Opinião

A ilusão do dinheiro fácil: O impacto das redes sociais na sustentabilidade familiar

João Pereira

Portugal vive um paradoxo no que toca ao dinheiro. Somos capazes de gerir as nossas finanças através do ecrã de um telemóvel, mas este acesso facilitado não se traduz em conhecimento real.

O último Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa revela que uma esmagadora maioria dos jovens portugueses, em particular, sobreavalia os seus conhecimentos básicos de economia. O excesso de confiança camufla uma iliteracia profunda que, em última análise, pode colocar em risco a sustentabilidade das futuras famílias portuguesas.

O problema está muito centrado no cenário digital. Hoje, a educação financeira dos mais jovens compete diretamente com os algoritmos das redes sociais. No TikTok ou no Instagram, proliferam “gurus” financeiros e influencers que promovem a cultura do enriquecimento rápido, do investimento sem risco em ativos voláteis e da ostentação como sinónimo de sucesso.

Esta narrativa cria a ilusão do dinheiro fácil. Associada ao aparecimento de soluções de crédito instantâneo e modalidades como o Buy Now, Pay Later (“comprar agora, pagar depois”), a mensagem passada é clara: o consumo não tem consequências.

Ora, a aparente facilidade expõe os mais novos ao risco do endividamento precoce. Sem noções básicas sobre taxas de juro, impacto da inflação ou custos associados ao crédito, a capacidade de decidir de forma consciente dá lugar à impulsividade. Por este motivo, a literacia financeira já não deve servir apenas para ensinar a poupar, mas, igualmente, para criar um filtro crítico face às facilidades de consumo que surgem nos ecrãs diariamente.

O combate a esta ilusão digital não pode ficar circunscrito às salas de aula ou a planos de longo prazo. A melhor defesa contra as falsas promessas da internet começa na mesa de jantar. É certo que, em Portugal, ainda evitamos discutir sobre orçamentos ou gestão de dívidas com os filhos, muitas vezes numa tentativa de os proteger. O efeito, contudo, é o oposto.
Quando trazemos os mais novos para a realidade da gestão doméstica, adaptando o discurso à sua idade, estamos a dar-lhes ferramentas de defesa. Explicar como se divide o rendimento familiar entre despesas fixas, poupança e lazer quebra a barreira da fantasia digital. Um jovem que entende o esforço por detrás de um orçamento será muito mais resistente aos apelos do consumo imediato e impulsivo. A literacia dos filhos atua, assim, como um fator de resiliência para toda a estrutura familiar.

A sustentabilidade social do país depende da capacidade de transformar a relação das novas gerações com o dinheiro. Precisamos de substituir a cultura do clique fácil pela cultura da decisão ponderada. Esse caminho começa na desmistificação do dinheiro dentro de casa, garantindo que os adultos de amanhã saibam distinguir a realidade financeira da ficção que corre nos seus ecrãs.

João Pereira,
CEO da Gestlifes

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