Durante décadas, substituir um para-brisas era um procedimento essencialmente mecânico. Tira vidro, coloca vidro. Hoje, essa realidade mudou profundamente. A crescente incorporação de câmaras, sensores, head-up displays e sistemas avançados de assistência à condução (ADAS) transformou o vidro dianteiro num componente crítico para a segurança e obrigou empresas como a Carglass a reinventarem o seu modelo de negócio, investindo em tecnologia, formação e novas competências.
Em entrevista à Forbes Portugal, Jorge Cardoso, Diretor-Geral da Carglass Portugal, explica como a digitalização do automóvel está a elevar a complexidade do setor, analisa a evolução das exigências dos consumidores e antecipa um futuro em que o verdadeiro valor deixará de estar na substituição do vidro e passará a centrar-se na gestão de todo o ecossistema tecnológico do veículo.
Durante décadas, a substituição de para-brisas foi vista como um serviço relativamente simples. Hoje, com a integração de sensores e sistemas ADAS, isso mudou. Em termos médios, quanto mais caro é atualmente substituir um para-brisas face ao que acontecia há dez anos e quais são os principais fatores que explicam essa evolução?
O para-brisas moderno deixou de ser apenas um elemento de proteção e visibilidade para se tornar uma plataforma tecnológica essencial ao funcionamento de múltiplos sistemas de segurança.
Hoje, integra frequentemente câmaras, sensores, sistemas ADAS, vidro acústico, head-up displays e outras tecnologias que desempenham um papel fundamental na experiência de condução e, sobretudo, na segurança dos ocupantes.
Por isso, quando falamos da evolução dos custos, estamos essencialmente a falar da evolução tecnológica do próprio automóvel. Já não substituímos apenas um componente físico. Estamos a garantir que sistemas críticos para a segurança continuam a funcionar exatamente como foram concebidos pelos fabricantes.
A substituição de um para-brisas moderno exige tecnologia, formação especializada e processos rigorosos de recalibração. O que está em causa não é apenas a instalação de um vidro, mas a reposição das condições de segurança do veículo.

Que mudanças concretas esta maior complexidade tecnológica trouxe para empresas como a Carglass?
Transformou completamente o setor. Hoje, uma empresa líder nesta área precisa de combinar competências que há alguns anos eram praticamente inexistentes neste mercado: diagnóstico digital, recalibração ADAS, gestão tecnológica, formação contínua e integração digital dos processos.
A capacidade de investir em tecnologia e qualificação tornou-se um fator decisivo. Os veículos estão a evoluir rapidamente e isso exige equipas altamente especializadas e equipamentos cada vez mais sofisticados.
Ao mesmo tempo, esta evolução criou barreiras à entrada mais elevadas. A capacidade de acompanhar a inovação da indústria automóvel exige uma escala e um investimento contínuo que poucos operadores conseguem assegurar.
É precisamente neste contexto que a dimensão global da Belron representa uma vantagem competitiva relevante, permitindo-nos trazer para Portugal conhecimento, inovação e melhores práticas desenvolvidas em cerca de 40 mercados e aplicadas em aproximadamente 17 milhões de intervenções anuais.
Mas existe também uma outra dimensão importante: a sustentabilidade. Na Carglass acreditamos que reparar sempre que é possível e seguro é a melhor solução. Em 2025, conseguimos resolver 1/4 das intervenções através da reparação, evitando a utilização de 315,7 toneladas de vidro novo e cerca de 1.950 toneladas de CO₂. A inovação não serve apenas para incorporar mais tecnologia; serve também para preservar recursos e criar valor de forma mais sustentável.

Os consumidores portugueses estão mais sensíveis ao preço ou à qualidade e especialização do serviço quando precisam de reparar ou substituir um vidro automóvel? Tem observado alterações nesse comportamento?
O preço continua naturalmente a ser importante, mas observamos uma valorização crescente da confiança, da especialização e da qualidade da experiência.
Os consumidores podem não conhecer todos os detalhes técnicos dos sistemas ADAS, mas percebem que os seus veículos incorporam tecnologias importantes para a sua segurança. Isso faz com que atributos como reputação, competência técnica e qualidade do serviço assumam um peso cada vez maior.
Além disso, os clientes valorizam cada vez mais a conveniência. Esperam processos simples, digitais e rápidos, uma articulação eficiente com as seguradoras e a possibilidade de resolver um problema inesperado com o mínimo impacto possível no seu dia.
O facto de trabalharmos com as principais seguradoras presentes em Portugal contribui para que a decisão seja cada vez mais orientada pela confiança e pela qualidade da intervenção.
Quando um cliente percebe que uma intervenção influencia diretamente o funcionamento dos sistemas de segurança do veículo, a confiança torna-se um fator decisivo.
O grupo Belron, que detém a Carglass, opera em dezenas de mercados. Onde se posiciona Portugal em termos de desempenho dentro desta rede internacional?
Portugal tem conseguido afirmar-se como uma operação altamente focada na qualidade, na inovação e na experiência do cliente.
Ao integrarmos a estrutura mundial da Belron, operamos com o suporte de um líder global que serve milhões de condutores anualmente. Esta exposição a cerca de 40 geografias diferentes permite-nos dominar a complexidade tecnológica dos novos veículos com uma precisão que só a escala de um grupo líder mundial pode proporcionar. Essa dimensão permite-nos ter acesso privilegiado a conhecimento, inovação e melhores práticas que depois aplicamos localmente.
Ao mesmo tempo, temos conseguido adaptar essa capacidade global à realidade do mercado português, mantendo uma forte proximidade com os clientes, seguradoras e parceiros. O facto de trabalharmos com as principais seguradoras presentes em Portugal é também um reflexo da confiança que existe nos nossos processos, na nossa qualidade técnica e na nossa capacidade de resposta.
A realização do Best of Belron em Lisboa é igualmente um sinal da relevância e reconhecimento da operação portuguesa dentro do grupo. Demonstra que Portugal é hoje uma referência de excelência operacional e execução dentro da rede global.

A rede Carglass em Portugal vai ser aumentada? Se sim, esse aumento será de que dimensão e será em que localidades?
O futuro passa por estar cada vez mais próximo do cliente, mas sem comprometer os mais elevados padrões de qualidade e segurança.
Continuaremos a investir na nossa rede física e contamos terminar este ano com um total de 90 agências em Portugal, reforçando a proximidade e a cobertura nacional.
Mas a verdadeira transformação está a acontecer no serviço móvel, tanto ao nível da tecnologia que usamos para a realização do serviço, como no aumento do número de viaturas em atividade
Durante vários anos, a crescente presença dos sistemas ADAS criou um desafio para todo o setor. Muitas calibrações exigiam condições técnicas muito específicas e isso levou a que uma parte significativa das intervenções de substituição de para-brisas tivesse de ser realizada em agência.
Hoje, graças ao trabalho desenvolvido pela Belron Technical em parceria com a Bosch, conseguimos levar a calibração ADAS para fora da oficina e realizá-la, com total rigor técnico, em casa do cliente, no local de trabalho ou num parque de estacionamento. Esta inovação foi desenhada especificamente para o serviço móvel e permite-nos combinar conveniência com os mesmos padrões de qualidade, precisão e rastreabilidade. Nos primeiros anos, teremos exclusividade na utilização desta solução, o que representa uma vantagem competitiva muito relevante
Isto representa uma mudança muito relevante porque permite combinar aquilo que os clientes mais valorizam: segurança, conveniência e rapidez.
Para nós, a questão já não é escolher entre agência ou serviço móvel. O objetivo é garantir que o cliente recebe o mesmo nível de excelência onde quer que esteja.
Dentro de cinco ou dez anos, o que pesará mais no negócio da Carglass: a substituição de vidro propriamente dita ou os serviços tecnológicos associados, como a calibração dos sistemas ADAS?
Acredito que o negócio será cada vez menos definido pela substituição do vidro em si e cada vez mais pela capacidade de garantir o funcionamento de todo o ecossistema tecnológico do veículo. A evolução dos sistemas ADAS é apenas o início. À medida que a condução se torna mais assistida e, progressivamente, mais autónoma, os veículos passarão a incorporar não só mais câmaras, mas também um número crescente de radares que exigirão calibrações cada vez mais sofisticadas.
Ao mesmo tempo, o próprio vidro continuará a evoluir com a tendência crescente dos tetos panorâmicos, que elevam o conforto e a luminosidade a bordo. No entanto, o verdadeiro diferencial não será apenas tecnológico. Quanto mais complexa for a tecnologia, mais valiosa será a experiência humana e próxima.
O futuro da Carglass passará por combinar a precisão digital com o atendimento de excelência. A confiança que um cliente sente ao entregar o seu automóvel a um técnico especializado, que sabe explicar o valor de uma calibração e assegura a sua segurança de forma empática, é algo que a tecnologia não substitui. Os líderes do setor serão aqueles que conseguirem combinar tecnologia de ponta, talento certificado e uma cultura de proximidade humana. Na Carglass, o futuro é esta convergência entre mobilidade, tecnologia e segurança, sempre com as pessoas no centro da operação.





