Opinião

Resiliência: a lição que não podemos esquecer

Fernando Chaves

Uma nova pandemia não é, certamente, a notícia de abertura de amanhã. Mas deixou de ser um cenário impensável ou reservado a um futuro distante.

O mundo aprendeu lições demasiado duras com a COVID-19. Aprendeu quão rapidamente uma emergência de saúde pode transformar-se num choque económico, numa crise social e num teste à confiança nas instituições, ou na perda de um familiar ou de um amigo às mãos de um inimigo invisível.

Aprendeu também que os vírus não afetam apenas os hospitais. Afetam escolas, cadeias de abastecimento, transportes, pequenos negócios, serviços públicos e famílias. Comprometem o acesso a medicamentos, o abastecimento dos supermercados, a capacidade dos pais para trabalhar, os cuidados prestados aos mais vulneráveis e até a forma como nos despedimos de quem parte. Uma nova pandemia não esperará que outras crises estejam resolvidas.

Para Portugal, a questão não é viver com medo. É perceber se aprendemos verdadeiramente com a COVID-19 e se essas lições nos permitirão responder com inteligência, serenidade e organização quando surgir uma nova pandemia.

Uma nova pandemia não seria apenas uma crise de saúde

Quando se fala em pandemia, pensa-se imediatamente em confinamentos, picos de transmissão, máscaras ou unidades de cuidados intensivos. Tudo isso é importante. Mas a COVID-19 demonstrou que o verdadeiro impacto vai muito além da saúde.

Se uma nova pandemia surgisse, Portugal voltaria a enfrentar pressão simultânea sobre várias dimensões essenciais da vida coletiva. A economia seria uma das primeiras vítimas. Confinamentos ou restrições voltariam a provocar uma quebra abrupta da atividade económica. Apesar da experiência adquirida com o trabalho remoto, a procura, a oferta e as cadeias de abastecimento voltariam a sofrer fortes perturbações. A grande questão seria saber se as organizações conseguiriam suportar mais um choque sistémico, após anos marcados por crises geopolíticas, inflação e fenómenos climáticos extremos.

Em paralelo, hospitais, centros de saúde, laboratórios, serviços de emergência e farmácias enfrentariam uma procura excecional. O desafio não seria apenas tratar uma nova doença infecciosa, mas manter os cuidados oncológicos, cardiovasculares, maternos, de saúde mental e das doenças crónicas. A COVID-19 mostrou que, quando o sistema de saúde entra em saturação, os efeitos prolongam-se muito para além da emergência inicial, através de diagnósticos adiados, tratamentos interrompidos e do agravamento de patologias já existentes.

Também a educação sofreria um novo impacto profundo. Uma pandemia nos próximos cinco a dez anos agravaria as desigualdades no acesso à aprendizagem e às ferramentas digitais, aprofundando as diferenças entre regiões e grupos sociais. Este problema não se resolve apenas com investimento em inteligência artificial. Num contexto em que as empresas continuam a identificar a escassez de talento como um dos seus maiores desafios, novos impactos prolongados no ensino agravariam ainda mais essa realidade.

O impacto social seria igualmente profundo. Portugal continua a ser um país onde as redes familiares desempenham um papel central. Isso é uma força, mas significa também que a pressão se espalha facilmente entre gerações quando um membro da família adoece, perde rendimento ou deixa de conseguir aceder a cuidados.

O Global Risks Report alerta precisamente para um cenário de crescente fragmentação internacional. Num mundo menos cooperante, será mais difícil coordenar respostas, mobilizar recursos e partilhar soluções, aumentando o risco de atrasos, falhas de contenção e impactos humanos, sociais e económicos muito mais graves.

Que tipo de pandemia poderá surgir?

A informação disponível junto de organizações internacionais demonstra que o risco permanece ativo. A primeira edição do Health Security Risk Assessment, publicada pela UK Health Security Agency, apresenta uma análise detalhada dos principais riscos para a segurança da saúde que o Reino Unido poderá enfrentar nos próximos cinco anos, com especial destaque para os riscos pandémicos respiratórios, que ocupam as cinco primeiras posições.

Entre os agentes atualmente mais acompanhados encontram-se a gripe aviária H5N1, o SARS-CoV-2 e outros coronavírus emergentes, o MERS-CoV, o Mpox e o vírus Nipah. A médio prazo, as doenças transmitidas por vetores poderão também ganhar relevância em regiões como o Mediterrâneo.

Nada disto significa que a próxima pandemia resulte necessariamente de um destes agentes. As alterações climáticas, a desflorestação ou o degelo poderão favorecer o aparecimento de novos riscos ainda pouco conhecidos. O essencial é não assumir que a COVID-19 foi uma exceção irrepetível nem acreditar que os planos preparados para a pandemia anterior responderão automaticamente aos desafios da próxima. A maior lição continua a ser simples: a preparação faz toda a diferença antes de a emergência começar.

O que devem fazer as organizações portuguesas?

As organizações devem começar por identificar os serviços que terão obrigatoriamente de funcionar durante vários meses de perturbação. Precisam igualmente de mapear dependências críticas, muitas vezes invisíveis – fornecedores tecnológicos, operadores logísticos, telecomunicações, prestadores especializados ou cadeias internacionais de abastecimento – que podem comprometer a continuidade do negócio.

É igualmente essencial reforçar a resiliência das equipas através de formação cruzada, planos de substituição para funções críticas, preparação para trabalho remoto, protocolos claros de recursos humanos e apoio ao bem-estar. A resiliência digital e cibernética também deve integrar este planeamento, porque uma futura pandemia poderá coincidir com ciberataques, fraude ou interrupções tecnológicas.

Ao nível do país, importa continuar a investir na vigilância em saúde pública, na capacidade laboratorial, na coordenação entre autoridades, proteção civil, municípios e operadores de infraestruturas críticas. É igualmente fundamental reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento, acelerar a transformação digital da saúde, da educação e da administração pública, proteger os grupos mais vulneráveis e realizar exercícios regulares de preparação para cenários pandémicos.

Portugal beneficia da integração europeia, que facilita a coordenação regulatória, a aquisição conjunta de recursos e a cooperação sanitária. Mas isso não pode servir de desculpa para uma menor exigência nacional. A prontidão continuará a depender da capacidade de executar, comunicar e testar continuamente os planos existentes. Um plano de continuidade só demonstra o seu valor quando é posto à prova perante faltas de pessoal, falhas de fornecedores, restrições públicas e períodos prolongados de pressão.

A verdadeira pergunta

A verdadeira pergunta não é se Portugal conseguiria sobreviver a outra pandemia. Conseguiria.

A questão é outra: numa próxima crise, voltaremos a improvisar sob pressão ou seremos capazes de agir cedo, aplicando as lições que já pagámos caro para aprender?

A resiliência não é uma ideia abstrata e, infelizmente, tem sido usada em excesso e em contextos errados. Aplicada de forma prática a uma eventual nova pandemia, é a capacidade de uma enfermeira continuar a trabalhar em segurança. É a capacidade de um pai ou de uma mãe continuar a garantir o rendimento da família. É a capacidade de um pequeno negócio se manter aberto. É a capacidade de tratar os doentes urgentes sem abandonar todos os outros. É a capacidade de uma escola continuar a ensinar. É a capacidade de um porto continuar a fazer circular mercadorias. É a capacidade de um país permanecer informado e funcional sob tensão.

Fernando Chaves,
Head of Risk Consulting da Marsh Risk Portugal

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