Opinião

A IA pode recomendar um carro. Mas não o compra por si

Pedro Soares

Comprar um automóvel nunca foi uma decisão simples. Hoje temos mais informação e uma oferta mais vasta. Escolher parece, ainda assim, ter-se tornado mais difícil. Não porque faltem opções, mas porque aumentaram as dúvidas e o receio de tomar uma decisão errada.

Um estudo recente sobre hábitos de mobilidade mostra que quase sete em cada dez portugueses admitem recorrer à Inteligência Artificial (IA) para apoiar a compra do próximo carro. O dado revela abertura à tecnologia, mas não significa que o consumidor queira entregar-lhe a decisão. A IA pode organizar anúncios e esclarecer diferenças entre motorizações mas, no final, comprar um carro continua a ser um ato humano.

É aqui que surge uma das conclusões mais interessantes: não existe um único comprador de automóveis. As gerações adaptam-se à mudança a ritmos diferentes, embora partilhem preocupações semelhantes.

O preço continua a ser o fator mais importante em todas as idades. Entre os mais jovens, o peso financeiro é ainda mais evidente: 95% apontam o preço como decisivo e 63% referem os custos de utilização como motivo para adiar a compra. Esta geração pode estar habituada a resolver quase tudo através de um ecrã, mas isso não a torna menos prudente. Pelo contrário, parece avaliar com especial cuidado o impacto do automóvel no orçamento.

Também não é correto imaginar que os jovens querem comprar tudo online e que as gerações mais experientes recusam o digital. O stand físico continua a ser o canal preferido nos três grupos. O que muda é a forma como cada geração combina essa experiência com outros canais. Os mais jovens demonstram maior abertura aos stands online. Entre os 28 e os 43 anos, os marketplaces ganham peso. Nos mais experientes, cresce a preferência pelo contacto direto com o vendedor.

O futuro da compra automóvel não será, por isso, exclusivamente digital. A tecnologia vai tornar a pesquisa mais rápida, mas a visita ao stand e o contacto com o carro continuarão a ter valor. O consumidor não quer escolher entre o digital e o presencial. Quer poder usar ambos quando lhe for conveniente.

A mobilidade elétrica confirma esta prudência. Cerca de metade dos inquiridos afirma estar disponível para comprar um veículo elétrico e quase quatro em cada dez não excluem essa possibilidade. Entre os interessados, porém, a maioria admite que a compra não acontecerá a curto prazo. O principal obstáculo continua a ser o preço. A autonomia surge depois, juntamente com a rede de carregamento.

Não estamos perante resistência à mudança. Estamos perante consumidores que esperam que a inovação resolva problemas reais. Um automóvel elétrico não será escolhido apenas por ser mais avançado. Terá de fazer sentido no orçamento e na utilização diária.

Talvez o resultado mais surpreendente seja outro. Apesar das previsões sobre o fim da propriedade automóvel, 83% dos participantes acreditam que o carro próprio continuará a ser o seu principal meio de mobilidade no futuro. Entre os 18 e os 27 anos, essa percentagem aproxima-se dos 90%. A amostra jovem é reduzida, mas o sinal é relevante: as novas gerações podem querer um automóvel diferente, sem deixarem de querer um automóvel.

O setor enfrenta um desafio maior do que digitalizar a compra ou introduzir novas motorizações. Tem de perceber que a inovação não é adotada apenas porque está disponível. É adotada quando reduz a incerteza e se adapta à vida das pessoas.

O futuro da compra automóvel não será decidido por uma geração que abandona o passado e outra que resiste ao futuro. Será construído por consumidores que misturam novos hábitos com necessidades que permanecem. A tecnologia terá um papel cada vez maior, mas a confiança continuará a determinar o momento em que cada pessoa decide avançar.

Pedro Soares,
Head of Sales do Standvirtual

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