Ao preparar-se para participar no Dwarkesh Podcast, um dos programas de referência entre a comunidade da inteligência artificial, o defensor do bem-estar animal Lewis Bollard foi surpreendido pelo anfitrião, Dwarkesh Patel, com uma proposta inesperada: comprometeu-se a igualar, até um máximo de 250 mil dólares (220 mil euros), todas as doações dos ouvintes à FarmKind, organização dedicada ao combate à pecuária intensiva.
Para a maioria dos apresentadores de podcasts, 250 mil dólares representam o orçamento de uma temporada inteira. Para Patel, tratava-se antes de um teste à generosidade de uma audiência que, entretanto, se tornou muito mais rica.
Bollard, habituado a considerar a defesa dos animais de criação como uma causa de nicho, teve duas reações imediatas. A primeira foi de espanto perante a dimensão da oferta. A segunda, de receio de que a iniciativa fracassasse. Discretamente, contactou alguns dos seus doadores habituais para garantir contribuições de reserva, caso a campanha não ganhasse tração.

Patel, porém, nunca duvidou. Apresentou o apelo numa linguagem particularmente apelativa para investigadores de IA: custo, escala e sofrimento quantificável. Segundo explicou, uma doação de apenas um dólar poderia retirar dez galinhas de sistemas de criação em gaiolas, o equivalente a evitar cerca de dez anos de sofrimento. Depois lançou o desafio aos ouvintes para esgotarem o compromisso de 250 mil dólares. Mais tarde reforçou a mensagem nas redes sociais: “Falando sem rodeios, há ouvintes que podem doar muito mais. Dado o pouco financiamento desta causa, uma única pessoa poderia mudar, sozinha, a vida de dezenas de milhares de milhões de animais.”
O apelo teve um efeito imediato. O limite de 250 mil dólares foi atingido em menos de dois dias. À medida que as doações continuavam a chegar, Bollard e Patel procuraram outros grandes doadores dispostos a prolongar o mecanismo de igualação das contribuições. No final, a campanha arrecadou quase 2,5 milhões de dólares.
Bollard estima que entre 80% e 90% dos doadores nunca tinham apoiado qualquer iniciativa contra a pecuária intensiva. A maioria eram funcionários de empresas de inteligência artificial.
“Vais criar uma startup de SaaS B2B ou vais tentar contribuir para que o futuro corra bem?” — Saheb Gulati, consultor especializado em estratégias de filantropia para novos milionários da IA.
Para Bollard, responsável pela campanha contra a pecuária intensiva no fundo filantrópico Coefficient Giving, estes 2,5 milhões de dólares representaram muito mais do que uma semana excecional. Foram um sinal claro de mercado, revelando um enorme fluxo de capital ainda por explorar que está a emergir do boom da inteligência artificial.
“Vai criar uma startup SaaS ou tentar ajudar o futuro a correr bem?”
O crescimento da IA está a dar origem a uma nova geração de filantropos: jovens, analíticos, recentemente enriquecidos e determinados a apoiar causas que consideram verdadeiramente eficazes.
Para defensores como Bollard, trata-se de uma oportunidade rara para canalizar o dinheiro de Silicon Valley para áreas que a filantropia tradicional ignorou durante décadas, começando pelos milhares de milhões de animais criados em explorações industriais.
Depois do podcast, Bollard e Patel começaram a organizar jantares informais em grandes laboratórios de IA, como a OpenAI, para discutir o tratamento dos animais nas explorações industriais. A estratégia resultou. Segundo Bollard, só este ano as iniciativas contra a pecuária intensiva já receberam cerca de 40 milhões de dólares provenientes de doadores ligados à IA.
“Entre os jovens da comunidade da IA existe muito mais disponibilidade para dizer simplesmente: ‘Sim, passo já um cheque de um milhão de dólares'”, afirma.
Este momento torna-se particularmente relevante porque, segundo Jamie Hackleman, responsável pelo centro de filantropia da área de banca privada da J.P. Morgan, poderão ser canalizados até 300 mil milhões de dólares (257 mil milhões de euros) para causas filantrópicas nos próximos anos, a um ritmo próximo dos 30 mil milhões de dólares anuais (26 mil milhões de euros).
O maior potencial doador é a fundação da OpenAI, que detém uma participação de 26% na empresa, atualmente avaliada em cerca de 220 mil milhões de dólares (189 mil milhões de euros). Também a Anthropic poderá desempenhar um papel determinante: os seus sete fundadores, cada um com uma fortuna estimada em cerca de 15,5 mil milhões de dólares (13 mil milhões de euros), afirmaram que pretendem doar 80% da sua riqueza.
Se estas intenções se concretizarem, a filantropia impulsionada pela IA poderá ultrapassar fundações históricas, como a Ford Foundation, que gere cerca de 16 mil milhões de dólares (14 mil milhões de euros) em ativos. Com 30 mil milhões de dólares (26 mil milhões de euros) distribuídos anualmente, os donativos associados à IA representariam cerca de 5% dos aproximadamente 600 mil milhões de dólares (514 mil milhões de euros) doados todos os anos nos Estados Unidos, segundo os dados mais recentes do relatório Giving USA.
“O que vai fazer nos últimos anos da sua vida?”
Os protagonistas deste novo movimento filantrópico descrevem-no como uma corrida entre a criação de riqueza e a velocidade da transformação tecnológica. Muitos investigadores de IA acreditam que a inteligência artificial geral (AGI) — o momento hipotético em que a IA será capaz de automatizar grande parte do trabalho humano – poderá surgir dentro de poucos anos. Por isso, procuram agir rapidamente para garantir que esse futuro seja marcado pela abundância.
Uma forma de o fazer passa por acelerar os ritmos tradicionais da filantropia e emitir grandes donativos sem demora.
Nick Fitz, um dos primeiros investidores da Anthropic, afirma que alguns jovens engenheiros de IA estão tão convencidos de que a economia mundial será profundamente transformada que nem sequer investem em planos de reforma. Na sua perspetiva, esses mecanismos poderão perder relevância se os sistemas automatizados alterarem completamente a ordem económica.
Saheb Gulati, consultor especializado em estratégias de filantropia para novos milionários da IA, resume o dilema de forma direta: “Vai criar uma startup B2B de software ou vai tentar ajudar o futuro a correr bem?”
Na Founders Pledge, organização que incentiva fundadores de startups e primeiros colaboradores a comprometer parte da sua riqueza futura para fins filantrópicos, o valor total prometido aumentou de pouco mais de 400 milhões de dólares (343 milhões de euros) em 2023 para 600 milhões de dólares (514 milhões de euros) em 2024, atingiu 1,2 mil milhões de dólares (1,03 mil milhões de euros) no ano passado e já ultrapassa os 4 mil milhões de dólares (3,43 mil milhões de euros) apenas no primeiro semestre deste ano, segundo dados partilhados com a Forbes.
Os fundadores de empresas de IA representam atualmente mais de um terço de todo o valor comprometido, tornando-se o maior grupo de doadores da organização.
As ligações ao altruísmo eficaz
Na linha da frente desta nova vaga filantrópica estão os colaboradores da Anthropic, empresa cuja origem está profundamente ligada à filosofia do altruísmo eficaz (effective altruism).
Fundada em 2021 por investigadores que abandonaram a OpenAI devido a preocupações relacionadas com a segurança da IA, a Anthropic desenvolveu desde cedo uma cultura fortemente influenciada por este movimento, que procura maximizar o impacto de cada euro ou dólar doado através da análise de evidências.
Essa filosofia refletiu-se também nas primeiras políticas da empresa. As ofertas de emprego incluíam um incentivo pouco comum: por cada dólar doado pelos colaboradores, a empresa contribuía com mais três.
Mas porque razão as galinhas? Ou, de forma mais abrangente, porque os animais de criação e não as pessoas?
Embora as causas humanas continuem a receber a esmagadora maioria dos donativos mundiais, o bem-estar animal tornou-se particularmente popular entre profissionais da IA devido à lógica de maximização de impacto promovida pelo altruísmo eficaz. Se um dólar pode evitar cerca de dez anos de sofrimento a uma galinha, o retorno social é considerado extraordinariamente elevado.
Existem, contudo, outras prioridades. A biosegurança, a não proliferação nuclear, a investigação médica, os impactos da automação no emprego e a segurança da própria IA também figuram entre as áreas mais apoiadas, segundo Jamie Hackleman. “As conversas acabam sempre por regressar ao impacto baseado em evidências e à vontade de investir onde os riscos são maiores, onde acreditam que conseguem obter o maior retorno em termos de impacto e onde os resultados podem ser medidos com clareza”, explica.
Nem todos partilham, porém, esta visão. Na própria região de Silicon Valley, alguns defensores de causas sociais alertam que esta abordagem excessivamente orientada por métricas pode ignorar os efeitos concretos do boom tecnológico sobre as comunidades locais.
“Se estas pessoas não estiverem ligadas às comunidades onde passaram a viver, podem simplesmente não perceber os prejuízos que o crescimento da IA está a provocar entre os habitantes mais vulneráveis de São Francisco”, afirma Christin Evans, ativista na área da luta contra o sem-abrigo.
Uma nova geração de alocadores de capital
No centro desta explosão de riqueza, Nick Fitz e o seu parceiro de negócios, Griff Bohm, tornaram-se uma espécie de conselheiros informais para muitos dos novos milionários da IA. “Existe uma ansiedade muito humana e muito pessoal sobre o que significa tornar-se, praticamente de um dia para o outro, multimilionário”, afirma Bohm. “Estas pessoas são cientistas informáticos extraordinariamente talentosos, mas isso não significa que dominem temas como finanças ou filantropia.”
Bohm e Fitz, ambos signatários da Founders Pledge e comprometidos em doar 25% da sua riqueza, estão a trabalhar com colaboradores das primeiras equipas das grandes empresas de IA para criar um novo modelo de investimento social, a que chamam public venture.
O objetivo é construir uma incubadora semelhante à Y Combinator, mas dedicada a organizações sem fins lucrativos altamente capitalizadas, geridas com remunerações competitivas, métricas rigorosas e capacidade para operar em grande escala.
Juntamente com Matt Lerner, diretor de investigação da Founders Pledge, acreditam que esta geração poderá redefinir profundamente as regras da filantropia moderna. A equipa de investigação de Lerner, composta por 16 pessoas, estuda atualmente a melhor forma de o setor filantrópico absorver um aumento súbito de financiamento dez vezes superior ao atual. Este é o cenário mais otimista. O mais pessimista é bem mais tradicional: muitas pessoas afirmam que vão doar a maior parte da sua fortuna, mas acabam por comprar casas de luxo.
Um especialista que trabalha com indivíduos recentemente enriquecidos afirma que, até ao momento, o padrão observado continua a ser bastante convencional: aquisição de imóveis muito caros, pagos a pronto, em vez de grandes donativos. “Estamos apenas na fase inicial deste processo”, afirma Stephen Goldbart, cofundador do instituto Money, Meaning and Choices, na Califórnia. “A história está apenas a começar. Ainda há muito por contar.”
Para as organizações sem fins lucrativos, isso significa que a oportunidade é real, mas está longe de ser garantida. O boom da inteligência artificial poderá criar uma das maiores bolsas de riqueza filantrópica da história moderna. Transformar essa riqueza potencial em impacto concreto continua, porém, longe de estar assegurado.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





