A agricultura vive tempos de incerteza. À pressão das alterações climáticas juntam-se a instabilidade geopolítica, a fragmentação das cadeias de abastecimento, as barreiras comerciais e um ambiente regulatório mais imprevisível. Para os investidores, a questão já não é apenas encontrar oportunidades no agronegócio: é também perceber como proteger o capital num setor exposto a tantos riscos.
Foi esta perspetiva que Catarina Pinto Correia, Co-Head of Practice Partner Environment & Climate Change da Vieira de Almeida (VdA), sublinhou na mesa-redonda “Agribusiness on an Investor Perspective”, integrada no Global Agri Forum 2026, realizado esta quinta-feira nos escritórios da VdA, em Lisboa.
A responsável da sociedade de advogados chamou a atenção para o facto de a instabilidade não estar apenas relacionada com a conjuntura internacional. Também a regulação se tornou uma fonte adicional de incerteza para quem investe: “Temos de lidar com esta instabilidade e proteger”, disse Catarina Pinto Correia, defendendo a importância de estruturar “transações sólidas” capazes de acomodar os choques que possam surgir.
A proteção do investimento passa, na sua perspetiva, pela capacidade de antecipar riscos e pela escolha dos parceiros envolvidos nos projetos: “Segurar o risco sabendo que os parceiros certos estão envolvidos em investimentos é claramente um sinal de segurar investimentos e ter melhor acesso a capital”, explicou.
A advogada colocou ainda a resiliência das cadeias de fornecimento entre as prioridades do setor e apontou para a necessidade de acelerar alguns processos de licenciamento, sugerindo a criação de um “Green Visa” para projetos e investimentos relacionados com a transição ambiental.
As questões ESG continuam, entretanto, presentes na agenda empresarial. “ESG está na agenda nas empresas mesmo com as incertezas”, afirmou.
Da globalização à regionalização
A discussão sobre risco rapidamente passou do investimento para a segurança alimentar. E, neste campo, a experiência da Arábia Saudita mostra como a pandemia e as perturbações no comércio internacional alteraram algumas premissas.
Bader Al Aujan, Chairman da Al Jouf Agricultural Development Co. e Chairman da Entaj, explicou que a Arábia Saudita importa cerca de 80% dos alimentos que consome, num valor próximo dos 30 mil milhões de dólares, incluindo alimentação para animais.
Durante anos, a estratégia passou por utilizar o investimento internacional para garantir o abastecimento doméstico. O país investiu em produção agrícola em diferentes geografias, entre elas o Brasil e a Ucrânia.
A lógica era simples: se a produção não estivesse dentro do país, poderia estar em mercados onde fosse possível produzir e, posteriormente, garantir o fornecimento.
Mas a pandemia veio colocar essa estratégia à prova: “A crise após a COVID-19 provou que, se não tivermos comida, nada feito”, afirmou Bader Al Aujan.
O resultado é uma mudança de abordagem. A segurança alimentar deixou de ser pensada apenas numa lógica global e passou a incorporar uma dimensão regional, com maior atenção aos países vizinhos e à capacidade de armazenamento. “Mudámos da globalização para a regionalização”, resumiu.
Para a Arábia Saudita, a questão passa agora por encontrar um equilíbrio entre produção doméstica, investimento internacional e integração regional, reduzindo a exposição a eventuais interrupções das cadeias globais.
Produzir mais em condições mais difíceis
Se a geopolítica está a alterar a forma como os países pensam o abastecimento, a tecnologia está a transformar a forma como a agricultura pode responder a essas necessidades.
Javier Cano, Board Member da Eurosemillas, empresa que trabalha na produção de sementes para diferentes mercados internacionais, destacou o papel das novas variedades e da inovação na adaptação da produção agrícola: “Novas variedades e novas marcas significam impacto”, afirmou.
A tecnologia permite, segundo o responsável, aumentar a produtividade e levar determinadas culturas para geografias onde as condições de produção são mais exigentes: “Seremos capazes de produzir mais mesmo em regiões mais complicadas”, defendeu.

A estratégia das empresas do setor passa também por garantir uma presença permanente nos mercados: “Sempre que plantamos algo temos de estar no mercado 12 meses por ano”, explicou.
Num contexto de maior pressão sobre os recursos, a inovação na genética vegetal e nas técnicas de produção surge assim como uma das ferramentas para aumentar a capacidade de resposta da agricultura.
O capital institucional olha para o longo prazo
A necessidade de gerir o risco não significa, contudo, que os grandes investidores institucionais estejam a abandonar o setor. Pelo contrário, a agricultura integra estratégias de investimento que procuram retornos a longo prazo e diversificação.
Juan Lopez Barcelo, Investment Director, Infrastructure & Natural Resources do Ontario Teachers’ Pension Plan, explicou que o fundo canadiano procura não ficar dependente das oscilações dos ciclos políticos: “Pensamos no longo prazo quando queremos retorno; não baseamos os nossos investimentos em ciclos políticos”.
A diversificação é outro dos princípios utilizados na construção das carteiras. A presença de empresas em diferentes mercados pode permitir distribuir a exposição a riscos específicos de cada geografia. Ao mesmo tempo, as alterações climáticas passaram a fazer parte da análise dos ativos e das empresas: “Temos cuidado de investir em soluções que ajudem a combater as alterações climáticas”, afirmou Lopez Barcelo, acrescentando que o tema continua presente nas decisões de investimento.
Na África lusófona, os desafios são amplificados
Nos mercados emergentes, e particularmente em África, as dificuldades de financiamento e de estruturação dos negócios agrícolas assumem uma dimensão adicional.
Vasco Nunes, Senior Operations Officer da IFC/World Bank, descreveu um contexto internacional marcado por maior fragmentação: “Temos de nos manter no rumo apesar de todas as vicissitudes no mundo, e isso porque o mundo está pior, mais polarizado, [com] barreiras comerciais”, afirmou.
A IFC continua a trabalhar nos mercados emergentes, incluindo na África lusófona, onde a agricultura apresenta desafios particulares. Entre eles está a elevada fragmentação do setor, que torna mais complexa a agregação de produtores e a estruturação de projetos com escala suficiente para atrair capital: “No setor agrícola é o setor mais desafiante, pois é o mais fragmentado”, explicou.
Ao mesmo tempo, é precisamente essa dimensão que confere ao setor um elevado potencial de impacto no desenvolvimento económico e social: “É o negócio mais sexy em termos do impacto do desenvolvimento”, afirmou Vasco Nunes.
Na IFC, esse impacto é acompanhado através de critérios ambientais, sociais e climáticos. “Levamos muito a sério ESG”, garantiu, explicando que os investimentos são avaliados também em função dos seus impactos e dos riscos associados ao clima e às questões sociais.





