O ano começou com um grande anúncio por parte de Bruna Martiolli e da editora Intrínseca, no Brasil: “É tempo de morangos”, o livro de estreia da professora, criadora de conteúdo e Under 30 da Forbes Portugal, chegaria às livrarias dois meses depois. Em Portugal, foi preciso esperar mais seis meses, mas a partir de 17 de setembro os leitores portugueses também poderão folhear as páginas deste livro que ” toca tanto porque comporta trechos da transformação de uma menina em uma baita mulher, de uma menina que foi escrita primeiramente no desejo de um pai, que passa, em frente aos nossos olhos, aqui, a ser escritora do seu próprio desejo”, como descreve Ana Suy, autora de “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”.
No dia em que apresenta “É tempo de morangos” na Feira do Livro do Porto, a Forbes Portugal falou com Bruna Martiolli.
O que significa para ti veres este livro chegar agora às livrarias portuguesas?
Fiquei muito reservada quanto a isso, não sabia direito se era uma boa ideia, mas além de todo o cuidado pela Infinito Particular e Intrínseca, quando vi a foto da minha avó na edição daqui entendi que não era bem sobre mim ou sobre o meu livro. Este livro é de todo o mundo que está dentro dele, acho que eu sou a menor parcela disso, e agora tem sido feliz.
O título “É tempo de morangos” vem de Clarice Lispector. Porque razão essa frase de “A Hora da Estrela” foi ao título certo para este livro?
Essa é a última frase, logo depois de “só agora lembrei que a gente morre” e quando a minha avó ficou internada li esse livro quase diariamente, foram mais de 70 dias e foi mais ou menos a quantidade de vezes que fiquei lendo em looping. Não entendi até agora o que eu estava a tentar ler ali, mas eu não conseguia ler mais nada, era a única coisa que eu queria. A companhia da Macabéa. E “não esquecer que por enquanto é tempo de morangos” me fez entender que a vida é agora, não dá pra esperar, não dá pra esquecer.
O livro reúne vários autores, como Clarice, Machado de Assis, José Saramago, Agustina Bessa-Luís. Como escolheste os autores que entrariam neste projeto?
A editora fez-me o convite para este livro no final do primeiro ano do meu doutoramento e eu pensei que fosse escrever sobre literatura, o título “reflexões sobre livros” era por isso. Acabou que escrevi sobre o prisma da Bruna leitora e não da Bruna professora. Então eu não escolhi, até porque ficaram muitos escritores “de fora”, a única coisa que eu quis foi reencontrar a vida que os livros me deram até então, eu pude reviver muitas coisas bonitas e ruins, e conforme isso foi acontecendo surgiam os autores que me ajudaram na altura, ou que só eram as minhas companhias na altura.

O livro é apresentado como uma espécie de encontro entre memória, literatura e formação pessoal. Em que momento percebeste que, para ti, escrever sobre o universo literário é também escrever sobre ti mesma?
Eu passei a infância e a adolescência a precisar de resolver muitas coisas dos adultos à minha volta e querendo ou não (a crítica literária vai-me crucificar) quem me ajudou não foi uma tia, ou uma prima, ou qualquer parente. Quem me ajudou a viver e a sobreviver foram os escritores que estão aí e muitos outros que não citei. Escrever sobre mim é escrever sobre eles porque eles são muito maiores do que eu na minha vida. Sou um prato cheio para a psicanálise ao dizer isto, mas é a verdade.
Algum dos autores foi mais difícil de colocar e identificar dentro da tua própria história?
É muito difícil falar de Lygia Fagundes Telles na minha vida, eu poderia ter falado muito mais só que teria que entrar em partes muito delicadas e algumas coisas eu quero tanto que não existam mais que eu faço questão de nunca comentar.
Que papel tiveram os livros na construção da pessoa que és hoje?
Eu tenho até uma certa dificuldade com o “tiveram” dessa pergunta, porque “tiveram” parece impossível. É um verbo no passado, como se o papel dos livros na nossa vida pudesse estar concluído. Para mim, os livros são a própria essência da vida. Os livros que li não acabaram quando terminei de lê-los. Eles continuam comigo: são, estão, permanecem.
Nunca se termina verdadeiramente de ler um livro. A gente acha que o livro acabou porque, na última página, havia uma última palavra, então o fechamos e colocamos de volta na estante. Mas a fabulação continua a fazer parte do nosso dia a dia. Por isso, acho que o que os livros fazem e continuam a fazer, é ajudar-me a imaginar mundos possíveis e outras formas de viver. E isso não cabe no passado: é infinito.

No teu livro, a literatura surge ligada a histórias pessoais, pessoas, momentos bons e também momentos difíceis. Achas que o livro pode ajudar nesses momentos e, no limite, ajudar a mudar uma vida? Ou é a ferramenta que temos para conseguir olhar para a vida de outras formas e isso, sim, leva à mudança?
Eu acho que sim. Sempre que alguém diz “a literatura não serve para nada” ou “a literatura não precisa servir para nada”, o meu pescoço já levanta. Eu entro em todas essas brigas.
Mas eu compreendo de onde vem essa ideia. A defesa da inutilidade da literatura teve uma função histórica e política muito importante. Dizer que a arte não precisava servir para nada era uma maneira de impedir que ela tivesse de servir à Igreja, ao Estado, a uma ideologia, ao mercado ou a uma lição moral. Era uma defesa da autonomia da arte: a literatura não deveria precisar provar a sua utilidade para poder existir.
Só que acho que hoje já podemos avançar um pouco nessa discussão. Porque, quando repetimos simplesmente que a literatura não serve para nada, podemos ser injustos com todas as pessoas para as quais ela serviu, e serviu muito. Serviu como abrigo, como memória, como linguagem para uma dor que ainda não tinha nome. Serviu para que determinadas vidas não desaparecessem.
George Orwell dizia que afirmar que a arte não tem nada a ver com a política já é, por si só, uma atitude política. Isso não significa transformar todos os livros em panfletos ou exigir que a literatura entregue uma lição. Significa reconhecer que ela interfere na maneira como vemos o mundo.
Também não acho que um livro salve alguém automaticamente ou torne uma pessoa melhor apenas porque ela lê. Mas ele pode oferecer palavras, imagens e possibilidades que essa pessoa ainda não tinha.
Porque é que ainda temos de convencer muitas pessoas de que a literatura é importante?
As pessoas não sabem que têm direito à literatura, assim como têm direito (ou deveriam ter) à alimentação, água, saúde, roupa e a um teto sobre a cabeça. Não sabem que a literatura também é um direito, e esse desconhecimento é profundamente político. É justamente por isso que precisamos falar sobre leitura.
Tens também outras referências, como cinema, televisão, filosofia, arte. O que te levou a mencionar também esses temas?
A artista plástica e professora Isabella César sempre me apresenta referências maravilhosas. Quando conversamos sobre alguma obra, ela costuma perguntar: “Pensa numa imagem”, “O que é que viu primeiro?” ou “Escute esta música”. Aos poucos, ela foi depositando em mim um repertório enorme de outras artes e me ensinando a não olhar para a literatura de maneira isolada.
Hoje, quando leio um livro, quero perceber também as imagens, os sons, as cores e as perguntas filosóficas que existem ali. O cinema, a televisão, a música, a filosofia e as artes plásticas ampliam as possibilidades de leitura.
O que gostarias que um leitor português reconhecesse de si próprio nas páginas do livro?
A nossa língua e o nosso vocabulário. A língua portuguesa. A beleza disso, dos nossos autores, da nossa gente.
Durante algum tempo disseste que não querias ser escritora. O que te levou a assumir, agora, esse lugar?
Não me considero escritora, mas essa foi a forma que consegui devolver um pouco do que a literatura fez, escrevendo pelas pessoas que passaram, pelos escritores, pelos meus maravilhosos professores, por tudo que a educação fez na minha vida.

Existe alguma diferença entre a Bruna que fala de livros para milhares de pessoas na internet e a Bruna que escreve sozinha sobre as próprias memórias?
Com certeza. Eu escrevo desde sempre. Na verdade, o meu pai escreve sobre a minha vida desde 14 de março de 1997. Ele começou um diário no dia em que eu nasci e, quando cheguei à adolescência, incentivou-me a escrever os meus próprios diários. Ele diz que, um dia, vamos colocar esses cadernos lado a lado e descobrir como duas pessoas viveram e narraram, por ângulos diferentes, as mesmas situações.
Na internet, existe a Bruna que eu escolho e me sinto confortável para mostrar. Ela também é verdadeira, mas passa por uma seleção. Já nos diários e aqui nos morangos está uma parte mais funda do real. As memórias, as contradições e aquilo que nem sempre consigo organizar antes de escrever.
Há algum capítulo que tenha sido mais difícil de escrever? Alguma memória que ofereceu maior resistência?
O capítulo oito foi o mais sincero e difícil, foi o primeiro. E pensei muitas vezes sobre retirar o capítulo 14 em que falo dos estudos académicos e sobre a minha última e recente experiência. Mas, está dito. As melhores pessoas que já conheci na minha vida são professores e as piores também, na sua maioria. Eu estou muito triste pelo que vejo dentro das universidades.
Ficou alguma coisa por dizer neste livro?
Gostaria de ter falado sobre alguns livros que li depois, esse sempre será o meu pesar.
Quando o leitor terminar o livro, o que é que gostavas que ele levasse destas páginas?
A santíssima trindade: Clarice Lispector, Agustina Bessa-Luís e Lygia Fagundes Telles.





