Talvez o melhor líder seja aquele que, depois de mudar o jogo, deixa outros capazes de o continuar sem ele.
Durante demasiado tempo, confundimos liderança com dependência. Quanto mais pessoas precisassem de um líder, mais importante ele parecia. Os melhores seriam aqueles sem os quais nada funciona: conhecem os dossiers, tomam as decisões difíceis e resolvem os problemas que ninguém consegue resolver.
Quanto mais experiência acumulo a criar empresas e a trabalhar com equipas, mais acredito que uma das maiores provas de liderança é conseguir deixar de ser indispensável. Uma organização demasiado dependente de uma pessoa pode ter um líder forte. O que provavelmente ainda não tem é uma liderança forte.
Quando começamos uma empresa, é natural que tudo passe pelo fundador. O perigo começa quando uma necessidade de arranque se transforma num modelo permanente.
Há líderes que medem a sua importância pelo número de decisões que chegam à sua secretária. Outros constroem equipas competentes, mas continuam a querer ser a pessoa mais competente da sala. É preciso confiança para criar alguma coisa quando ainda ninguém acredita nela. O problema é quando esse ego começa a impedir a organização de crescer.
Há um momento em que liderar deixa de significar estar no centro. Passa a significar construir um centro que funcione sem nós.
Poder é alguém precisar de nós para decidir. Liderança é alguém estar preparado para tomar uma boa decisão sem precisar de nós. Poder acumula. Liderança distribui. Poder cria dependência. Liderança cria autonomia.
Continuamos fascinados com a figura do líder-herói: aquele que vê primeiro, sabe mais, aparece mais e salva a organização quando alguma coisa corre mal. Mas organizações fortes não podem depender permanentemente de heróis.
Talvez precisemos mais do líder multiplicador. Aquele que não procura apenas seguidores, mas novos líderes. Que não teme ser desafiado. Que contrata pessoas melhores do que ele, distribui responsabilidade e aceita que desenvolver talento significa, por vezes, sair do caminho.
Vemo-lo também fora das empresas. Organizações demasiado associadas a uma personalidade parecem fortes enquanto essa pessoa está presente e frágeis quando ela sai. Talvez tenhamos passado demasiado tempo a perguntar quem é o líder e demasiado pouco tempo a perguntar que líderes esse líder está a criar.
É uma questão em que tenho pensado enquanto preparamos uma nova edição do Game Changers Forum, construída em torno de uma pergunta aparentemente simples: “What Success Looks Like?”. Quanto mais penso nela, menos evidente me parece a resposta.
Como se mede o sucesso de quem lidera? Pelo crescimento? Pelo reconhecimento? Pelo impacto? Talvez. Mas falta uma dimensão que raramente aparece nos prémios: aquilo que permanece quando o líder deixa de estar no centro.
As equipas continuam a crescer? Existem pessoas preparadas para assumir responsabilidade? A cultura permanece? A organização continua a avançar sem esperar que alguém lhe diga o que fazer? Talvez seja aí que encontramos uma medida mais honesta de liderança.
Algumas das decisões mais importantes de um líder dificilmente aparecem numa fotografia: escolher alguém para nos substituir, dar crédito a outra pessoa, reconhecer que estávamos errados ou permitir que uma equipa experimente uma ideia diferente da nossa.
Liderar também é saber sair do caminho.
Mudar o jogo pode exigir visão, coragem e ambição. Garantir que ele continua a mudar depois de nós exige algo mais difícil: confiar nos outros.
Durante demasiado tempo celebrámos líderes indispensáveis. Talvez seja altura de celebrar os que constroem organizações onde ninguém, nem sequer eles próprios, precisa de ser indispensável.
Porque a verdadeira medida de um líder não é quantas pessoas o seguem. É quantas deixam de precisar de o seguir para conseguirem liderar também.
Miguel Pina Martins,
Founder do Game Changers Forum





