Louis Vuitton e Singer juntaram dois universos associados ao luxo, ao design e à obsessão pelo detalhe para criar dois Porsche 911 muito diferentes dos originais. Apresentados durante a Monterey Car Week, na Califórnia, os automóveis resultam de uma colaboração inédita entre a maison francesa e o atelier californiano conhecido pelas suas reinterpretações altamente personalizadas do Porsche 911 clássico.

O projeto nasceu de uma ideia aparentemente mais simples: criar um relógio para o tablier de um automóvel reimaginado pela Singer. Rapidamente, porém, a colaboração ganhou outra dimensão: “Esta aventura única e extraordinária começou com um pedido para um relógio de tablier para um automóvel reimaginado pela Singer”, explica Jean Arnault, diretor de Relojoaria da Louis Vuitton. “Além do design e produção deste relógio pelas oficinas da La Fabrique du Temps Louis Vuitton, na Suíça, rapidamente percebemos que esta colaboração com a Singer poderia estender-se à personalização de cada elemento funcional do veículo.”
O resultado são dois automóveis que combinam a engenharia e o trabalho artesanal da Singer com materiais, códigos estéticos e técnicas habitualmente associados à Louis Vuitton.

Um relógio que deu origem a um automóvel inteiro
No centro do primeiro projeto está um relógio mecânico amovível, inspirado no Tambour, o relógio emblemático da Louis Vuitton. O instrumento pode ser retirado do automóvel e utilizado como relógio de secretária. O seu desenho reproduz a forma característica do Tambour e o aro com as 12 letras polidas e gravadas que formam o nome Louis Vuitton.

Mas o relógio acabou por exigir uma reformulação muito mais ampla do habitáculo. O painel de instrumentos foi redesenhado para que o velocímetro, conta-rotações e restantes indicadores adotassem os códigos gráficos da coleção Tambour. Os ponteiros, terminações dos mostradores e sistemas de índices foram reinterpretados, enquanto os mostradores assumem uma tonalidade azul-cobalto com inscrições em laranja vivo. O trabalho demorou cerca de um ano.
“Os projetos desta dimensão e exclusividade permitem um nível de atenção ao detalhe pouco habitual no mundo automóvel”, explica Octave Chany, Project Lead Designer da Singer. “Cada transição entre materiais, cada reflexo metálico, cada superfície estriada, cada interação mecânica e cada elemento gráfico foi cuidadosamente considerado, muitas vezes a uma escala quase microscópica.”
O Porsche 911 para grandes viagens
O primeiro automóvel é um Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic, baseado num chassis de 964 e com uma carroçaria leve em fibra de carbono.

A combinação cromática é imediatamente reconhecível: açafrão, azul-cobalto e amarelo. O tom açafrão tem uma relação histórica com a Louis Vuitton, estando presente nos arquivos da marca há mais de 150 anos e sendo utilizado nas suas embalagens há mais de duas décadas.
A combinação com o azul-cobalto remete para elementos dos históricos baús de viagem da maison. O amarelo aparece também nas costuras, reproduzindo a técnica utilizada em artigos de marroquinaria e bagagem.

A inspiração no universo das viagens não fica pela estética. O automóvel recebe um tejadilho especialmente concebido para transportar uma mala, uma prancha de surf ou um par de skis.

Mecânica e tecnicamente, trata-se de um automóvel concebido para manter uma ligação direta à condução. O motor é um seis cilindros boxer atmosférico de 4,0 litros, refrigerado a ar, com até 390 cv, associado a uma caixa manual de seis velocidades e tração traseira.
A carroçaria em fibra de carbono inclui um spoiler traseiro de acionamento dependente da velocidade, enquanto a travagem recorre a discos e pinças em cerâmica de carbono. As jantes de estilo Fuchs de 17 polegadas são acompanhadas por pneus Michelin Pilot Sport 4S.

No habitáculo, praticamente tudo foi repensado. A pele utilizada tem uma tonalidade natural inspirada na pele VVT, um dos materiais mais emblemáticos da Louis Vuitton. As costuras são amarelas e os bancos e revestimentos reproduzem o padrão “malletage”, inspirado no interior dos baús da marca.


Até os componentes habitualmente fabricados em plástico foram substituídos por elementos metálicos. Botões, comandos, fechaduras, puxadores e saídas de ar são produzidos predominantemente em metal revestido a ródio e acabados à mão.

As superfícies recorrem a técnicas de polimento e acabamento acetinado próximas das utilizadas na relojoaria.
Uma mala para cada espaço do Porsche
A filosofia da Louis Vuitton não se limitou ao automóvel. A marca criou uma coleção específica de roupa, bagagem e acessórios para acompanhar o coupé.
Entre as peças está um casaco de condução em pele, calças de ganga de algodão e seda, luvas de condução, um capacete em carbono e fibra de vidro e diferentes opções de calçado.

A bagagem foi igualmente concebida à medida do automóvel. Um porta-capacetes inspirado nos modelos dos anos 1950, um Bisten, um Keepall e duas malas para a bagageira dianteira foram desenhados para aproveitar os espaços específicos do Porsche.

A relação da Louis Vuitton com este tipo de equipamento é, aliás, muito anterior a esta colaboração. No final do século XIX, a maison já produzia baús especificamente concebidos para automóveis. Em 1897, Georges Vuitton criou modelos que podiam ser fixados na traseira ou no tejadilho dos veículos. Eram planos para facilitar o empilhamento e utilizavam materiais resistentes à água, seguindo as formas das carroçarias.
A colaboração com a Singer recupera essa tradição, mas aplica-a a um automóvel concebido no século XXI.
O cabriolet de Nicolas Ghesquière
O segundo automóvel segue uma direção completamente diferente. Trata-se de um Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic Turbo, baseado num chassis 964 cabriolet e concebido sob a direção criativa de Nicolas Ghesquière, diretor artístico das coleções femininas da Louis Vuitton. Aqui, a inspiração parte do encontro entre o automóvel e o universo náutico.

A carroçaria é branca, num tom inspirado no Calcaire Lutétien, a pedra calcária que marca a arquitetura parisiense e a paisagem junto à sede histórica da Louis Vuitton, no Pont Neuf. Detalhes dourados, pele em tons naturais e superfícies em madeira completam a combinação.
A escolha de um cabriolet visou criar um automóvel aberto à paisagem, à natureza e à experiência de condução, combinando a liberdade associada à cultura californiana com a filosofia de viagem da Louis Vuitton.
A mecânica assenta num seis cilindros boxer de 3,8 litros, biturbo, com intercooler água-ar, caixa manual de seis velocidades, modos de condução selecionáveis, tração traseira e travões em cerâmica de carbono. Na traseira, o grande spoiler tem uma superfície inspirada nos decks de madeira dos barcos. Até os para-choques são feitos de madeira, constituindo um dos desafios técnicos do projeto.
O luxo também está nos objetos
Também neste cabriolet a Louis Vuitton desenvolveu um conjunto de acessórios específico. O relógio de tablier inspirado no Tambour ocupa o centro da consola, enquanto o mesmo universo relojoeiro chega ao pulso através de um Tambour Automatic de 40 milímetros, em cerâmica e ouro amarelo.
Um conjunto de baús Coffret Tresor foi concebido para transportar o relógio de pulso e o relógio do automóvel.

A coleção inclui ainda um fato à medida em seda parachute, luvas de condução em pele entrançada, sapatilhas LV Sneakerina, óculos de sol e um capacete em carbono, fibra de vidro e pele.
Também a bagagem foi desenhada especificamente para o carro, incluindo versões da Alma, Express, Noé, Cruiser e Petite Malle. A mala dianteira recebe um sistema de três caixas que se encaixam entre si, enquanto o Keepall 45 ganha uma cobertura amovível.

Duas marcas, uma obsessão pelo detalhe
Para a Singer, fundada na Califórnia em 2009, a colaboração representa uma extensão natural da sua filosofia de reinterpretação dos Porsche 911 clássicos. A empresa trabalha a partir de modelos 911 Type 964, desmontando-os integralmente para reconstruir e personalizar cada automóvel. O processo envolve reforço do chassis, nova carroçaria em fibra de carbono, revisão da mecânica e desenvolvimento de interiores à medida.
A Singer tem atualmente instalações na Califórnia e em Inglaterra, sendo o coupé desenvolvido nos Estados Unidos e o cabriolet nas instalações britânicas.
Para a Louis Vuitton, a colaboração representa a primeira vez que a maison cria um produto co-branded desta natureza. Mais do que aplicar o logótipo a um automóvel, as duas empresas procuraram integrar os respetivos conhecimentos: engenharia e restauro automóvel de um lado; relojoaria, marroquinaria, baús, moda e design do outro.

“A colaboração entre a Louis Vuitton e a Singer, singular e sem precedentes, transcende uma simples parceria”, afirma Jean Arnault. “Representa um encontro de dois mundos de excelência, em que a profundidade da troca moldou profundamente as identidades distintas de cada uma das casas.”

O resultado são dois Porsche 911 que preservam a arquitetura e o carácter dos modelos clássicos, mas levam a personalização para um nível em que praticamente nenhum elemento permanece indiferente. Preço? Não foi adiantado, mas seguramente o valor de cada exemplar poderá rondar os 500 mil euros.




