Os exosqueletos naturais são estruturas rígidas que se encontram nos animais, sustentando a forma de um corpo e protegendo todos os seus órgãos internos. Estas estruturas contêm componentes muito resistentes que desempenham determinadas funções principais tais como suporte, proteção, respiração, sensação e alimentação. Apresentam ainda uma função core na vida animal que é a defesa de parasitas e predadores. Tipicamente, os exosqueletos são rígidos e limitam o crescimento do animal. Com o crescimento acontece um fenómeno de nome muda, onde existe o descarte da estrutura antiga e a produção de um novo exosqueleto.
Terminadas as breves introduções darwinianas sobre o tema, encontram algumas semelhanças ou relações com o perfil de um empreendedor? São várias.
Um empreendedor precisa de um exosqueleto, mas não de uma armadura. Nas startups, há que fazer uma diferença entre proteção e rigidez. Um empreendedor deve proteger sem paralisar, utilizando o “bom exosqueleto”, mantendo sempre agilidade e não bloqueando movimentos, inovações ou proatividade da sua equipa. Para isso, deve construir estruturas simples e eficazes de métodos de trabalho, disciplina, governance, métricas e processos de negócio.
Engane-se quem acredite que, nos dias de hoje, empreender deve nascer de uma ideia romântica e que um empreendedor deve ser livre, caótico e puramente intuitivo. Se o for não terá grande sucesso. Tal como o exosqueleto dá forma e suporte ao movimento, também o empreendedor precisa de uma estrutura, definindo bem o problema, desenhando uma forte proposta de valor, estruturando um modelo de negócio sustentável, implementando um bom plano de execução, atraindo uma equipa e definindo bem as prioridades. A iniciativa e atitude empreendedora deve nascer de uma estrutura razoavelmente forte para conseguirmos testar, errar e continuarmos a aprender.
Um exosqueleto não serve apenas para resistir, serve também para distribuir carga, absorver impacto e permitir continuidade do movimento. No empreendedorismo, resiliência não é “aguentar tudo” de forma estoica. É criar mecanismos que impedem que cada choque destrua a empresa, a equipa ou a pessoa. O empreendedor resiliente não é o que nunca quebra, é o que constrói sistemas para que cada queda não seja fatal. Quando formamos futuros empreendedores na academia, uma das principais mensagens é que vão existir muitos mais dias maus do que bons, vão ter inúmeros momentos de indecisão, de dúvida e até de receio, mas a chave está em seguir em frente, com a capacidade e humildade de pedir ajuda, aceitar conselhos externos e aprender com os falhanços. Se tivermos a capacidade de criar uma cultura de equipa saudável, se tivermos a capacidade de ser pivot na organização (e não o centro dela) e se conseguirmos criar mecanismos e rotinas de decisão partilhadas, conseguimos mitigar esses dias menos bons.
Como vimos anteriormente e no caso dos artrópodes, o exosqueleto protege, mas também limita o crescimento, por isso, em certas fases, tem de ser substituído. Esse processo de muda deixa o organismo temporariamente vulnerável. Crescer implica abandonar a estrutura anterior e desenvolver uma nova para enfrentar o modelo de crescimento, e todos os riscos que daí advêm. Quando uma startup cresce e enfrenta um novo perfil de scaleup, vários fenómenos começam a acontecer. O fundador deixa de fazer tudo sozinho, passando a ser obrigado a delegar. Acreditem que para uns é fácil, mas para a maioria não. A informalidade da gestão e do dia a dia deixa de existir. Obrigatoriamente, têm de aparecer novos processos e procedimentos de trabalho. Uns adaptam-se melhor do que outros. Aquela sensação de que conhecemos bem o mercado, os clientes e os concorrentes deve passar para um sistema de conhecimento e inteligência de mercado, que nos permita captar dados e com esses começar a tomar decisões mais estruturadas. E, por fim, sendo talvez a mais desafiante, a cultura de sobrevivência tem de ser substituída pela cultura de escala. Aquilo que protegeu a empresa na fase inicial não pode tornar-se a sua principal limitação na fase seguinte.
Muito recentemente, tenho estado curioso sobre os novos exosqueletos artificiais. Um nicho de mercado que aumentou a sua amplitude de aplicações nos últimos tempos, nomeadamente em setores empresariais como construção civil, indústria automóvel ou logística. Estes dispositivos aumentam força, reduzem fadiga e adaptam-se ao movimento humano, proporcionando uma nova experiência de movimento, mais acelerado, otimizado e produtivo. Encontramos aqui um paralelismo muito interessante com os empreendedores. As novas ferramentas digitais e a inteligência artificial são o novo exosqueleto do empreendedor, pois aumentam velocidade, alcance e capacidade analítica, mas não podem nem devem substituir julgamento, coragem e responsabilidade.
Hoje, estamos a verificar alguma dependência da inteligência artificial para resolver todos os problemas e dores quando se cria um projeto. Não deverá ser assim. Sem dúvida que estas novas tecnologias trazem um enorme apoio na pesquisa, na prototipagem, na comunicação, na análise de mercado e concorrência e na própria construção do pitch. Mas não deve decidir pelo empreendedor sobre qual a dor dos clientes, qual o problema relevante, qual o risco ético ou qual o impacto de cada decisão a nível endógeno e exógeno. A tecnologia traz-nos o músculo adicional para crescer melhor e mais rápido, mas o empreendedor tem de continuar a dar o critério certo a cada decisão.
Francisco Cunha Carvalho,
Disruptive Leaders no AESE Executive MBA e Teaching Fellow da AESE Business School





