Donald Trump adora cachorros-quentes — adora mesmo. Mas reserva uma devoção especial aos que são servidos no pequeno restaurante junto ao 11.º tee do Trump National Golf Club, nos arredores de Washington, D.C. São salsichas que, na escala pessoal de Trump para medir as grandes conquistas da humanidade, provavelmente ocupam um lugar algures entre a primeira vez que o homem viu ouro num leito de rio e a construção da Trump Tower.
“Ele tem este orgulho estranho, muito peculiar, sobre a qualidade dos cachorros-quentes”, conta um antigo funcionário do clube, que se recorda de Trump fazer questão de que todos os que o rodeavam experimentassem a suposta excelência do cachorro-quente Trump.
“É a cena dele”, diz o antigo funcionário. “O chef tem de estar lá fora. E ele diz: ‘Chef, arranje um cachorro-quente para toda a gente — para todos estes tipos’.”
E “toda a gente” significa mesmo toda a gente — incluindo cerca de 30 carrinhos de golfe cheios de agentes dos Serviços Secretos. Mas os cachorros-quentes presidenciais não são gratuitos, segundo um antigo funcionário. As regras de ética impedem os agentes de aceitar ofertas daqueles que protegem. Por isso, o clube de Trump cobra a agência responsável pela sua segurança.
“Chegámos ao ponto de ter de criar uma conta dos Serviços Secretos no clube para que ele pudesse vê-los a receber os cachorros-quentes”, conta o antigo funcionário, “mas depois podíamos cobrar os cachorros-quentes aos Serviços Secretos.”
Está ali, numa única transação envolvendo uma salsicha, uma espécie de miniatura da presidência de Trump: Trump é dono do clube. Trump controla o chef. Trump distribui os cachorros-quentes. Trump observa toda a gente a comê-los. Depois, a empresa de Trump envia a conta ao Governo.
A presidência tem as suas vantagens. Para além das receitas adicionais dos cachorros-quentes, existe a liberdade de definir o próprio horário. É certo que liderar o país traz responsabilidades. Mas também é possível simplesmente… ir jogar golfe.
Desde que regressou à Casa Branca, Donald Trump passou tempo num dos seus campos de golfe em cerca de 165 dos aproximadamente 600 dias em que está no cargo. E não se tratam de visitas rápidas. Uma análise das comunicações que acompanham diariamente os seus movimentos indica que o Presidente passou mais de 1.400 horas nas suas propriedades de golfe durante o segundo mandato. É aproximadamente o tempo que a maioria das pessoas passa a trabalhar num emprego a tempo inteiro ao longo de oito meses.
“Penso que toda a gente sabe que ele passa bastante tempo nos seus clubes de golfe”, afirma um porta-voz da Casa Branca, que descreve a ética de trabalho do Presidente como “incomparável” e aponta o seu historial como prova. “Ele tem reuniões, participa em angariações de fundos. Há mais coisas a acontecer quando visita o seu campo do que apenas golfe.”
Os clubes proporcionam-lhe um refúgio do escrutínio público. Quando Trump joga golfe, a imprensa que o acompanha para todo o lado é obrigada a instalar-se em esconderijos improvisados — uma biblioteca local em Palm Beach, uma instalação de ténis na Virgínia ou um hotel em Nova Jérsia — com visibilidade limitada sobre o que acontece dentro do campo.
Isso não significa que Trump esteja sozinho. Continua rodeado de pessoas que, na sua esmagadora maioria, lhe pagam ou trabalham para ele. Os seus parceiros de golfe, para não falar dos vários funcionários dos clubes, parecem passar mais tempo com o líder do mundo livre do que a maioria dos membros do Congresso.
É deste universo que os seus frequentadores saem carregados de histórias, num mundo perfeitamente organizado à medida das especificações de Trump. A Coca-Cola é inesgotável. O ketchup também. Quando o grupo de Trump aparece, os outros grupos afastam-se — “basicamente como se estivessem a abrir o Mar Vermelho”, explica um dos seus parceiros — enquanto ele atravessa o campo e passa à frente dos restantes jogadores. Fim de semana após fim de semana, Trump entra neste mundo como Presidente e proprietário e sai revigorado para a tarefa menor de governar o país. Pelo menos até à próxima hora de saída.
Quando Trump foi eleito Presidente pela primeira vez, os funcionários do seu campo nos arredores de Washington aprenderam a consultar o seu calendário oficial para perceber que tipo de fim de semana os esperava. “Basicamente, se não houvesse nada oficial na agenda, ele vinha.”
A confirmação chegava normalmente um dia antes da visita, através do motorista da Casa Branca, segundo uma pessoa ligada ao clube. Com o aviso, os funcionários ficavam muitas vezes a saber se o Presidente já tinha parceiros para jogar ou se seria necessário formar um grupo à sua volta. Trump acabava frequentemente por jogar com atletas e políticos. Um antigo funcionário conta que o falecido senador Lindsey Graham — que Trump descreveu recentemente como “um dos poucos maus jogadores de golfe com quem adorava jogar” — foi o seu parceiro mais frequente. Os dias seguiam um ritmo muito próprio.
“Toda a gente está ao ritmo dele”, diz um parceiro de golfe. “O grupo senta-se todo à mesa do pequeno-almoço e todos têm de comer alguma coisa, mesmo que seja um smoothie. Ele não vai ficar ali a comer enquanto três tipos ficam à espera.”
Segundo duas pessoas familiarizadas com a rotina, o pedido do Presidente tende a ser consistente: três tiras de bacon e três ovos, bem passados, adequados ao Presidente que tem uma conhecida aversão a germes. Depois de abastecido, Trump dirige-se aos tees, onde deixa poucas dúvidas de que é um excelente jogador de golfe. “Se jogasse a partir dos tees adequados à sua idade, faria menos de 80 pancadas quase todas as vezes”, afirma alguém que já jogou muitas vezes com ele.
A maioria das pessoas com 80 anos deixaria que resultados desse género falassem por si. Não Trump, que parece acrescentar todos os anos mais um campeonato do clube — ou seis — ao seu total suspeitosamente elevado. “Estraga tudo quando deixa que o ego se meta no caminho.”
No campo, o seu estilo é velocidade. Agarrar no taco, bater na bola, avançar. Trump passa por todos, interferindo no ritmo dos jogadores que estão à sua frente, embora estes frequentemente apreciem a experiência. “Uma das frases preferidas dele”, conta alguém do campo de Washington, “é: ‘Meu Deus, como têm sorte todos vocês por serem membros do meu clube’”
Cenas semelhantes acontecem nos outros Trump National quando o Presidente aparece. Em Jupiter, na Florida, os jogadores passam o dia na esperança de avistar o Presidente — e de ficar com a história que acompanha o encontro. “Muitos dos membros e convidados que estão a jogar nesse dia ficam simplesmente: ‘Oh, viste-o?’ Estão à procura de uma história para contar”, explica um antigo funcionário do clube.
Acrescenta alguém que testemunhou a dinâmica em Bedminster, Nova Jérsia: “Ele é mais feliz no clube porque é o peixe grande e toda a gente lhe presta alguma homenagem.” Incluindo os funcionários, que continuam a saber quem manda, mesmo que o Presidente tenha dito ao resto do mundo que não está envolvido nos seus negócios.
Trump dá opiniões sobre detalhes tão pequenos como as marcas deixadas pelos corta-relvas na relva e os ângulos das árvores que obstruem determinadas zonas. “Claro”, responde um porta-voz da Casa Branca. “Tal como intervém em todos os detalhes, desde o salão de baile até às remodelações da Casa Branca.”
Coisas inesperadas podem acontecer quando o Presidente joga golfe.
Em 2020, o membro do Hockey Hall of Fame Jeremy Roenick estava no Trump National em Bedminster quando elementos dos Serviços Secretos subitamente se aproximaram do Presidente com um aviso sinistro: “Intrusão aérea!” Um pequeno avião Cessna sobrevoou o local, imediatamente perseguido por dois F-16 que lançaram sinalizadores vermelhos enquanto desviavam o piloto. Quando tudo terminou, Trump regressou diretamente ao tee.
“Estou a tremer”, recorda Roenick. “E ele pega no tee e diz: ‘Agora, cavalheiros, isso é f****** poder.’”
Em todos os buracos, Trump bate primeiro. Quase imediatamente, está a preparar a segunda pancada, que pode ou não jogar exatamente do local onde a bola caiu. Nos greens, distribui gimmes — pancadas que considera tão fáceis que nem precisam de ser jogadas — a uma distância considerável. Tudo contribui para manter o jogo em movimento.
“Se tiveres um putt que não é importante para o resultado do jogo, ele devolve-te a bola”, conta alguém que já jogou com ele. “Se tens um putt de seis pés [se estás a cerca de 1,8 metros do buraco] para fazer bogey [uma pancada acima do número previsto] e eu estou a tentar fazer birdie [uma pancada abaixo do número previsto], o teu bogey não interessa. Esquece e segue em frente. Somos quatro homens, em carrinhos de golfe, e fazemos o percurso em duas horas e 35 minutos”.
Se Trump quer completar uma partida de golfe de quatro pessoas em apenas duas horas e 35 minutos, algo bastante rápido, não hesita: conduz os carrinhos rapidamente; passa à frente de outros grupos; concede pancadas que considera irrelevantes; não perde tempo à espera que todos terminem cada buraco de acordo com as regras habituais.
As regras normais dos caminhos para os carrinhos também não são propriamente prioridade. Trump trata o seu carrinho como um veículo todo-o-terreno, aproximando-se das extremidades dos greens, dos tees e de qualquer outro lugar onde precise de bater na bola, correndo de uma pancada para a seguinte.
“É como tentar agarrar-se a um furacão”, diz Rick Reilly, jornalista desportivo que jogou com Trump e mais tarde publicou um livro sobre o jogo de golfe do Presidente, Commander In Cheat.
O 11.º buraco é o ponto em que o golfe dá lugar à gastronomia. Trump chega à zona de restauração e conversa com o chef executivo, que assume o comando da grelha para a ocasião. Na maioria dos dias, os membros recebem cachorros-quentes embrulhados em papel de alumínio e deixados a cozer no próprio vapor. Quando Trump está no local, são preparados no momento, colocados num pão de batata aquecido e grelhados na vertical, permitindo que a salsicha, já de dimensões generosas, se expanda para além da sua área declarada, à imagem de outras coisas que Trump tanto gosta de exibir.
Por vezes, os funcionários chegam a preparar 50 cachorros-quentes para toda a caravana de carrinhos de golfe. Nos dias mais tranquilos, o objetivo é alimentar uma espécie de “gabinete do cachorro-quente”, composto pelas seis a dez pessoas que estão imediatamente à volta de Trump. Alguns, ainda cheios do pequeno-almoço, tratam secretamente de conseguir versões mais pequenas — um ato de insubordinação coordenado diretamente com o chef. “Para que o senhor Trump não visse o que estava a acontecer”, explica um deles.
O Presidente, entretanto, trata o seu cachorro-quente como se fosse uma questão de Estado: cobre-o com uma camada de condimentos que para uns parece espalhafatosa e para outros elegante. “Ele põe no cachorro-quente tanta mostarda e molho de pepino quanto é possível imaginar”, conta um antigo funcionário. “Várias vezes tivemos de levar uma camisola de golfe da loja do clube para ele mudar de roupa na zona de restauração.” O gabinete de imprensa da Casa Branca contesta a descrição das camisolas sujas: “Não é verdade que ele derrame frequentemente comida sobre si próprio.”
Um segundo antigo funcionário recorda a situação de forma bastante diferente, descrevendo a aplicação da mostarda como “de uma ponta à outra”, mas também “muito artística”, numa linha em forma de S que percorre a salsicha abaixo, com Trump cuidadosamente a evitar que o condimento caia. “Ele tem muita atenção à sua imagem.”
À medida que a volta prossegue, Trump joga para ganhar, apesar de não haver dinheiro em jogo.
Segundo um parceiro de golfe, Trump tem um historial de trocar de parceiros a meio da volta e de se lembrar convenientemente do resultado. “Podemos dizer que tem uma memória criativa sobre a forma de manter os jogos equilibrados”, diz a fonte. “Se a equipa dele estivesse a perder por três ou quatro, podia anunciar que estava apenas a perder por dois.” Toda a gente acompanha a versão, naturalmente. “O que é que se há de fazer?” Um porta-voz da Casa Branca rejeita essas acusações, afirmando que o Presidente ganhou “perto de 50 títulos de clubes”, contra os 36 que Trump tinha referido no início deste ano, e insistindo que não altera os resultados.
Depois vêm os aplausos. Quando Trump entra no restaurante depois da volta, os membros levantam-se e aplaudem — um ritual que ninguém praticava antes de Trump se tornar Presidente e que agora acontece em vários dos seus clubes. “É tão estranho”, diz um antigo funcionário.
Os convidados trazem frequentemente peças de roupa acabadas de comprar, como bonés MAGA, para esperar na sala de refeições pelo homem que lhas vendeu, na esperança de que ele possa aumentar o seu valor com uma assinatura feita com uma caneta. Trump não usa qualquer marcador. A sua equipa transporta uma versão personalizada, com uma ponta grossa e uma imagem da assinatura do Presidente na lateral.
“Os fãs adoram essas coisas”, diz um antigo funcionário. “Compravam tudo e depois iam para a sala de almoço.”
O almoço do Presidente varia, mas inclui frequentemente sopa de cebola francesa e um hambúrguer com queijo e bacon. Numa possível e solitária concessão à iniciativa Make America Healthy Again, dispensa o pão.
Os funcionários dividem-se quanto à quantidade exata de ketchup utilizada. “Vão pensar que estou a exagerar”, diz um antigo funcionário, “mas é uma garrafa inteira de ketchup no hambúrguer. Ele come-o com garfo e faca.” Um segundo antigo funcionário diz que Trump utiliza mais perto de meia garrafa, enquanto um terceiro afirma que, por vezes, o Presidente não usa ketchup nenhum.
A lenda do hóquei Jeremy Roenick, que não é propriamente fã de ketchup, testemunhou diretamente o método do Presidente: “Pedimos um grande cesto de batatas fritas, perfeitamente cozinhadas, e ele pega no ketchup e põe ketchup por cima de todas”, conta Roenick. “Eu digo: ‘Não é suposto pores todo o ketchup no meio das batatas’. Ele olha para mim e responde: ‘JR, estas são as minhas batatas’.”
Por volta das quatro da tarde, depois de cinco ou seis horas de golfe, cachorros-quentes e abuso de condimentos, Trump costuma partir para regressar às suas outras responsabilidades. Com as eleições intercalares de novembro a aproximarem-se, sugeriu recentemente que poderia fazer uma pausa no golfe, dizendo aos congressistas republicanos: “Estarei convosco a 100%.” Mas ainda não. Na sexta-feira, Trump deixou Washington para passar o fim de semana prolongado no seu clube de golfe em Bedminster, Nova Jérsia.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





