condições agronómicas, as necessidades de água para rega poderão aumentar até 27,5% entre 2071 e 2100. Seria um erro lermos esta projeção como uma simples obrigação de se encontrar mais 27,5% de água. O verdadeiro desafio, e o que temos de fazer, é usar melhor cada metro cúbico disponível e acelerarmos a adaptação da agricultura antes de a escassez assumir o papel principal e nos impor decisões.
Acelerar a transformação
Neste contexto, importa salientar que Portugal não parte do zero. Como tenho sublinhado várias vezes, o consumo médio geral passou de cerca de 16 mil metros cúbicos por hectare, em 1960, para três a quatro mil atualmente. Entre 1999 e 2023, a eficiência dos sistemas de rega aumentou 18% e, em 2025, as áreas abrangidas por compromissos de uso eficiente da água já ultrapassavam 118 mil hectares. Nas últimas décadas, o regadio tornou-se mais tecnológico, preciso e produtivo. Mas o ritmo das alterações climáticas obriga-nos a ampliar e acelerar esta transformação.
As ferramentas já existem. Sensores de humidade no solo, equipamentos que monitorizam o potencial hídrico das plantas, estações meteorológicas, drones, imagens de satélite e sistemas de telemetria permitem conhecer com detalhe as condições de cada parcela. A emergência das inteligências artificiais abre porém uma nova etapa: estas tecnologias podem cruzar estes dados com as características do solo, a fase de desenvolvimento das culturas e as previsões meteorológicas para apoiar decisões mais informadas e eficientes. No fundo, ao integrar diferentes fontes de informação e encontrar relações que são difíceis de identificar manualmente, a IA transforma todo o manancial de informação de que dispomos em recomendações simples mas muito valiosas para os agricultores: quando, onde e quanto regar. Ainda estamos no início, mas o setor primário tem muito a ganhar com as funcionalidades oferecidas pelas IAs.
Importa contudo sublinhar que a tecnologia, porém, não cria água nem substitui os conhecimentos dos agricultores e que instalar simplesmente equipamentos não gera, por si só, poupanças. O valor surge quando a informação muda decisões no terreno e produz resultados mensuráveis: menos regas desnecessárias, menor consumo de energia e fertilizantes e maior precisão na utilização da água.
Próxima etapa exige novas métricas para o valor da água
É por isso que defendemos que a próxima etapa do regadio exige novas métricas. A área regada e o volume consumido já não chegam para avaliar o desempenho. Precisamos de medir a eficiência da aplicação, os metros cúbicos utilizados por unidade produzida e o valor económico criado por cada metro cúbico. Sem esta informação, corremos o risco de confundir a compra de tecnologia com a transformação real do setor.
Este mesmo critério deverá orientar o investimento público. Modernizar uma infraestrutura ou instalar sensores é um meio, não um resultado. O que conta é a água efetivamente poupada, o consumo de energia evitado, o nível de resiliência conquistado e a produção assegurada. Quando os recursos financeiros e hídricos são limitados, a qualidade do investimento torna-se tão importante como o montante investido.
Produzir e preservar: uma escolha para cada território
Além disso, precisamos de superar o debate que opõe agricultura e ambiente, como se produzir e poupar fossem objetivos incompatíveis. Uma agricultura sem água perde capacidade produtiva. Uma utilização sem limites destrói as condições de que essa produção depende. A resposta passa por conciliar disponibilidade, eficiência e valor económico, reconhecendo que qualquer solução terá de respeitar as características de cada território.
É esta discussão que o XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem levará a Beja, de 30 de setembro a 2 de outubro, sob o tema Água para Produzir o Futuro. Responsáveis políticos, agricultores, empresas tecnológicas, investigadores e organizações ambientais vão debater quem decide o futuro da água, que estratégia nacional é necessária, como atrair uma nova geração para a agricultura e de que forma a inteligência artificial pode transformar o regadio. O encontro só será relevante se ajudar a converter estas perguntas em escolhas concretas, metas verificáveis e investimento com impacto.
Portugal já provou que consegue tornar a rega mais eficiente. Na próxima década o país terá de mostrar se consegue transformar este progresso em resiliência, produtividade e sustentabilidade. O futuro da agricultura portuguesa não será decidido apenas pela água que tivermos, mas sobretudo pelo valor que formos capazes de criar com cada gota.
Gonçalo Morais Tristão,
Presidente do Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR)





