A Europa está a entrar num período de investimento significativo, muito devido a um mundo que se tornou menos previsível, menos abundante em energia e mais competitivo do ponto de vista estratégico – e as empresas não são indiferentes a esta realidade. As redes elétricas, os sistemas de defesa, os semicondutores, as infraestruturas digitais e a automação industrial, são setores que pedem urgentemente investimento. Reforçar a resiliência da Europa é vital e passa por estimular novas fontes de procura e investimento em toda a economia.
Esta transformação é uma resposta a um contexto geopolítico em mudança e, mais do que isso, tem potencial para redefinir a forma como o capital é aplicado, quais os setores que crescem e quais as empresas que conseguem captar o valor económico desta transformação da Europa. Para os investidores, a questão fundamental é saber se este novo ciclo de investimento pode traduzir-se em ganhos sustentados de produtividade e crescimento a longo prazo.
Durante décadas, o modelo económico europeu assentou em pressupostos que, hoje, parecem estar a perder validade: energia russa abundante e barata, cadeias de abastecimento globais altamente eficientes e um contexto de segurança relativamente estável. A invasão da Ucrânia pela Rússia, a pandemia, as tensões comerciais e uma ordem geopolítica mais fragmentada, particularmente no Estreito de Ormuz, expuseram as vulnerabilidades desse modelo. Estes desafios, identificados no Relatório Draghi de 2024 sobre a competitividade da União Europeia (UE), estão agora a traduzir-se em orçamentos, estratégias industriais e planos de investimento das empresas. A autonomia estratégica está a deixar de ser um conceito político abstrato para se tornar uma fonte de procura económica concreta.
Esta transformação já começa a refletir-se no terreno. Em toda a Europa, as empresas estão já a investir nas infraestruturas necessárias para a eletrificação, digitalização e reforço da segurança. A procura está a aumentar em áreas como as redes elétricas, sistemas de defesa, semicondutores avançados, espaço e infraestruturas digitais, bem como nas tecnologias especializadas que lhes dão suporte.
Grande parte da mudança será impulsionada não pelas empresas mais conhecidas, mas por empresas especializadas que fornecem as tecnologias, componentes e conhecimento necessários para transformar planos ambiciosos em realidade. Esta dinâmica é particularmente relevante nas ações europeias de pequena e média capitalização. Empresas que operam em áreas como sensores, gestão de energia, automação industrial, cibersegurança, equipamentos para redes elétricas e engenharia especializada podem desempenhar um papel importante enquanto facilitadoras desta transformação mais ampla, embora recebam frequentemente menos atenção do que as maiores empresas.
Para os investidores, o desafio passa por distinguir entre empresas que estão “simplesmente” expostas à transformação em curso na Europa e aquelas que reúnem a tecnologia, a posição de mercado e a capacidade de execução necessárias para capturar o valor económico gerado por essa transformação. Algumas empresas europeias selecionadas, sobretudo fora do universo das grandes empresas que integram os principais índices, podem ainda oferecer exposição a estas tendências estruturais a avaliações mais atrativas do que as observadas em muitos mercados globais de crescimento.
As necessidades de investimento da Europa estão cada vez mais concentradas nas bases do seu futuro económico e da sua segurança estratégica. Garantir o abastecimento energético, reconstruir infraestruturas, reforçar a defesa e desenvolver tecnologias críticas exigirá um investimento sustentado que irá muito além do atual ciclo político.
A dimensão e a persistência destas necessidades sugerem que o ciclo de investimento europeu poderá prolongar-se muito para além da resposta imediata aos atuais desafios geopolíticos.
A Europa está a transformar os desafios de hoje no investimento que poderá sustentar o crescimento de amanhã.
René Petersen,
Lead Portfolio Manager da estratégia Empower Europe da Nordea AM





