Opinião

Oh Captain, My Captain: entre o direito de partir e o dever de ficar

Nilza Rodrigues

Vou começar com uma declaração de princípio.

Sou admiradora de Cristiano Ronaldo. Não de hoje. Não por conveniência. Não porque seja popular dizê-lo. Sou admiradora desde os primórdios da minha carreira, quando um jovem madeirense começava a conquistar o mundo e nós, portugueses, começávamos a perceber que tínhamos entre nós alguém verdadeiramente extraordinário.

Por isso, confesso alguma inquietação perante a facilidade com que muitos decidiram julgá-lo nas últimas horas.

Cristiano abandonou a concentração da Seleção. Os factos são conhecidos. O que não conhecemos são as razões. E essa deveria ser a primeira lição de prudência antes de começarmos a distribuir sentenças, indignações e condenações públicas.

Vivemos numa época em que todos exigem explicações imediatas, mas raramente aguardam pelos factos. E os factos, neste caso, ainda não são todos conhecidos. Sabemos apenas que estamos a falar do maior jogador da história do futebol português. Um dos maiores atletas de todos os tempos. Um homem que durante mais de duas décadas carregou às costas uma bandeira que nunca deixou cair.

Por isso pergunto: será assim tão difícil conceder-lhe o benefício da dúvida?

Há quem invoque o argumento da igualdade. Que ninguém está acima da Seleção. A velha e obsoleta ladainha de que as regras são iguais para todos.  Mas a verdade é que nunca foram.

Não tratamos José Saramago como tratamos um escritor comum.

Não tratamos Amália Rodrigues como tratamos uma fadista qualquer.

Não tratamos Luís de Camões como tratamos um poeta qualquer.

E não tratamos Cristiano Ronaldo como tratamos um jogador qualquer.

Isto não significa impunidade. Significa reconhecimento.

Reconhecimento de mérito. Reconhecimento de impacto. Reconhecimento de uma vida inteira dedicada à excelência. A igualdade não consiste em fingir que todos deram o mesmo. A verdadeira justiça consiste em reconhecer que nem todos contribuíram da mesma forma.

Cristiano Ronaldo deu a Portugal algo que nenhum regulamento, nenhum treinador e nenhuma direção federativa alguma vez conseguirão reproduzir. Visibilidade. Reputação. Orgulho.

Sei do que falo. Viajo pelo mundo e não há quem não me fale dele além-fronteiras.  Em Nova Iorque, em Paris, no Dubai, em Londres, há sempre alguém que, ao ouvir a palavra Portugal, responde imediatamente: Cristiano Ronaldo.

Durante anos, para muitos estrangeiros, o nosso país resumia-se a uma insignificância no extremo da Europa. Hoje é um país reconhecido globalmente. Naturalmente que essa transformação não se deve apenas a Ronaldo. Mas negar o seu contributo seria negar a evidência.

O futebolista tornou-se marca. A marca tornou-se embaixador. E o embaixador tornou-se um dos mais eficazes instrumentos de projeção internacional que Portugal alguma vez conheceu. Atraiu turistas. Projetou empresas. Valorizou a imagem do país. Inspirou milhões.

Levou Portugal a geografias que nunca teríamos alcançado apenas através da política, da diplomacia ou da economia.

Por isso, antes de gritarmos “abandono”, talvez devêssemos perguntar o que levou um homem que sempre colocou a Seleção no topo a tomar uma decisão tão drástica.

Porque há momentos na vida em que partir exige mais coragem do que ficar. No fim de contas, estamos a falar de dez minutos. Dez minutos de futebol. Dez minutos que, segundo muitos, justificariam toda esta polémica.  Que quem manda é o treinador. Tudo certo. Mas o treinador prometeu e não cumpriu. Duas vezes. Que Cristiano jogaria e não jogou. Que pediria desculpas (até agora não foi desmentido) e não pediu. Dizem que o fez ao seu jeito. Não há jeitos. Há uma única forma de o fazer. E é direto e claro, aliás, como ele é conhecido. Sem papas na língua.

Há jogos que se ganham dentro de campo. E há outros que se ganham fora dele.

Nesta fase da sua carreira, Cristiano Ronaldo não merece ser alvo de um apedrejamento mediático. Merece respeito. Merece gratidão. Merece que o escutemos antes de o julgarmos.

O capitão está de saída. E devíamos ser os primeiros a ajudá-lo a sair com a dignidade que merece, primeiro porque do ponto de vista humano, não é fácil este deixar ir. E depois, porque tem muito ainda para dar fora dos campos. Ao atribuir já o número 7 a outro (ainda só se passaram algumas horas desde de… ), é uma desconsideração que dói.

Portugal, não havia necessidade! Cristiano, no coração de muitos, serás sempre o “captain” do poema de Walt Whitman, uma inspiração de disciplina, excelência e amor à camisola.

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