Fórum Saúde XXI: “A saúde já não pode ser discutida exclusivamente dentro da saúde”

Os temas em torno da saúde continuam a marcar a atualidade com as constantes notícias de falta de resposta do sistema público. Criar um espaço onde diferentes entidades quer sejam médicos, universidades, decisores ou organizações da sociedade civil pudessem encontrar as melhores soluções para o setor levou Andrea Lima a criar, em 2014, o Fórum…
ebenhack/AP
A fundadora do Fórum Saúde XXI, Andrea Lima, defende que os grandes desafios da saúde não podem ser resolvidos por uma única entidade. Por isso, mobilizou diversas personalidades para o próximo debate no Cascais International Health Forum onde a longevidade é o tema central.
Empreendedores Forbes Women

Os temas em torno da saúde continuam a marcar a atualidade com as constantes notícias de falta de resposta do sistema público. Criar um espaço onde diferentes entidades quer sejam médicos, universidades, decisores ou organizações da sociedade civil pudessem encontrar as melhores soluções para o setor levou Andrea Lima a criar, em 2014, o Fórum saúde XXI. Isto porque acredita que raramente as soluções nascem de uma única voz, mas sim da capacidade de pôr diferentes vozes a conversar.

Em entrevista à Forbes Portugal, a presidente do Fórum XXI, que fez o percurso na área farmacêutica e está ligada à área da saúde há mais de 30 anos, lembra que Portugal tem uma sociedade civil com enorme conhecimento, experiência e capacidade de intervenção. Por isso, defende que esse conhecimento deve ser ouvido de forma mais sistemática na construção das políticas públicas. E assume que o papel da sociedade civil não é substituir o Estado nem os decisores políticos. Mas contribuir, questionar, apresentar evidência, aproximar diferentes realidades e ajudar a encontrar melhores soluções. Isto porque, nas suas palavras, a saúde é demasiado importante e demasiado complexa para ser discutida apenas dentro das instituições.

Andrea Lima coordena também o Cascais International Health Forum – plataforma internacional de reflexão, cooperação e ação – e detalha que a edição de 2026 vai decorrer entre 24 e 25 de setembro sob o lema “Viver Mais, Viver Melhor”, onde o debate em torno da longevidade será o tema central.

A presidente do Fórum Saúde XXI, filha de pai português e mãe brasileira destaca que crescer com estas duas culturas é uma enorme riqueza  e fala ainda de liderança no feminino e de como acontecimentos como o facto de ter sido mãe aos 15 anos moldaram a pessoa e a líder de hoje.

O Fórum Saúde XXI nasceu da sua iniciativa. Como surge a ideia de criar uma plataforma que reúne atores tão diferentes do setor da saúde?

O Fórum Saúde XXI nasceu, em 2014, de uma convicção muito simples. Os grandes desafios da saúde não podem ser resolvidos por uma única entidade, por um único setor ou por uma única visão. Eu vinha da indústria farmacêutica e conhecia bem o setor da saúde, mas também tinha passado pelo mundo editorial e por experiências profissionais muito diferentes. Talvez isso me tenha ajudado a olhar para a saúde não apenas como um setor, mas como um ecossistema onde tudo está interligado. Percebi que havia excelentes especialistas, instituições, empresas, universidades, profissionais, decisores e organizações da sociedade civil a pensar sobre os mesmos problemas, mas nem sempre existiam espaços suficientemente independentes onde todos pudessem sentar-se à mesma mesa. Foi daí que nasceu o Fórum Saúde XXI. Não quis criar um espaço onde todos pensassem da mesma maneira. Quis precisamente o contrário, que fosse um lugar onde pessoas com responsabilidades, experiências e perspetivas diferentes pudessem discutir aquilo que verdadeiramente importa. As melhores soluções raramente nascem de uma única voz. Nascem da capacidade de pôr diferentes vozes a conversar.

O que a motivou a avançar quando muitos poderiam considerar o projeto demasiado ambicioso?

Sempre acreditei que aquele era o caminho, mesmo quando, no início, as dificuldades eram muitas. Havia uma convicção muito forte de que fazia falta um espaço independente capaz de aproximar diferentes protagonistas da saúde e promover um diálogo verdadeiramente transversal. Nunca comecei por pensar na dimensão que o Fórum poderia atingir. Comecei por pensar se aquilo que estávamos a fazer fazia sentido, se acrescentava valor e se conseguíamos reunir as pessoas certas em torno dos temas certos. E depois aconteceu algo muito importante, houve outras pessoas que começaram também a acreditar. Um projeto ganha força quando deixa de ser apenas a visão de quem o iniciou e passa a ser reconhecido e partilhado por outros. O Fórum foi crescendo assim, passo a passo, com muito trabalho, persistência e capacidade de ultrapassar as dificuldades que naturalmente surgem quando se começa algo de novo. Nunca encarei a ambição do projeto como um obstáculo. Pelo contrário. Quando acreditamos verdadeiramente no propósito de uma ideia, a dimensão do desafio deixa de ser uma razão para não avançar e passa a ser uma razão para trabalhar ainda mais.

Como se conquista a confiança de decisores, instituições, empresas e especialistas para que trabalhem em conjunto?

Não acredito que a confiança se conquiste com um grande momento. Constrói-se lentamente, através da coerência. É cumprir aquilo com que nos comprometemos. É respeitar as pessoas e as instituições. É saber ouvir. É não procurar protagonismo em todas as situações. E é perceber que uma relação institucional não pode existir apenas quando precisamos de alguma coisa. Ao longo destes anos procurámos preservar algo que considero essencial, criar condições para que pessoas e organizações com interesses e perspetivas diferentes possam participar, sabendo que serão respeitadas. Nem sempre temos de concordar. Aliás, se todos concordarmos sempre, provavelmente não estamos a fazer as perguntas suficientemente difíceis. Confiança não significa ausência de divergência. Significa saber que podemos divergir sem deixar de nos respeitar.

Qual foi o momento em que percebeu que o Fórum Saúde XXI tinha conquistado relevância e impacto real no setor?

Não houve um momento único em que tenha pensado que conseguimos. E talvez seja bom que assim seja, porque essa sensação poderia levar-nos a acomodar. Fui percebendo através de pequenos sinais. Quando começámos a ter à mesma mesa pessoas com responsabilidades muito diferentes; quando instituições que admirávamos começaram a procurar-nos para desenvolver iniciativas em conjunto; quando os nossos debates passaram a gerar novas conversas e novas parcerias; ou quando pessoas que participaram numa iniciativa regressavam para a seguinte. Para mim, relevância não se mede apenas pela dimensão de uma sala ou pelo número de pessoas que conseguimos reunir. Mede-se também pelo que acontece depois de a sala ficar vazia. O verdadeiro impacto de um debate não está apenas no que foi dito naquele dia, mas naquilo que essa conversa consegue pôr em movimento. Quando comecei a perceber que algumas das nossas conversas continuavam para além dos nossos eventos, percebi que o Fórum tinha conquistado um espaço próprio.

O Fórum Saúde XXI tem sido um espaço de diálogo entre diferentes áreas e sensibilidades. Porque é que a capacidade de construir pontes é hoje tão importante?

Porque estamos a viver problemas cada vez mais complexos numa sociedade que, paradoxalmente, parece ter cada vez mais dificuldade em conversar com quem pensa de forma diferente. Na saúde isso é particularmente evidente. Não conseguimos falar de sustentabilidade sem falar de economia. Não conseguimos falar de longevidade sem falar de habitação, cidades, trabalho, pensões, tecnologia ou desigualdades. Não conseguimos falar de inovação sem discutir acesso, ética e financiamento. Nenhum destes desafios cabe dentro das fronteiras de uma única profissão, instituição ou área política. Por isso, construir pontes deixou de ser apenas uma qualidade relacional. Tornou-se uma necessidade. E não significa procurar consensos artificiais. Significa criar confiança suficiente para que pessoas que partem de posições diferentes permaneçam à mesma mesa e procurem aquilo que podem construir em conjunto.

Como se constrói uma rede de influência baseada na credibilidade e não apenas na visibilidade?

Com tempo. Vivemos numa época em que é relativamente fácil ser visível. É muito mais difícil ser credível. A visibilidade pode construir-se rapidamente; a credibilidade não. Uma rede verdadeiramente sólida não é uma coleção de contatos. É uma rede de relações onde existe confiança, respeito e reciprocidade. Sempre procurei relacionar-me com as pessoas antes dos cargos que ocupam. Os cargos mudam. As relações ficam. Também acredito que influência não é conseguir que os outros façam aquilo que queremos. Influência é conseguir reunir pessoas em torno de uma ideia na qual elas próprias reconhecem valor. E isso exige consistência. Não se constrói numa fotografia, num evento ou numa publicação. Constrói-se ao longo dos anos, muitas vezes longe dos holofotes.

Na sua opinião, Portugal valoriza suficientemente a participação da sociedade civil na discussão das políticas públicas de saúde?

Temos evoluído, mas acredito que podemos ir muito mais longe. Portugal tem uma sociedade civil com enorme conhecimento, experiência e capacidade de intervenção. Temos associações de doentes, universidades, ordens profissionais, fundações, empresas, organizações sociais e inúmeras entidades que conhecem profundamente a realidade no terreno. Esse conhecimento deve ser ouvido de forma mais sistemática na construção das políticas públicas. Naturalmente, a decisão final pertence a quem tem legitimidade democrática para decidir. O papel da sociedade civil não é substituir o Estado nem os decisores políticos. É contribuir, questionar, apresentar evidência, aproximar diferentes realidades e ajudar a encontrar melhores soluções. A saúde é demasiado importante e demasiado complexa para ser discutida apenas dentro das instituições. Uma democracia mais participada não enfraquece a decisão política. Qualifica-a.

Que papel pode desempenhar o associativismo na transformação da sociedade portuguesa?

Um papel enorme, sobretudo num tempo em que precisamos de reforçar a confiança e o sentido de comunidade. O associativismo reúne pessoas em torno de uma causa que é maior do que cada uma delas individualmente. Ensina-nos a participar, a ouvir, a negociar diferenças e, sobretudo, a perceber que também temos responsabilidade sobre a sociedade em que vivemos. Não podemos esperar que todas as respostas venham do Estado, da mesma forma que não podemos esperar que venham exclusivamente do mercado. Há um espaço essencial entre ambos, a sociedade civil organizada. É nesse espaço que muitas vezes surgem novas ideias, se identificam problemas e se mobilizam pessoas que querem contribuir. Para mim, o associativismo é também uma escola de cidadania. Uma sociedade transforma-se não apenas através das decisões tomadas no topo, mas através da capacidade das pessoas de se organizarem, participarem e assumirem que também fazem parte da solução.

O Cascais International Health Forum tornou-se uma das principais plataformas de reflexão sobre saúde em Portugal. Como explica o sucesso desta iniciativa?

Acredito que o sucesso do Cascais International Health Forum resulta, antes de mais, da capacidade de reunir mundos que nem sempre se encontram. Não quisemos criar apenas mais um congresso de saúde. Quisemos criar um grande espaço de reflexão sobre a sociedade que estamos a construir e sobre a forma como queremos viver nas próximas décadas. A saúde já não pode ser discutida exclusivamente dentro da saúde. Está ligada à economia, à tecnologia, ao ambiente, às cidades, à educação, ao trabalho, às políticas sociais e à forma como organizamos a própria sociedade. É por isso que reunimos profissionais de saúde, investigadores, decisores políticos, empresas, gestores, especialistas de diferentes áreas e sociedade civil. E há outro princípio do qual não abdicamos. Queremos que esta discussão seja acessível. O Cascais International Health Forum é aberto à sociedade porque acreditamos que o futuro da saúde diz respeito a todos. Talvez seja essa combinação entre conhecimento, diversidade, abertura e vontade de discutir o futuro sem fronteiras demasiado rígidas que explique o crescimento da iniciativa.

Quais serão os temas centrais da edição deste ano?

Esta edição parte de uma ideia muito simples e, ao mesmo tempo, profundamente transformadora: “Viver Mais, Viver Melhor”. Estamos perante uma das maiores conquistas da humanidade, vivemos mais anos. Mas essa conquista coloca-nos uma pergunta decisiva, que é perceber em que condições queremos viver esses anos. Vamos falar de longevidade numa perspetiva muito abrangente, sustentabilidade dos sistemas de saúde e da Segurança Social, prevenção, inovação e avaliação das tecnologias de saúde, inteligência artificial, dados e interoperabilidade, novos modelos de cuidados, telemedicina, profissionais de saúde, cidades, ambiente, habitação e qualidade de vida. Queremos também discutir as consequências económicas e sociais de uma sociedade longeva. Porque a longevidade não é apenas um tema da saúde, nem um tema das pessoas mais velhas. É uma transformação estrutural da sociedade. A geração que hoje tem 40 ou 50 anos pode ser a primeira a viver massivamente até aos 90. A questão é saber em que condições queremos viver esses anos. Essa decisão começa agora. É essa urgência, mas também essa extraordinária oportunidade, que queremos colocar no centro do Cascais International Health Forum.

O que espera que os participantes levem consigo após os dois dias do fórum?

Quero que as pessoas saiam do Cascais International Health Forum com mais conhecimento, naturalmente, mas sobretudo com mais vontade de agir. Durante dois dias vamos reunir pessoas com experiências, responsabilidades e visões muito diferentes para pensar alguns dos maiores desafios que temos pela frente. Mas não queremos que as ideias fiquem dentro das salas do Centro de Congressos do Estoril. Queremos que se transformem em novas perguntas, novas parcerias, decisões e, sempre que possível, em ação. Há uma ideia que atravessa todo o Cascais International Health Forum – o futuro da saúde não pertence apenas aos profissionais de saúde, aos decisores políticos, às empresas ou às instituições. Pertence a todos nós. Por isso, gostaria que cada participante saísse de Cascais a perguntar-se “o que posso eu fazer para contribuir?” Porque a mudança de que precisamos não será feita por uma única pessoa, instituição ou Governo. Será construída coletivamente. Não queremos apenas que venham assistir à discussão sobre o futuro da saúde. Queremos que estejam lá, que participem e que façam parte da mudança.

Que momentos da sua vida tiveram maior influência na líder que é hoje?

Não consigo identificar um único momento. Acho que somos o resultado de tudo aquilo que vivemos, das pessoas que encontramos e, sobretudo, das experiências que nos obrigam a crescer. Fui mãe aos 15 anos. É inevitável que uma responsabilidade dessa dimensão, tão cedo, tenha contribuído para moldar a pessoa que sou. Mas há uma coisa que faço questão de dizer, continuei a fazer o percurso normal de uma jovem da minha idade. Estudei, tive os meus amigos, os meus sonhos, diverti-me e fui crescendo como qualquer outra jovem. Simplesmente, tinha uma responsabilidade adicional e muito importante, tinha um filho. Mais tarde, já adulta, conheci a pessoa com quem viria a construir a minha família. Casei, tivemos mais três filhos e fomos construindo juntos uma vida e um projeto familiar que é, ainda hoje, uma das partes mais importantes de quem sou. Aos 19 anos, vivi também outro momento marcante, sofri um atropelamento grave que me confrontou muito cedo com a fragilidade da vida. Depois vieram a carreira, as mudanças profissionais, os projetos que resultaram, os que não correram como esperava, os riscos e os recomeços. Tudo isso foi moldando a pessoa e, inevitavelmente, a líder que sou hoje. Talvez por isso tenha aprendido cedo a não dar nada por adquirido e a não ter demasiado medo de arriscar. A vida ensinou-me que somos muitas vezes mais capazes do que imaginamos. Hoje, lidero muito a partir dessa experiência. Gosto genuinamente de pessoas, acredito profundamente no trabalho em equipa e não tenho qualquer dificuldade em reconhecer que não sei tudo. Pelo contrário, uma das maiores responsabilidades de quem lidera é saber rodear-se de pessoas que sabem mais do que nós.

Cresceu entre o Brasil e Portugal. De que forma essa vivência entre duas culturas contribuiu para a sua visão do mundo e para a capacidade de criar pontes entre pessoas e organizações?

Nasci no Rio de Janeiro, filha de pai português e mãe brasileira, e vim viver para Portugal aos nove anos. Crescer com estas duas culturas foi, e continua a ser, uma enorme riqueza. Do Brasil trouxe provavelmente a espontaneidade, a proximidade com as pessoas, o otimismo e essa ideia de que há sempre uma possibilidade. Portugal deu-me raízes, estrutura e tornou-se o país onde cresci, construí a minha família e fiz praticamente todo o meu percurso pessoal e profissional. Viver desde cedo entre dois mundos ensinou-me que não precisamos de escolher um lado para valorizarmos o outro. Podemos pertencer a diferentes lugares, compreender perspetivas distintas e procurar aquilo que nos une. Acho que isso se reflete muito na forma como trabalho. Gosto de ouvir, de aproximar posições e, sobretudo, de juntar pessoas que não pensam necessariamente da mesma maneira. Construir pontes não significa eliminar as diferenças. Significa criar um espaço onde essas diferenças possam conversar. É muito daquilo que procuro fazer no Fórum Saúde XXI.

Houve momentos em que sentiu que as circunstâncias estavam contra si? O que a impediu de desistir?

Claro que sim. Seria pouco verdadeiro dizer o contrário. Houve momentos em que as circunstâncias não eram aquelas que eu teria escolhido e outros em que as coisas simplesmente não correram como esperava. Mas nunca tive uma relação muito próxima com a palavra “desistir”. Não porque não tenha medo. Tenho. Simplesmente, aprendi a não deixar que o medo decida por mim. Tenho uma característica que, por vezes, é uma virtude e, noutras, me dá bastante trabalho. Perante um desafio, a minha primeira reação é quase sempre dizer “sim”. Depois penso, agora tenho de descobrir como vou fazer isto. Foi assim em muitos momentos da minha vida. Não espero necessariamente sentir-me preparada para avançar. Preparo-me enquanto avanço. E, quando alguma coisa não corre bem, tento perceber o que posso aprender, corrigir o que for necessário e continuar.

Não seguiu um percurso académico convencional. Sentiu alguma vez que teve de provar mais do que os outros para ser levada a sério?

Sim, sobretudo numa fase mais inicial do meu percurso. Vivemos numa sociedade onde os títulos académicos têm, legitimamente, um peso importante, e eu não fiz um percurso académico convencional. Durante algum tempo isso fez-me sentir que precisava de provar mais. Hoje olho para essa questão de uma forma diferente. Tenho um enorme respeito pela academia e pelo conhecimento. Uma parte muito significativa da minha vida profissional é passada ao lado de professores, investigadores, médicos, gestores e especialistas extraordinários. E talvez conviver com tantas pessoas que sabem muito me tenha ensinado uma das coisas mais importantes da minha vida, que é não ter medo de dizer “não sei”. Não saber não me diminui. Obriga-me a perguntar, a ouvir e a aprender. A experiência também ensina. A curiosidade ensina. Os erros ensinam. E as pessoas com quem trabalhamos ensinam-nos imenso, se tivermos humildade suficiente para as escutar. Hoje já não sinto que tenha alguma coisa a provar. Sinto, isso sim, que tenho sempre alguma coisa para aprender. E espero nunca perder essa curiosidade.

Há algum mito sobre o sucesso que gostaria de desmontar a partir da sua própria experiência?

Talvez o mito da sorte. Às vezes olhamos para alguém que alcançou alguma coisa e pensamos “teve sorte.” Eu costumo dizer que a sorte dá muito trabalho. Naturalmente que existem circunstâncias, encontros e oportunidades que podem mudar um percurso. Eu própria tive a sorte de encontrar pessoas extraordinárias ao longo da vida. Mas é preciso estar disponível para reconhecer uma oportunidade e, depois, trabalhar muito para a transformar em alguma coisa. Há outro mito que gostaria de desmontar, que é a ideia de que o sucesso é um estado permanente. Não é. O sucesso é feito de pequenos sucessos que vamos conquistando pelo caminho, intercalados com insucessos, dúvidas, erros e recomeços. Ninguém passa uma vida inteira numa linha permanentemente ascendente. Algumas das maiores aprendizagens da minha vida vieram precisamente das coisas que não correram como eu esperava. O sucesso não é um sprint, é uma maratona. Há momentos em que corremos mais depressa, outros em que precisamos de abrandar e outros em que tropeçamos. O importante é continuar, sem perder de vista aquilo que nos move e, sobretudo, sem perder pelo caminho aquilo e aqueles que verdadeiramente importam.

Quando olha para trás, qual considera ter sido o maior desafio pessoal ou profissional que enfrentou?

É difícil escolher apenas um, porque os desafios assumem dimensões diferentes consoante o momento da nossa vida. Ser mãe aos 15 anos foi, naturalmente, um enorme desafio. Não porque tenha deixado de viver a minha juventude, mas porque passei a vivê-la com uma responsabilidade que a maioria das pessoas da minha idade não tinha. Mais tarde vieram outros desafios, construir uma família com quatro filhos, conciliá-la com uma vida profissional exigente, mudar de áreas profissionais, começar de novo e, em determinado momento, acreditar que era possível criar o Fórum Saúde XXI praticamente a partir de uma ideia. Se existe algo comum a todos esses momentos, talvez seja ter aprendido a não esperar pelas condições perfeitas. Durante muito tempo achamos que chegará aquele momento ideal em que teremos tempo, segurança, conhecimento e todas as condições reunidas para avançar. A vida ensinou-me que esse momento raramente chega. Fazemos o melhor possível com aquilo que temos naquele momento. E avançamos. Talvez os maiores desafios não tenham sido aqueles em que tive de demonstrar força, mas aqueles em que tive de aceitar que não controlamos tudo. Aprender isso também é crescer.

A resiliência é uma competência que se aprende ou uma característica que se desenvolve através das circunstâncias?

Acredito que é uma combinação das duas, mas sobretudo algo que a vida nos vai ensinando. Não acordamos um dia resilientes. Tornamo-nos resilientes cada vez que alguma coisa não corre como esperávamos e descobrimos que, apesar disso, conseguimos continuar. Cada dificuldade ultrapassada deixa-nos uma espécie de memória interior. Já passei por momentos difíceis antes, vou encontrar uma forma de ultrapassar este também. Mas não devemos confundir resiliência com invulnerabilidade. Ser resiliente não significa não sofrer, não ter medo, não chorar ou nunca precisar de parar. Para mim, a verdadeira resiliência está em reconhecer a dificuldade, permitir-nos senti-la e, depois, encontrar uma forma de seguir em frente. E seguir em frente nem sempre significa insistir no mesmo caminho. Às vezes, ser resiliente também é ter a coragem de mudar de direção.

Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar ao longo da sua vida? Houve alguma adversidade que, vista à distância, acabou por se transformar numa oportunidade?

É difícil identificar uma única decisão. Algumas das mais difíceis estiveram relacionadas com momentos em que tive de escolher entre a segurança daquilo que conhecia e a incerteza de começar alguma coisa nova. Mudar é difícil. Temos responsabilidades, família, compromissos e aquela voz interior que nos pergunta, e se correr mal? Mas, olhando para trás, percebo que alguns dos momentos que inicialmente interpretei como adversidades ou ruturas acabaram por me obrigar a mudar de direção. E algumas dessas mudanças levaram-me aos capítulos mais importantes da minha vida. Também aprendi a não romantizar as dificuldades. Há coisas difíceis que são simplesmente difíceis e que, se pudéssemos escolher, preferíamos não ter vivido. O que podemos escolher é aquilo que fazemos depois delas. Não controlamos tudo o que nos acontece, mas temos uma enorme responsabilidade sobre aquilo que fazemos com o que nos acontece. E, muitas vezes, aquilo que num determinado momento parece o fim de um caminho acaba por ser apenas o início de outro.

Ao longo da sua carreira, sentiu que existiam expectativas diferentes para homens e mulheres em posições de liderança?

Sim, e acredito que essas diferenças ainda existem, embora tenhamos feito um caminho muito importante. Durante muito tempo associámos liderança a características tradicionalmente consideradas masculinas, a autoridade, a assertividade, a capacidade de decisão, a competitividade. E muitas mulheres sentiram que, para serem reconhecidas como líderes, tinham de se adaptar a esse modelo. Felizmente, isso está a mudar. Ainda hoje, comportamentos semelhantes podem ser interpretados de forma diferente consoante venham de um homem ou de uma mulher. Um homem determinado é facilmente visto como assertivo; uma mulher com a mesma determinação pode ser considerada demasiado exigente. Um homem que dedica muitas horas à carreira é ambicioso; a uma mulher continua, por vezes, a ser perguntado como consegue conciliar tudo. Não acredito que a resposta seja as mulheres procurarem liderar como os homens, nem o contrário. Precisamos de deixar de associar liderança a um género e começar a associá-la à competência, à integridade, à capacidade de mobilizar pessoas e de produzir resultados. É isso que verdadeiramente importa.

Que características da liderança feminina considera particularmente relevantes nos dias de hoje?

Tenho alguma resistência em dizer que existem características exclusivamente femininas. Há excelentes líderes, homens e mulheres, com estilos muito diferentes. Dito isto, há competências frequentemente associadas à liderança feminina que são hoje particularmente importantes – a capacidade de escuta, a empatia, a colaboração, a inteligência emocional, a flexibilidade e uma maior abertura a modelos de decisão menos hierarquizados. Mas não gostaria que transformássemos estas características num novo estereótipo. Uma mulher não tem de ser mais empática apenas porque é mulher, da mesma forma que um homem não tem de ser menos. O que me interessa verdadeiramente é que estamos a caminhar para modelos de liderança mais humanos e colaborativos. O futuro não precisa de uma liderança mais masculina ou mais feminina. Precisa de uma liderança melhor. Uma liderança capaz de aliar conhecimento e humanidade, firmeza e capacidade de escuta, decisão e colaboração.

O que diria às jovens mulheres que sentem que o seu contexto pessoal ou familiar pode limitar as suas ambições?

Dir-lhes-ia, antes de mais, para não permitirem que alguém decida antecipadamente aquilo que são ou não capazes de fazer. O nosso contexto condiciona-nos, naturalmente. Seria ingénuo dizer o contrário. Nem todas partimos do mesmo lugar, nem temos as mesmas oportunidades, os mesmos apoios ou as mesmas circunstâncias. Eu fui mãe aos 15 anos. Poderia ter olhado para essa realidade como uma definição daquilo que a minha vida teria de ser. Não o fiz. Continuei o meu percurso, com mais responsabilidades, naturalmente, mas também com sonhos e ambições. Também não acredito na ideia de que podemos ter tudo, sempre, ao mesmo tempo e sem fazer escolhas. A vida implica escolhas, prioridades e, por vezes, renúncias. E não há problema nenhum nisso. O importante é que essas escolhas sejam nossas e não impostas pelas expectativas dos outros. E dir-lhes-ia ainda, não esperem sentir-se totalmente preparadas para aproveitar uma oportunidade. Muitas vezes, a confiança chega depois de termos tido a coragem de começar.

Como gostaria que o seu contributo para a área da saúde fosse lembrado no futuro?

Gostaria que fosse lembrado de uma forma muito simples. Como alguém que ajudou a aproximar pessoas. Nunca tive a pretensão de ter as respostas para os grandes problemas da saúde. O que sempre procurei foi ajudar a criar os lugares onde essas respostas podem começar a ser construídas. Se, através do Fórum Saúde XXI, conseguirmos aproximar conhecimento e decisão, setor público e privado, academia e sociedade civil, profissionais e cidadãos; se conseguirmos fazer com que pessoas que normalmente não se sentariam à mesma mesa conversem e, dessa conversa, nasça alguma coisa que melhore a vida das pessoas, então sentirei que valeu a pena. No final, não gostaria que o meu legado fosse medido pelo número de eventos realizados ou pelas pessoas que conheci. Gostaria que fosse medido pelas pontes que ajudámos a construir e por aquilo que essas pontes tornaram possível.

O que a preocupa mais atualmente no sistema de saúde português?

Preocupa-me, sobretudo, continuarmos demasiado concentrados em responder à doença quando sabemos que muitos dos grandes desafios das próximas décadas exigem que consigamos antecipá-la. Portugal mudou profundamente. Vivemos mais anos, temos mais pessoas com doenças crónicas, novas tecnologias estão a transformar a medicina e as expectativas dos cidadãos também mudaram. Um sistema pensado para uma determinada realidade demográfica e epidemiológica tem de conseguir adaptar-se a uma sociedade diferente.

E se pudesse escolher apenas uma grande transformação para o sistema de saúde português nos próximos dez anos, qual seria?

Se pudesse escolher uma grande transformação para os próximos dez anos, escolheria uma verdadeira mudança de paradigma, passar de um sistema predominantemente reativo para um sistema muito mais preventivo, integrado e centrado na pessoa. Isso significa investir seriamente na promoção da saúde e na prevenção, reforçar os cuidados de proximidade, melhorar a articulação entre níveis de cuidados, utilizar melhor os dados e a tecnologia e acompanhar as pessoas ao longo da vida, e não apenas quando adoecem. Não se trata apenas de fazer o sistema gastar menos. Trata-se de permitir que as pessoas vivam mais anos com saúde e qualidade de vida. O grande desafio não é apenas acrescentar anos à vida. É acrescentar vida aos anos.

Que legado gostaria que o Fórum Saúde XXI deixasse à sociedade portuguesa?

Gostaria que deixasse, acima de tudo, uma cultura de diálogo e participação. Que tivesse contribuído para mostrar que podemos discutir temas difíceis sem transformar diferenças em trincheiras; que o setor público, o privado, o social, a academia e os cidadãos não têm de existir em mundos separados; e que os grandes problemas da sociedade exigem responsabilidade partilhada. Gostaria também que deixasse conhecimento, propostas e novas gerações de pessoas disponíveis para participar na construção das políticas de saúde. As instituições devem pensar para além das pessoas que circunstancialmente as lideram. O verdadeiro legado do Fórum será existir, crescer e continuar a ser relevante muito para além de quem o criou. As pessoas passam. As instituições ficam quando conseguem construir um propósito maior do que aqueles que, em determinado momento, lhes dão rosto. É esse Fórum Saúde XXI que gostaria de deixar.

 

Mais Artigos