Mishmash: A arte de tornar um bloco de notas numa marca internacional

O algoritmo de cada um pode nem estar direcionado para esse lado, mas continua a ser difícil fugir ao nicho do material de papelaria que tem invadido as redes sociais nos últimos tempos. Entre a tendência do journaling – descrita pelo dicionário de Cambridge como “o ato de escrever o que se fez todos os…
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O nome Mishmash tem origem na palavra inglesa miscellaneous, mas tudo o resto é made in Portugal. Beatriz Barros fundou uma marca em Matosinhos que está a conquistar espaço em várias cidades do mundo.
Negócios

O algoritmo de cada um pode nem estar direcionado para esse lado, mas continua a ser difícil fugir ao nicho do material de papelaria que tem invadido as redes sociais nos últimos tempos. Entre a tendência do journaling – descrita pelo dicionário de Cambridge como “o ato de escrever o que se fez todos os dias, incluindo, por vezes, os pensamentos, sentimentos e objetivos pessoais” – e a moda da personalização, materiais como cadernos, agendas ou post-it são cada vez mais um objeto de desejo, em vez de uma simples necessidade.

Mas muito antes de todo este universo virar tendência, já Beatriz Barros via potencial na área. Foi há cerca de dez anos, tinha terminado o curso em Design Gráfico na Escola Superior de Artes e Design (ESAD) e, inspirada na infância que passou na papelaria do avô, decidiu pôr logo mãos à obra. “Foi o único projeto que tive desde que saí da faculdade”, conta à Forbes Portugal.

A Mishmash nasceu do carinho que Beatriz foi nutrindo pelas áreas do design editorial e do book design ao longo da sua licenciatura. “Sempre vi uma falha gigante na ponte entre o que é o book design versus os artigos de papelaria”, explica Beatriz. O mercado já estava recheado de várias marcas, como a Moleskine ou a Leuchtturm1917: “Mas estavam todos a fazer a mesma coisa, todos com a mesma linha, isso espantava-me muito”. Foi aí que decidiu que queria lançar um produto com uma abordagem diferenciada. Algo que, com a experiência, foi aprendendo a equilibrar nos seus produtos.

“O mundo empresarial ensinou-me que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Ou seja, tinha de fazer um produto diferenciado para me distinguir, mas não tanto ao ponto de não ser viável comercialmente”, lembra. Os primeiros cinco produtos da marca – blocos de notas – tiveram esse problema, eram difíceis de explicar a nível comercial e, por isso, a sua utilização não ficava clara para o consumidor.

Apesar da sua formação ser na área do design e de estar mais ligada ao processo criativo, este lado do negócio e da gestão nunca lhe meteu medo. Muito pelo contrário. Por isso soube ajustar a marca à medida que ela foi crescendo, passando desses cinco produtos iniciais para uma linha mais clara para os consumidores.

“O meu pai é empreendedor, a minha mãe, apesar de não ser necessariamente empreendedora, trabalha com o meu pai. Ambos têm perfis de gestão e analíticos. Apesar de eu ser do mundo mais artístico, sinto que sou um produto de ambos os mundos”, diz.

Neste lado de gestora, ao leme da Mishmash o grande desafio que encontrou pelo caminho foi exatamente o crescimento da marca. “Claro que é mais difícil passar do zero ao 100 [em vendas] do que depois a partir de uma determinada escala, mas foi sempre o crescimento”, conta. “Nos primeiros seis anos faturamos sempre entre 100 e 200 mil euros, sempre a debater como crescer, estratégias, testar modelos de negócios diferentes, testar mercados diferentes, produtos diferentes. Depois do sétimo ao nono ano, aí sim já sentimos ‘ok, se calhar isto até tem pernas e conseguimos ser mais do que uma marca de cadernos’. Desde o início queríamos ser uma marca global, aliás sempre falamos em inglês, precisamente porque nos queríamos projetar fora do mercado português. Aí já começamos a faturar entre os 300 e 500 mil euros. No décimo ano [2025] atingimos uma meta que foi incrível para nós, foi um crescimento relevante, chegámos aos 850 mil euros”, conta a empresária.

Em parceria

Um dos fatores que contribuiu para o crescimento da marca foi a entrada de um novo investidor. Numa altura em que se debatia com essa ideia de crescimento, Beatriz procurou perceber como escalar o negócio, deixar de ser simplesmente uma marca de cadernos apenas presente no online. Pouco tempo depois da pandemia causada pela covid-19, um grupo suíço Pagani Pens, especialistas em canetas e com grande foco no mercado promocional, adquiriu 80% da Mishmash.

“Na altura essa percentagem não era toda minha, eu tinha outros sócios. Portanto, eles acabaram por adquirir na totalidade a percentagem dos outros sócios e eu fiquei com 20%”, diz a fundadora, explicando ainda que esta venda não provocou muitas alterações, uma vez que a Mishmash continua a ser uma empresa portuguesa, com Beatriz ao leme.

“Eu continuo a gerir a empresa toda, mas eles têm-nos dado apoio no acesso a novos mercados. Por exemplo, estamos com eles em feiras, são um apoio mais comercial e de expansão. Mas todos os nossos artigos continuam a ser made in Portugal, os nossos fornecedores estão todos num raio de 10 quilómetros de nós, é uma coisa que valorizamos muito”, continua.

Os principais mercados da Mishmash estão na Europa, como Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha, mas a marca tem também presença nos Estados Unidos e no Canadá. A venda é feita através do online, mas também em lojas físicas: “Há sempre uma ou outra loja de especialidade e nós temos vindo a conseguir estar nesses sítios”, diz Beatriz. Falamos de locais como Goods For The Study, em Nova Iorque, ou até mesmo museus, como o Museu do Design em Zurique ou o Museu de Arte Contemporânea em Estocolmo.

Além disso, ao longo dos anos desenvolveram algumas parcerias estratégicas que trouxeram notoriedade à marca. Dois dos principais exemplos são as coleções que desenvolveram para o Whitney Museum e para o Guggenheim, ambos em Nova Iorque. “Para o Whitney Museum fizemos uma coleção de artigos de papelaria para a loja que teve muito sucesso, foi um desenvolvimento de produto em conjunto com a equipa criativa do museu que nos trouxe muito conhecimento. Para o Guggenheim também desenvolvemos uma linha de papelaria. Com estes dois clientes reuni presencialmente em Nova Iorque, é uma coisa que valorizamos e, se calhar, não está tão presente em outros mercados. Esta proximidade não é linguística, é mais na forma criativa, a paixão que temos pelo produto”, diz Beatriz.

Estes são dois exemplos internacionais, mas a Mishmash também tem diversas parcerias com nomes portugueses. “Fizemos uma parceria com a Salsa Jeans, eles lançaram um produto nosso com o Sisa Vieira. Também temos vindo a fazer produtos de merchandising para uso interno para unicórnios portugueses, como a Talkdesk ou a Sword”, conta.

Estas parcerias foram algo que Beatriz procurou nos primeiros anos da marca, mas que hoje já lhe chegam de forma orgânica.

Home office

No dia em que a Forbes Portugal visitou o escritório da Mishmash, no Mercado de Matosinhos, Beatriz deixou o aviso: a empresa já estava em fase de mudanças. É que todo o crescimento mencionado vai-se traduzir também no espaço físico da marca. Um novo espaço, mas sempre na mesma região.

“Eu sou de Matosinhos, estudei em Matosinhos e criei a marca em Matosinhos”, diz. Agora, muda-se de um espaço com 50 metros quadrados para um novo centro empresarial que o grupo Lionesa vai abrir não muito longe da morada atual da marca. “Vai ser um passo muito grande e muito importante para nós. Vamos para um espaço que nos vai estabilizar como marca, porque é um espaço comercial só nosso, com porta aberta ao público virada para a rua. Vai ser um espaço híbrido, vai ser armazém, loja, espaço criativo, eventualmente queremos fazer crescer uma comunidade e ter eventos”.

Com isto, associar a marca às tendências do mercado. Por exemplo, Beatriz menciona a vontade de criar workshops relacionados com o scrapbooking, uma das tendências que invadiu as redes sociais nos últimos anos. “Há coisas que são muito cíclicas”, afirma a fundadora, usando também o exemplo dos discos de vinil na indústria da música.

Para que estes hábitos virem tendência são necessários materiais e na Mishmash são estes os mais vendidos: “A nossa linha bestseller são os planners, o conceito de planning é o que nós, neste momento, temos mais”, diz, sendo que os disponibilizam em diversos formatos para responder às diferentes necessidades dos consumidores. Desde uma divisão por meses ou semanas a um planner mais indicado para ficar na secretária ou para transportar.

E nunca param. A Mishmash lança todos os meses um novo produto, cumprindo o objetivo de lançar doze novidades por ano. Arriscando, também, novas categorias de produto, como os acessórios através de uma multistrap ou os conjuntos de stickers.

“Queremos ser reconhecidos no mundo da papelaria internacionalmente, então acreditamos que ao expandir as categorias de produto, apesar de ser sempre na categoria de office e não querermos sair daí, o conseguimos”, afirma Beatriz, realçando que o seu objetivo final é que a Mishmashs seja reconhecida pelo seu “excelente produto”.

(Artigo publicado na edição de abril/maio 2026 da Forbes Portugal)

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