Opinião

Spread baixo não é o mesmo que melhor crédito

Ricardo Coelho

O Banco de Portugal voltou a chamar a atenção para a elevada exposição das carteiras de crédito à Euribor e para spreads que, em vários casos, estão desajustados face ao risco. É um alerta técnico, mas tem uma tradução muito concreta na vida de quem vai pedir crédito à habitação.

Nos últimos anos habituámo-nos a olhar para o spread como o número que decide tudo. Um contrato com spread mais baixo tornou-se sinónimo de bom negócio. A realidade é mais exigente. O spread é apenas uma das variáveis do custo total do crédito, e olhar só para ele pode levar a decisões que saem caras a médio prazo.

O que determina de facto quanto se paga por um crédito à habitação é a TAEG, que junta a taxa de juro, as comissões, os seguros associados e o prazo. Dois contratos com o mesmo spread podem ter custos totais muito diferentes assim que se contabilizam as condições que os acompanham, desde a exigência de produtos associados até ao valor dos seguros de vida e multirriscos. Um spread apelativo perde sentido se vier agarrado a um pacote de condições que encarece a prestação todos os meses durante décadas.

O contexto atual torna esta leitura ainda mais importante. Com a Euribor em níveis que pressionam as prestações e com o supervisor a sinalizar desajustes entre spread e risco, o consumidor precisa de informação clara para avaliar propostas de forma completa, e não a partir de um único indicador.

É aqui que comparar antes de assinar deixa de ser um conselho genérico e passa a ser uma proteção. Cada instituição aplica as regras à sua maneira e valoriza perfis de forma diferente. A mesma pessoa pode encontrar condições substancialmente distintas consoante o banco. Ver várias propostas lado a lado, com o custo total à vista, é o que permite decidir com base no que realmente pesa.

Spread baixo pode ser um bom ponto de partida. Nunca é, por si só, a garantia de melhor crédito.

Ricardo Coelho,
Diretor-Geral da Comparamais

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