Imagine ter sido um dos investidores que, em 2015, colocaram os $12,5 milhões (11 milhões de euros) necessários para levar “Hamilton” à Broadway. O musical já gerou $1,2 mil milhões (1,03 mil milhões de euros) em vendas de bilhetes e continua a esgotar sessões, com preços que são quase o dobro da média da Broadway. Uma parte excecionalmente elevada dessa receita acaba, por isso, por chegar aos investidores.
É provável que quem apostou em “Hamilton” tenha já recebido pelo menos dez vezes o capital investido — e poderá continuar a receber dinheiro enquanto o espetáculo continuar a gerar receitas.
É este tipo de história que alimenta os sonhos dos investidores que olham para a Broadway como uma oportunidade de negócio. Mas entrar neste mercado exige perceber uma economia muito particular — e aceitar que o investimento pode não ser recuperado.
Rachel Sussman conhece bem essa realidade. Aos 36 anos, uma idade relativamente jovem para uma produtora da Broadway, já foi produtora principal de “Suffs”, um musical sobre o movimento sufragista que conquistou dois Tony Awards, de “Liberation”, vencedor este ano do Tony para melhor peça, e de outros espetáculos na Broadway e fora dela.
Todos os anos, Sussman analisa cerca de 150 propostas apresentadas por escritores, agentes e outros profissionais. Escolhe uma ou duas e começa depois a procurar financiamento para as transformar em produções.
Quando o destino é a Broadway, a fasquia financeira é elevada. Atualmente, abrir um musical num dos 41 teatros de Manhattan com pelo menos 500 lugares custa aproximadamente $20 milhões (17 milhões de euros). As peças, que normalmente têm elencos mais pequenos e não necessitam de orquestra, custam consideravelmente menos.
Uma paixão que começou aos oito anos
Sussman cresceu nos subúrbios de Detroit e diz ser “obcecada por teatro” desde que, aos oito anos, assistiu a uma produção itinerante de “Les Misérables”. Mais tarde, mudou-se para Nova Iorque para estudar na Tisch School of the Arts, da NYU. Mas rapidamente percebeu que um diploma não era suficiente. Na Broadway, as relações pessoais e profissionais são fundamentais. “Ainda não sabia nada, mas tinha muita ousadia”, recorda.
Aos 23 anos, escreveu a Harold Prince, o lendário produtor e realizador responsável por sucessos como “West Side Story”, “Fiddler on the Roof” e “The Phantom of the Opera”. Conseguiu uma reunião de uma hora com ele.
Prince, que morreu em 2019, tinha apenas mais um ano do que Sussman quando produziu o seu primeiro espetáculo, “The Pajama Game”, que lhe valeu o primeiro de muitos Tony Awards.
“Suffs”: uma década para chegar à Broadway
A ideia de “Suffs” nasceu quando Sussman ainda frequentava a escola. Começou então a interessar-se pelos direitos das mulheres e questionou-se se o movimento sufragista poderia dar origem a um musical.
Em 2014, colocou a questão a Shaina Taub, atriz e música que tinha terminado os estudos na Tisch alguns anos antes. Taub interessou-se pela ideia e acabou por escrever o livro, a música e as letras do espetáculo.
Sussman precisava depois de um nome capaz de atrair financiamento. Como coprodutora principal, convidou Jill Furman, que tinha no currículo produções como “Hamilton” e “In the Heights”. Para ajudar a conquistar investidores, recorreram também a Hillary Clinton.

Depois de uma década de desenvolvimento, incluindo uma produção experimental no Public Theater, “Suffs” chegou finalmente à Broadway e permaneceu em cena durante dez meses, mais tempo do que a maioria dos musicais da sua temporada.
Mas não foi um sucesso financeiro. Quando encerrou em janeiro de 2025, “Suffs” ainda não tinha recuperado os custos de produção. Atualmente está em digressão e poderá continuar a gerar receitas através de licenças durante muitos anos, mas pode nunca recuperar integralmente o investimento inicial. “É o mundo do espetáculo.”
Não é um investimento para a reforma
Sussman dá também cursos online sobre a economia da Broadway. Entre os alunos estão jovens que querem entrar na indústria e investidores mais velhos, com capital disponível e curiosidade sobre este tipo de negócio. Mas chamar-lhe “investimento” é, em certa medida, enganador.
O objetivo não deve ser colocar dinheiro na Broadway para financiar a reforma. O principal atrativo é participar na criação de uma obra artística ao lado de atores, escritores e outros profissionais. “A Broadway é construída sobre uma esperança e um sonho”, diz Sussman. “Recuperar o dinheiro não é a única coisa que se obtém.”
Os investidores podem ser convidados para a festa de estreia com o elenco. Aqueles que conseguem reunir quantias significativas — com dinheiro próprio ou de amigos — podem receber o estatuto de “co-produtor” e ver o seu nome na primeira página do programa do espetáculo.
A maioria não recupera o dinheiro
Ganhar dinheiro está longe de ser o resultado habitual. É suficientemente raro um investidor conseguir sequer recuperar o capital inicial — obter um retorno de 0% — para que, quando isso acontece, os produtores façam questão de anunciar publicamente o chamado “recoupment”, ou recuperação do investimento.
A estimativa pessimista de Sussman é clara: apenas um em cada dez musicais consegue recuperar o investimento. Quando surge um grande sucesso, contudo, os números podem ser extraordinários.
“The Phantom of the Opera”, de Andrew Lloyd Webber, permaneceu 35 anos na Broadway. A Disney, uma das poucas grandes empresas a financiar regularmente musicais, já vendeu $2,2 mil milhões (1,9 mil milhões de euros) em bilhetes para “The Lion King” e continua a gerar cerca de $2 milhões (1,7 milhões de euros) por semana.
E as receitas de bilheteira são apenas o início. Os investidores podem beneficiar de filmes, merchandising, digressões e produções internacionais.
Onde desaparece o dinheiro?
O problema é que, antes de os investidores receberem a sua parte, há uma longa fila de pessoas e entidades para pagar: atores, músicos, realizadores, designers, produtores, intermediários, proprietários dos teatros, funcionários, contabilistas, advogados especializados em entretenimento e muitos outros.
Para perceber a dimensão do desafio, basta olhar para os números de um musical médio. Os 24 musicais atualmente em cena na Broadway vendem, em média, $1 milhão (860 mil euros) em bilhetes por semana, segundo dados da Broadway League. Retirando 10% para taxas cobradas pelas empresas de bilhética e pelos emissores de cartões, sobram $900 mil (773 mil euros) de receita.
Depois entram os custos operacionais fixos, sobretudo relacionados com mão de obra. Segundo Sussman, estes custos ascendem a pelo menos $700 mil (601 mil euros) por semana e podem ser significativamente superiores.
Uma das razões está no número de organizações laborais envolvidas: na Broadway existem 13 sindicatos e uma guilda que têm de ser considerados na operação dos espetáculos.
Os stagehands (assistentes de palco), por exemplo, podem ter salários muito elevados. Uma declaração fiscal do Lincoln Center, considerado parte da Broadway apesar de estar algumas ruas a norte da zona principal, referia três profissionais com remunerações anuais entre $630 mil (541 mil euros) e $797 mil (685 mil euros).
E o que sobra para os investidores?
Os proprietários dos teatros também têm uma posição privilegiada. Os seus custos com funcionários, eletricidade e outras despesas são cobertos pelos custos fixos retirados das receitas. Além disso, recebem normalmente uma renda variável equivalente a 7% da receita líquida de bilheteira. No exemplo de Sussman, isso representaria $63 mil (54 mil euros). Depois de todas estas despesas, o lucro bruto seria, no melhor dos casos, de apenas $137 mil (118 mil euros) por semana. E mesmo esse valor ainda tem de ser dividido.
Produtores, autores, compositores, letristas, realizadores, coreógrafos e designers de cenários, figurinos, som e iluminação recebem uma parte. Dependendo da produção, podem ainda existir outros beneficiários, como teatros regionais ou de Off-Broadway que tenham acolhido versões experimentais do espetáculo ou proprietários dos direitos da obra original.
Estas participações e pagamentos mínimos representam normalmente cerca de 40% do lucro bruto. No exemplo utilizado, restariam aproximadamente $82 mil (70 mil euros) para os investidores, inicialmente destinados a recuperar o capital aplicado. Depois de recuperado o investimento, os investidores ficam com aproximadamente 40% desse valor.
Estado também ajuda
Os produtores contam ainda com um incentivo do Estado de Nova Iorque, que pode atingir $3 milhões (2,6 milhões de euros) para ajudar a suportar os custos de abertura de um espetáculo. Para uma produção que consiga obter o apoio máximo, a necessidade de capital dos investidores pode baixar de $20 milhões para $17 milhões (14,6 milhões de euros). Mesmo assim, um espetáculo moderadamente bem-sucedido como o do exemplo demoraria cerca de quatro anos a recuperar o investimento. E poucos espetáculos permanecem tanto tempo em cena.
Mesmo um fracasso pode acabar por dar dinheiro
Há, contudo, uma última esperança para os investidores. Mesmo um musical que fracasse na Broadway pode acabar por gerar receitas anos depois através de licenças para escolas, teatros regionais e produções amadoras. Sussman dá como exemplo “Seussical”, baseado nos livros do Dr. Seuss. O musical fracassou na Broadway em 2001, mas desde então proporcionou aos investidores originais receitas consideráveis através de licenciamento.
A Broadway continua, por isso, a ser uma aposta de alto risco. Mas Sussman encontra uma comparação que considera favorável. “Olhe para o risco de criar uma empresa”, argumenta. A maioria dos investimentos de venture capital tem resultados fracos. “Na Broadway, as probabilidades são melhores.”
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





