O navio-escola da Marinha indiana, o INS Sudarshini, está de visita a Lisboa após ter atracado em Ponta Delgada. Este veleiro é muito mais do que a lona e o aço de que é feito, ou os 50 cadetes que transporta. Ao empreender a ambiciosa viagem transatlântica ‘Lokayan 2026’, de 22 000 milhas náuticas, que a levará a 18 portos em 13 países, esta embarcação é uma “Embaixadora Flutuante” que transmite a mensagem de Vasudhaiva Kutumbakam (O Mundo é uma Família). Representa uma ponte entre a antiga herança marítima e a diplomacia naval moderna, e a sua visita a Portugal une as duas nações cujas histórias estão inextricavelmente interligadas no leito oceânico.
Tendo entrado ao serviço da Marinha Indiana em Janeiro de 2012, o INS Sudarshini, que recebe o nome da meia-irmã de Buda e significa “Visão Auspiciosa”, foi construído pela Goa Shipyard Limited, na cidade de Vasco da Gama. Isto, por si só, insere Portugal no seu ADN. Um veleiro pode parecer anacrónico, numa era dominada pela propulsão nuclear, pelos sistemas autónomos, pela inteligência artificial e pelo armamento supersónico, mas o treino de vela continua a ser a prova de fogo para a formação do carácter e das competências náuticas básicas, características singulares da liderança naval.
A visita do INS Sudarshini reflete também as crescentes ambições marítimas da Índia e articula a visão indiana do MAHASAGAR, ou ‘Avanço Mútuo e Holístico para a Segurança e o Crescimento entre Regiões’. Portugal, com a sua gloriosa história marítima, destaca-se como uma das nações marítimas por excelência. Foram os marinheiros Portugueses que abriram rotas comerciais oceânicas directas entre a Europa e a Ásia nos séculos XV e XVI. Quando Vasco da Gama chegou à Índia em Maio de 1498, completou aquela que foi, na altura, a mais longa viagem oceânica jamais realizada. A expedição ‘Lokayan’ do Sudarshini (derivada do sânscrito ‘mundo’ e ‘viagem’) levá-lo-á a diversas costas e portos.
Ao visitar Portugal após participar em encontros navais internacionais em França e nos Estados Unidos, e ter feito escala em Omã, no Egipto e em Malta, o navio destaca o compromisso da Índia para com uma ordem marítima internacional baseada em regras e com a liberdade de navegação. A Índia e Portugal partilham também preocupações semelhantes relativamente à segurança no Oceano Índico e no Oceano Atlântico. Estas incluem a pirataria, o tráfico de pessoas, drogas e armas, a pesca ilegal e a salvaguarda das infraestruturas submarinas. Tal torna a interacção naval vital, e as escalas nos portos, os intercâmbios profissionais, as visitas de intercâmbio entre navios e a interacção entre jovens oficiais de ambas as marinhas irão lançar as sementes de uma camaradagem estratégica de longo prazo.
Ambos os países têm imenso orgulho em preservar as suas tradições marítimas. Portugal mantém o seu célebre navio-escola, o NRP Sagres. Foi portanto natural o cumprimento entre os dois ‘irmãos’ em Ponta Delgada, tendo ainda realizado um exercício conjunto em alto mar.
Ao desfraldar as suas velas brancas com o Atlântico como pano de fundo, o INS Sudarshini presta homenagem às tradições marítimas seculares de Portugal, ao mesmo tempo que destaca o papel crescente da Índia enquanto potência marítima responsável. A sua visita marca mais um capítulo memorável na história duradoura de duas grandes nações marítimas.
Puneet R. Kundal,
Embaixador da Índia em Portugal





