Que ideias, comportamentos ou tendências a levaram a escrever o livro?
Eu já tinha a ideia e, em 2022, a decisão Roe vs. Wade foi revogada nos EUA, que era o direito constitucional à liberdade reprodutiva das mulheres. Todos sabiam que isso ia acontecer, por isso não foi uma surpresa, mas fiquei surpreendida com o choque que senti, com a raiva e com a sensação de impotência. Não compreendia por que razão as mulheres não estavam a revoltar-se, não estavam nas ruas, em greve coletiva. Acho que o que me levou ao livro foi o nosso sentimento de impotência coletiva e a neutralização do feminismo, do seu ativismo e da sua energia. Ou seja, como é que isso aconteceu? Há tantos escritores políticos que são realmente excelentes neste tema, mas, como sou uma crítica cultural, olho sempre para as coisas através de uma perspetiva cultural e queria ver se conseguia encontrar alguma linha condutora desde os anos 90 e 2000 até ao momento em que nos encontrávamos na altura e, na verdade, em que ainda nos encontramos agora.
Que momentos da cultura pop destaca como os mais marcantes no processo de virar as mulheres contra si mesmas, tal como refere no livro?
São tantos. Acho que aquilo que vem logo à cabeça das pessoas quando pensam na década de 2000 é a imprensa sensacionalista, o tratamento dado a mulheres como a Britney Spears, um desprezo coletivo em relação a essas mulheres que eram jovens e estavam a lutar pela vida. Como sabem, elas viviam nessa pressão da fama, notoriedade e atenção desde que, em alguns casos, eram adolescentes ou até crianças. Esse ódio e repulsa pelas mulheres que transparecia em grande parte dos nossos meios de comunicação social pareceu-me muito importante na altura. Mas há tantas formas diferentes em que isso se manifestava, como todas as maneiras que a cultura dizia às mulheres para se odiarem a si próprias, para se julgarem a si próprias ou, pior ainda, para se distinguirem das outras mulheres e pensarem: “Eu não sou como aquelas raparigas”. A cultura da dieta, a cultura da beleza, os reality shows, a forma como se ensinava as mulheres a não pensarem coletivamente, a não se verem como uma irmandade e a não lutarem umas pelas outras.
No livro escreve sobre as mulheres que não conseguimos parar de observar. Porque razão acha que isso acontece?
O exemplo mais óbvio é a Kim Kardashian. É provavelmente uma das mulheres mais visíveis do mundo, definitivamente uma das mais influentes e possivelmente poderosa. Ela é fonte de enorme fascínio e ódio. Lembro-me que, há 12 anos, quando comecei a trabalhar na The Atlantic, escrevia sobre ela porque a achava fascinante, por tudo o que representava na cultura. Mesmo agora, escrever sobre ela é receber imensos comentários a perguntar: “Porque é que estás a escrever sobre esta mulher de mau gosto? Ela não faz nada, não contribui com nada, desvia a tua atenção dela”. Mas acho que a razão pela qual as pessoas reagem tão fortemente a mulheres como ela é porque não conseguem parar de olhar e ficam zangadas consigo mesmas por isso. É o mesmo com a Anna Nicole Smith, a Paris Hilton. As mulheres que recebem mais atenção, porque gostamos de olhar para elas, são aquelas que nos deixam frustrados connosco próprios e, por sua vez, descarregamos essa frustração nelas.

Olha para elas como vítimas da sociedade ou acha que elas simplesmente não assumem a responsabilidade pelo que representam?
Acho que a Kim é fascinante porque é intocável. Houve mulheres antes dela, como a Britney e a Lindsay Lohan, que não conseguiram lidar com o escrutínio e o ódio que receberam da imprensa. Isso destruiu-as de tantas maneiras diferentes. E depois surge alguém como a Kim, que já viu as condições da fama e não se importa. É um compromisso que ela está disposta a assumir, penso eu. Ela parece intocável, como se não sentisse qualquer tipo de crítica ou repulsa pública, ou como se tivesse essa espécie de indiferença que me parece interessante, porque ela é capaz de irritar as pessoas, lucrar com isso e não se importar. Para ela não importa, desde que as pessoas estejam a ver, desde que a atenção seja uma espécie de moeda por si só e desde que isso a esteja a tornar rica no processo.
Menciona no livro os filmes “American Pie” e recentemente escreveu sobre a série “Off Campus”. Há uma cena em “Off Campus”, que se tornou viral, em que dois homens falam sobre a importância do consentimento numa relação. Como olha para esta mudança nos filmes e séries, tendo em conta o que estes dois exemplos representam?
A mudança óbvia é que “Off Campus” é uma série de televisão escrita por uma mulher, baseada num livro escrito por uma mulher. É em parte a realização de um desejo e em parte uma projeção. O que gostarias de ver? Como gostarias que os homens fossem no mundo? A cena em que dizem: “ela não pode dar o seu consentimento se não se sentir segura”. Eu pensei: “O que é que se está a passar?”. É quase demasiado para imaginar, é como uma utopia feminina. Mas também acho que é muito poderoso porque cria espaço para as pessoas imaginarem que, na verdade, os homens poderiam ser assim se quisessem. E ajuda as mulheres a expressarem o que talvez queiram ver nas dinâmicas com os homens, nas dinâmicas de relacionamento, nas dinâmicas sexuais.
Acho que já se avançou muito. E acho que as pessoas que escreveram o “American Pie” estavam a tentar fazer o melhor que podiam. Só que a época era assim, era mesmo assim: o “American Pie” seguia o modelo dessas comédias sexuais mais antigas, que eram todas muito exploradoras e de mau gosto. E acho que eles acreditavam mesmo que estavam a fazer uma versão moderna, em que as mulheres tivessem voz, personalidades, tivessem cenas sem homens e pudessem falar sobre o desejo. Só que os clichés desse tipo de filmes são tão rígidos. É muito difícil trabalhar dentro desse género e criar algo que seja progressista. Já “Off Campus” enquadra-se no género da comédia romântica ou da ficção romântica, que sempre se orientou em torno dos desejos das mulheres, dos prazeres das mulheres e da autonomia das mulheres. Há muito mais espaço nesse género para pensar de forma progressista.
Que outros filmes ou séries acha que foram problemáticos naquela altura?
Todo o género do cinema popular dos anos 2000. Talvez existam três filmes em toda aquela década em que se possa dizer: “A personagem feminina está a sair-se muito bem, está a divertir-se imenso”. Os estúdios eram geridos por homens, e os homens não estavam interessados nas mulheres. Se não fossem obrigados a fazer filmes sobre mulheres, não fariam. E como o “American Pie” teve tanto sucesso, deu origem a uma espécie de corrida para criar imitações. Mas depois os filmes que se seguiram eram simplesmente repugnantes, gordofóbicos, misóginos. Foi uma década muito imatura no cinema. Um filme que destaco no livro é o “Date Movie”. É uma espécie de paródia das comédias românticas, com a Alyson Hannigan. É simplesmente um dos filmes mais repugnantes que já vi. Agora, se voltares atrás e o vires, pensas: “Como é que isto foi permitido?”.

E em relação à influência da moda naquela altura?
Uma das razões pelas quais quis dedicar um capítulo à moda no livro foi tentar compreender por que razão a moda era tão exploradora nos anos 90, porque razão se centrava nas mulheres, porque razão, de repente, as supermodelos do final dos anos 80 e início dos anos 90 foram afastadas e aparecem as adolescentes muito magras que parecem estar drogadas. Há uma citação do Calvin Klein que incluí no livro, sobre o quanto os anos 90, como década, foram tão marcados pelo capitalismo, comercialismo e sucesso americano. Os anos 90 giraram em torno da provocação, de levar as coisas ao limite, de ir o mais longe possível, de chamar à atenção sendo ousado e provocador. Isso começou na moda e depois espalhou-se para outros meios. Eu estava interessada em traçar a influência da pornografia, à medida que se tornava um passatempo cada vez mais popular, e como isso se espalhava para a moda. A moda sempre foi implacável na forma como usa as mulheres e as raparigas como isco. As modelos sempre foram exploradas por fotógrafos e agentes, não é uma indústria que tenha cuidado das mulheres que utiliza, não se preocupa com elas.
Até mesmo as marcas que supostamente fizeram um rebranding e se tornaram mais inclusivas, agora estão a voltar a um padrão de magreza extremo.
Isso só nos permite perceber que as pessoas fingiram durante algum tempo, como se quisessem mudar, mas, na verdade, não queriam. Estavam muito satisfeitas com o status quo e, se conseguirem voltar a ele sem consequências, fá-lo-ão.
Como é que se distingue o verdadeiro empoderamento das mulheres desta versão comercializada?
Fico sempre frustrada com esta palavra porque sempre que a encontrei na minha investigação estava a ser usada para defender algo que não tinha nada a ver com dar poder às mulheres. Era sempre uma questão de nos vender um produto com a ideia de que esse produto nos poderia fazer sentir poderosas. Li recentemente uma entrevista com a CEO do OnlyFans em que dizia que a plataforma era empoderadora para as mulheres e acho que isso pode ser questionado de tantas maneiras diferentes.
A palavra tende a ser adotada como um chavão por pessoas que estão a tentar ganhar dinheiro, fazendo com que as mulheres, na verdade, não se sintam poderosas. Se precisas de comprar algo para te sentires poderosa, tu própria não és suficiente.
A cultura da influência digital agravou o problema ou criou novas oportunidades para as mulheres controlarem a sua própria narrativa?
Ambas aconteceram. Há tantos aspetos das redes sociais que constituem uma força positiva. Existem perspetivas e vozes muito mais diversificadas e as mulheres têm a possibilidade de dizer a verdade sobre as suas vidas e experiências, contribuindo para criar um ambiente social mais vibrante e mais rico, onde todos possamos aprender uns com os outros. Ao mesmo tempo, aquelas que parecem estar a ganhar mais poder e influência são as que o fazem, normalmente, recorrendo a esses modelos de beleza muito antiquados. Estas pessoas não são celebridades no sentido em que tradicionalmente entendemos a celebridade. Não são atores, cantores, estrelas do desporto ou artistas. Parecem-se muito mais com os nossos amigos, temos com eles relações mais íntimas. É mais provável que confiemos neles e, por sua vez, é mais provável que nos deixemos influenciar por eles.
Falando do feminismo em particular, o que é que lhe dá esperança em relação ao futuro?
As jovens são muito mais inteligentes e têm um nível de instrução muito superior. Têm um vocabulário mais rico e uma terminologia própria. Por exemplo, nós nem sequer tínhamos a palavra “consentimento”.
A capa do álbum da Sabrina Carpenter que saiu no ano passado, eu estava a fazer eventos do lançamento do livro e era só disso que as pessoas queriam falar, porque é uma imagem que parecia muito antiquada no que diz respeito ao sexismo: esta mulher de joelhos a ser arrastada pelos cabelos por um homem que não se consegue ver. Ela é o centro das atenções, mas é também o objeto, certo? E a forma como as mulheres falavam sobre essa imagem… na década de 2000, teria sido um pânico moral, toda a gente teria dito: “A Sabrina Carpenter está a prejudicar a nossa juventude”. Já no ano passado, as mulheres diziam: “A Sabrina Carpenter tem todo o direito de se apresentar da forma que quiser, de uma forma sexualizada se assim o desejar, é um direito dela. Ao mesmo tempo, as dinâmicas de poder envolvidas nisto deixam-me desconfortável”. As pessoas estavam a falar da autonomia que ela tem como artista, mas também do impacto e da responsabilidade que as mulheres têm para com outras mulheres . Achei que o nível do discurso foi realmente sofisticado, rico e ponderado. E isso fez-me pensar que, mesmo que neste momento não tenhamos formas de nos organizarmos como feministas, temos a capacidade de explicar porque é que as coisas nos incomodam e de reagir.
Quais são os artistas, escritores, criadores e tendências atuais que estão a construir modelos culturais mais saudáveis para as mulheres?
Volto sempre ao exemplo da música porque é a única área cultural em que as mulheres são dominantes. Mulheres como a Taylor Swift, Beyoncé, Sabrina, Chappell Roan e Olivia Rodrigo. Se olharmos para a década de 2000, a Jessica Simpson, nas suas memórias, fala desses homens de fato que simplesmente lhe diziam o que fazer. Olhamos agora para alguém como a Chappell Roan, que está a fazer música, e parece que é tudo sobre sexo e desejo, mas trata-se dos desejos dela e da sua autonomia. Não tem nada a ver com homens, ela não está a ceder a expetativas alheias. Trata-se apenas da sua auto apresentação. Como a Billie Eilish na música que faz e na forma como se veste. Há tantas mulheres a assumirem posições por si próprias em público, como a Megan Thee Stallion, que falou sobre as críticas agressivas que recebeu quando foi alvejada pelo seu ex-parceiro. São vários os exemplos positivos. E isso era muito do que nos faltava nos anos 2000, tínhamos muitos exemplos do que não fazer e de como não ser, enquanto agora há mais na direção oposta.

Quando publicou o livro, foi recebido da forma que esperava?
Inicialmente as críticas foram muito boas, tive muita sorte. E depois surgiram algumas críticas um pouco mais céticas que, na minha opinião, foram interessantes. Por exemplo, houve um artigo no New York Times que dizia que eu não era suficientemente crítica em relação à pornografia e houve um artigo na New Yorker que dizia que eu era demasiado crítica em relação à pornografia.
Não considero que a pornografia, por natureza, seja má. As pessoas sempre quiseram ver imagens sexualizadas e sempre o farão, não há nada de errado nisso. A questão é que o tipo de imagens que têm sido apresentadas como pornografia nas últimas três décadas têm sido degradantes e violentas para com as mulheres. Não dá para essa ser a forma como a maioria das pessoas descobre o sexo sem que isso tenha um impacto na forma como pensamos sobre género e dinâmicas de poder. É isso que mais me preocupa. Há uma investigadora no Reino Unido chamada Claire McGlynn, ela usou um termo para isso: pornografia patriarcal. Esse é o principal tipo de pornografia a que a maioria das pessoas está exposta. E acho que, de certa forma, ser criticada por ambos os lados fez-me sentir melhor em relação à minha própria posição e à forma como tento ser pragmática, mas também crítica quando é necessário.
Se os leitores retirarem apenas uma ideia do seu livro, qual gostaria que fosse?
Não sei se alguma vez digo isto no meu livro, mas aquilo a que volto sempre é o facto de a nossa cultura nos estar constantemente a dizer que o nosso valor como mulheres se baseia na nossa aparência. Isso simplesmente não é verdade. Há muito mais nas mulheres do que a nossa aparência. E, no entanto, a nossa cultura insiste constantemente que essa é a moeda de troca que oferecemos ao mundo. Como se fossem condições que temos de cumprir e que são impossíveis.





