Há cerca de quatro anos, João da Silva decidiu percorrer a pé 300 quilómetros entre os IPO de Lisboa, Coimbra e Porto, numa caminhada a que chamou “300 km de Esperança”. A distância acabou por chegar aos 380 quilómetros, numa iniciativa que procurava levar uma mensagem de força e esperança a quem enfrentava o cancro e, simultaneamente, apoiar a ACREDITAR – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro.
Agora, João voltou a pôr os pés ao caminho. Desta vez são 700 quilómetros, entre Faro e Cevide, no concelho de Melgaço, atravessando Portugal continental de sul a norte.
A caminhada, que começou no passado dia 21 de setembro, acontece no âmbito do “Setembro Dourado”, o mês internacional de sensibilização para o cancro pediátrico, e tem uma meta financeira concreta: angariar 9.400 euros, o valor necessário para assegurar durante um ano um quarto na Casa ACREDITAR de Coimbra.
Mas a ideia para esta nova caminhada não nasceu simplesmente do desejo de percorrer uma distância maior. Surgiu de uma realidade que João, antigo jornalista durante 22 anos e atualmente escritor e orador motivacional, conhece de perto e que voltou a encontrar numa consulta de revisão no IPO: “A ideia surgiu numa consulta de revisão no IPO, quando vi chegar algumas ambulâncias vindas de bastante longe. Isso fez-me recordar as pessoas que conheci durante os meus tratamentos e que tinham de percorrer grandes distâncias para se tratarem em Lisboa”.

João da Silva, 51 anos, salienta: “Sei, por experiência própria, como os tratamentos podem ser duros. E sempre me senti um privilegiado por morar a cerca de 20 quilómetros do IPO. Sensibilizava-me muito pensar em quem tinha de viajar uma hora e meia, duas, três ou mais para fazer um tratamento e, no fim, ainda enfrentar o regresso a casa. Ao desgaste do tratamento somava-se o de mais uma viagem. Sou também transplantado renal e faço consultas de acompanhamento em Coimbra. E aí vejo a mesma realidade: pessoas que chegam de muito longe, de ambulância ou em carros particulares, para receberem os cuidados de que precisam. De forma muito simples, foi daí que nasceu esta ideia”.

João diz que “quis fazer este percurso de forma simbólica, porque o cancro pode afetar qualquer pessoa, de sul a norte do país. E quis percorrer uma distância grande, também como forma de lembrar as grandes distâncias que tanta gente tem de percorrer para se tratar”.
“Quis percorrer uma distância grande, também como forma de lembrar as grandes distâncias que tanta gente tem de percorrer para se tratar”.
“Escolhi caminhar de Faro a Cevide para ligar o sul ao norte de Portugal continental. O ponto mais a sul é o cabo de Santa Maria, na Ilha Deserta, mas, como a caminhada era toda a pé, parti de Faro. O destino foi Cevide, o ponto mais a norte de Portugal, onde se costuma dizer que «começa Portugal”, explica.
Estes 700 quilómetros são, assim, “uma forma de chamar a atenção para uma dificuldade que nem sempre é visível: para muitas pessoas, enfrentar o cancro implica também fazer longas viagens, numa altura em que cada esforço pesa ainda mais”, enfatiza João da Silva.
Uma caminhada que começou em 2022
A nova jornada de 700 km, que pode ser acompanhada nas redes sociais do autor (Instagram e Facebook), tem também uma ligação direta à experiência de 2022.
Na altura, João percorreu os três IPO portugueses e descobriu que a dimensão mais importante da caminhada não estava necessariamente nos quilómetros percorridos, mas na forma como a iniciativa chegou às pessoas que estavam a enfrentar a doença: “O que mais me ficou da experiência de 2022 foi a forma como tantas pessoas que estavam a lidar com o cancro se identificaram com a minha jornada. Recebi muitas mensagens de incentivo e de pessoas que me disseram ter encontrado força e uma esperança renovada ao verem alguém que passou por três situações oncológicas e um transplante renal conseguir percorrer a pé uma distância tão grande. Mais do que o reconhecimento do esforço, marcou-me perceber que a mensagem que queria transmitir tinha chegado a quem precisava dela. Foi isso que me deu vontade de voltar a caminhar por esta causa”.

“O importante nunca fui eu, mas a mensagem de força e de esperança que queria deixar: mesmo numa situação muito difícil, podemos tentar fazer alguma coisa, dentro das nossas possibilidades. Se não conseguimos caminhar um quilómetro, talvez consigamos andar dez metros. E, se num dia não conseguirmos, também temos de respeitar isso. Não se trata de comparar esforços ou distâncias, mas de fazer o que podemos em cada dia”, transmite.
“Mesmo numa situação muito difícil, podemos tentar fazer alguma coisa, dentro das nossas possibilidades”.
É, aliás, essa mensagem que João pretende levar consigo ao longo dos 700 quilómetros. A caminhada é, simultaneamente, um desafio pessoal e uma forma de chamar a atenção para uma realidade que conhece por experiência própria: o impacto que a doença tem não apenas nos tratamentos, mas também na vida quotidiana dos doentes e das famílias.
Um quarto para uma família que está longe de casa
A ligação à ACREDITAR também não é nova. Já em 2022 a associação esteve associada à iniciativa, então com uma angariação destinada às obras na Casa ACREDITAR de Lisboa.
Desta vez, o apoio tem um objetivo ainda mais concreto: financiar durante um ano um quarto na Casa ACREDITAR de Coimbra.
“A ligação à ACREDITAR já vinha da caminhada ‘300 km de Esperança’, em 2022, que acabou por ter 380 km. Na altura, também houve uma angariação de fundos, destinada às obras na Casa ACREDITAR de Lisboa. Desta vez, quis voltar a apoiar a associação porque a ideia de uma ‘casa longe de casa’ me toca particularmente. Ter de sair de casa para receber tratamentos oncológicos, que muitas vezes são prolongados, significa afastar-se da família, das pessoas que conhecemos e do conforto do nosso dia a dia. Para uma criança e para os pais que a acompanham, é uma realidade muito dura, à qual se juntam despesas que nem todas as famílias conseguem suportar. As Casas ACREDITAR de Lisboa, Coimbra e Porto dão uma resposta muito importante a essa necessidade. É um trabalho que considero meritório e que merece todo o apoio”, aponta João da Silva.

O objetivo de financiar um quarto na Casa ACREDITAR de Coimbra foi definido em conjunto com a associação: “Havia necessidade de apoio para os quartos desta casa e decidimos direcionar a angariação para assegurar um deles durante um ano, o que corresponde a 9.400 euros. É um valor elevado, mas também uma forma muito concreta de ajudar: garantir que as crianças e as famílias que ali ficam têm uma casa onde se sentem acolhidas durante os tratamentos”, refere.
Os 9.400 euros são, assim, mais do que uma meta de angariação. Representam a possibilidade de assegurar um espaço de alojamento para uma família que, num momento particularmente difícil, precisa de se deslocar para acompanhar o tratamento de uma criança. É também por esse quarto que João percorre os 700 quilómetros.
“Acreditem sempre e tentem viver”
Quando João chegar a Cevide, a meta não será apenas financeira. João quer que a caminhada deixe uma mensagem junto de quem está a enfrentar uma doença e, sobretudo, junto de quem sente que já não consegue encontrar uma saída.
A mensagem, reconhece, não pretende ignorar a dureza dessas situações: “Em primeiro lugar, gostaria verdadeiramente que o valor angariado fosse elevado, porque isso teria um efeito prático: uma ajuda real para as crianças que têm cancro e para as suas famílias”, declara João da Silva.
“Gostaria verdadeiramente que o valor angariado fosse elevado, porque isso teria um efeito prático: uma ajuda real para as crianças que têm cancro e para as suas famílias”.
Depois, “gostaria que ficasse uma palavra de força e de esperança para todos aqueles que se encontram neste momento no fundo do poço e não conseguem ver uma luz no topo. Gostaria de lhes dizer que, mais tarde ou mais cedo, pode ser que surja essa luz. Sou muito realista e sei que, para muita gente, ela não vai surgir. Mas também devo dizer que, se há 20 anos, quando eu estava doente, me dissessem que um dia estaria a tentar percorrer o país de sul a norte, provavelmente diria que estavam completamente loucos. Se calhar, até me sentiria desrespeitado, porque também eu me sentia no fundo do poço”, confessa.
“A mensagem que quero passar às pessoas que estão a viver uma situação difícil é que tenham paciência e que acreditem. Acreditem sempre e tentem viver, apesar das dificuldades. Se não correr bem, pelo menos viveram”, afirma João da Silva.
18 clubes juntaram-se à caminhada
Para tentar aumentar o impacto da angariação, João encontrou também uma forma de envolver o futebol português na iniciativa. Pediu camisolas a clubes e conseguiu reunir o apoio de 18 clubes da Primeira e Segunda Ligas portuguesas, além da APAF (APAF – Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol).
As camisolas, cada uma nas costas com palavras que dizem tanto (como “Acreditar”, “Desistir nunca”, “Aceitação”, “Alma”, “Resiliência” são apenas algumas), serão utilizadas ao longo do percurso e posteriormente leiloadas a favor da ACREDITAR.

“Para tentar que a angariação de fundos fosse mais frutífera, pedi camisolas a alguns clubes de futebol. Aderiram como embaixadores 18 clubes da Primeira e Segunda Ligas portuguesas e a APAF, que cederam camisolas para eu vestir ao longo do percurso e depois leiloar a favor da ACREDITAR. Durante a caminhada, vou publicar fotografias nas redes sociais, identificando os clubes, na esperança de que também as partilhem nas suas páginas e ajudem a divulgar a iniciativa. As camisolas têm o número 700 e palavras de incentivo a quem passa por uma situação difícil”.
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A caminhada transforma-se, assim, também numa iniciativa coletiva. João não quer fazer os 700 quilómetros sozinho e deixa o convite aberto a quem quiser juntar-se ao percurso, seja durante uma etapa, durante alguns quilómetros ou simplesmente durante alguns passos.
A ideia é que cada presença represente uma forma de solidariedade com as crianças e famílias que enfrentam o cancro.
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Cada quilómetro da caminhada representa, para João, uma forma de lembrar aqueles que precisam de percorrer grandes distâncias para receber tratamento. Mas o destino dos 700 quilómetros está definido desde o início: chegar a Cevide com uma mensagem de esperança e, sobretudo, transformar os passos dados ao longo de Portugal numa ajuda concreta para uma família que precisa de uma casa longe de casa.

“Não se trata de comparar esforços ou distâncias, mas de fazer o que podemos em cada dia.” É esse o princípio que acompanha João de Faro a Cevide: cada passo conta, mas também conta aquilo que cada pessoa consegue fazer para que uma criança e a sua família não tenham de enfrentar sozinhas uma das fases mais difíceis das suas vidas.





