O Grupo Esprinet é uma multinacional italiana, vocacionada para a distribuição de produtos de alta tecnologia e para o fornecimento de aplicações e serviços para a transformação digital e transição verde. Para além de Itália e Portugal, a empresa está presente em Espanha e no norte de África. Giovanni Testa, que se encontra na Esprinet há cerca de duas décadas, ascendeu no passado mês de maio à posição de liderança na empresa à escala global, dando agora à Forbes uma entrevista na qual desenvolve as suas ideias para o negócio e fala da relevância do mercado nacional para a Esprinet.
Assumiu a liderança global do Grupo Esprinet há poucas semanas. O que pretende fazer de diferente face ao ciclo de liderança anterior?
Entrei para a Esprinet em 2001 e, ao longo destes anos, tive a oportunidade de crescer profissionalmente e de contribuir para as transformações da empresa, as quais nos conduziram à posição de multinacional líder do setor que ocupamos hoje. Desde 2020, aliás, e no papel de diretor-geral, colaborei na definição da estratégia do grupo ao lado do então CEO.
Por este motivo, não haverá mudanças disruptivas, antes uma evolução do percurso que já iniciámos. Num setor em profunda transformação, trabalharemos com foco na continuidade e no crescimento, privilegiando cada vez mais as atividades de maior valor acrescentado, de forma a gerar valor sustentável e de longo prazo para o Grupo e para todos os nossos stakeholders.
O que considera ser atualmente a maior ameaça ao modelo tradicional de distribuição tecnológica?
Nos últimos anos, o setor da distribuição de TI tem vivido uma transformação profunda, com a transição de um modelo centrado no hardware para outro cada vez mais orientado para os serviços, a cloud e, atualmente, a inteligência artificial. Neste contexto, é fundamental saber evoluir, como o nosso Grupo fez, procurando compreender as necessidades dos nossos clientes e, com isso, adaptar o nosso modelo de negócio core às especificidades e exigências do mercado.
Já não se trata apenas da distribuição de dispositivos simples para consumidores ou empresas, mas sim do fornecimento de soluções complexas ligadas ao ecossistema dos Data Centers. O que faz hoje a diferença é a integração da nossa oferta de produtos e soluções com serviços e consultoria, de modo a disponibilizar aos clientes projetos “chave na mão” que respondam plenamente às suas necessidades.
“O setor da distribuição de TI tem vivido uma transformação profunda, com a transição de um modelo centrado no hardware para outro cada vez mais orientado para os serviços, a cloud e, atualmente, a inteligência artificial”.
Que oportunidades de negócio estão a surgir com a adoção da IA generativa por parte das empresas e das administrações públicas?
A IA generativa representa uma excelente oportunidade para transformar os processos de negócio, com a redução de custos, aceleração dos tempos de resposta e, frequentemente, melhoria na qualidade dos resultados. O Grupo Esprinet pretende liderar esta mudança, tal como fizemos com outras transformações que testemunhámos no nosso mercado. Por outro lado, muitas pessoas inserem dados corporativos sensíveis em ferramentas de IA sem terem plena consciência dos riscos envolvidos.
É por isso que acreditamos que o desenvolvimento da IA avançará em paralelo com um forte crescimento da cibersegurança. Há anos que temos investido na área e continuamos a introduzir novas soluções, muitas das quais integradas com tecnologias de IA. Nesse sentido, a segurança será um dos principais motores de crescimento do mercado nos próximos anos.
“A IA generativa representa uma excelente oportunidade para transformar os processos de negócio, com a redução de custos, aceleração dos tempos de resposta e, frequentemente, melhoria na qualidade dos resultados”
Considera que estamos perante um ciclo tecnológico comparável ao da cloud?
A inteligência artificial é uma revolução comparável à Internet. Irá transformar algumas profissões e tornar outras mais eficientes. Nós já a estamos a utilizar internamente e representa uma oportunidade de negócio muito interessante. Ao mesmo tempo, percebemos que ainda existe uma forte necessidade de formação. Muitos falam sobre IA sem possuírem o conhecimento especializado suficiente para a dominar verdadeiramente. É por essa razão que o Grupo está a desenvolver um programa de formação especializado, direcionado tanto para clientes como para os nossos próprios colaboradores.
“A inteligência artificial é uma revolução comparável à Internet. Irá transformar algumas profissões e tornar outras mais eficientes”
Referiu recentemente as tensões geopolíticas e a escassez de determinados componentes. Qual é o maior risco atual para a cadeia de abastecimento tecnológica?
O setor da distribuição encontra-se numa posição favorável para capitalizar as oportunidades decorrentes da escassez de memória e das tensões na cadeia de abastecimento. A adoção da inteligência artificial generativa está, de facto, a alterar profundamente o equilíbrio da cadeia de abastecimento, o que afeta tanto a disponibilidade de componentes como a dinâmica do mercado eletrónico.
A crescente capacidade de absorção da produção por parte dos grandes players de IA, data centers e hyperscalers está a pressionar a oferta destinada ao mercado de consumo, resultando no aumento dos preços das memórias RAM para PC, smartphones e outros dispositivos. Neste contexto, torna-se cada vez mais crítico para as empresas e parceiros de TI reforçarem as suas capacidades de planeamento de compras, assegurarem a continuidade do fornecimento e gerirem a volatilidade dos custos.
Tendo em conta também as incertezas associadas ao cenário geopolítico, os analistas preveem para 2026 um crescimento de um dígito, entre baixo a médio, para o mercado europeu da distribuição.
“Os analistas preveem para 2026 um crescimento de um dígito, entre baixo a médio, para o mercado europeu da distribuição”.
A Europa continua a estar excessivamente dependente da Ásia para componentes críticos?
A Europa continua fortemente dependente da Ásia em termos de componentes críticos, em particular semicondutores e matérias-primas, com uma cadeia de abastecimento dominada por escassos e grandes polos de fabrico. Esta concentração gera volatilidade de preços e riscos de abastecimento, que têm um impacto direto nas dinâmicas da distribuição. Neste cenário, o papel do distribuidor torna-se cada vez mais estratégico, ao evoluir de um mero intermediário para um garante da continuidade e da gestão da complexidade da cadeia de abastecimento.
“A Europa continua fortemente dependente da Ásia em termos de componentes críticos, em particular semicondutores e matérias-primas”.
Se tivesse de apostar numa única tendência tecnológica que criará mais valor para o grupo nos próximos cinco anos, qual seria?
A tendência em que apostaria é a AI-as-a-Service (IA como Serviço). Não apenas pelo seu impacto tecnológico, mas porque redefine o papel da distribuição, deslocando o valor para as plataformas, os serviços e a gestão da complexidade. Exatamente onde o Grupo Esprinet pode construir a sua vantagem competitiva nos próximos cinco anos.
A Esprinet tem destacado a crescente importância do mercado português. O que torna Portugal particularmente atrativo?
Portugal tem sido uma das surpresas mais positivas para mim nos últimos anos. Embora, de um ponto de vista puramente económico, seja um mercado menor do que a Espanha ou a Itália, o potencial de crescimento nem sempre está diretamente ligado de forma linear à dimensão do mercado. Em Portugal, encontramos empresas que se mostram muito abertas à inovação, extraordinariamente adaptáveis e genuinamente dispostas a investir em tecnologia quando esta aporta valor tangível ao negócio. Isto é evidente tanto no setor privado como em muitas iniciativas da administração pública.
Outro fator que valorizamos imenso é a qualidade das pessoas. Portugal possui profissionais excecionalmente talentosos e um ecossistema de parceiros estruturado com base em relações de longo prazo e de confiança. Isto cria as condições ideais para desenvolver o negócio de uma forma sustentável e relevante.
“Em Portugal, encontramos empresas que se mostram muito abertas à inovação, extraordinariamente adaptáveis e genuinamente dispostas a investir em tecnologia”.
Portugal está a crescer a um ritmo mais rápido ou mais lento do que Espanha e Itália?
Costumo dizer que as comparações diretas nem sempre refletem a realidade na sua totalidade. Espanha e Itália são mercados onde a Esprinet opera há muito mais tempo e a uma escala significativamente maior. Portugal apresenta um perfil diferente e, naturalmente, uma trajetória de crescimento distinta. O que posso afirmar é que estamos muito satisfeitos com a evolução da nossa operação em Portugal. Assistimos a uma relevância acrescida da marca, estreitámos relações com fabricantes de referência (vendors) e expandimos a presença em todo o canal.
Quando um mercado conjuga crescimento, forte capacidade de execução e ambição, ganha naturalmente visibilidade no seio de qualquer grupo internacional. É exatamente isso que tem vindo a acontecer em Portugal.
“Estamos muito satisfeitos com a evolução da nossa operação em Portugal”
Quais as categorias tecnológicas com maior potencial de crescimento em Portugal nos próximos três anos?
Se tivesse de destacar algumas áreas, seria impossível não começar pela Inteligência Artificial. Estamos ainda numa fase inicial da adoção generalizada da IA, mas acredito firmemente que os próximos anos serão transformadores para praticamente todas as organizações. Paralelamente, continuamos a verificar uma procura crescente por soluções de cloud, cibersegurança e serviços especializados. As empresas já não compram simplesmente tecnologia, procuram, cada vez mais, parceiros que as ajudem a extrair-lhe valor real de negócio.
Existe também uma oportunidade muito interessante em torno da eficiência energética e da sustentabilidade. Estas são áreas onde a tecnologia, a otimização de custos e os requisitos regulamentares convergem, gerando um forte impulso para a sua adoção. Naturalmente, as categorias mais tradicionais, como os PC, a mobilidade e as soluções de infraestrutura, manter-se-ão altamente relevantes. A diferença hoje reside no facto de cada vez mais integrarem projetos de transformação mais amplos e abrangentes.
“As empresas já não compram simplesmente tecnologia, procuram, cada vez mais, parceiros que as ajudem a extrair-lhe valor real de negócio”.
Que diferenças identifica entre os clientes portugueses e os dos restantes mercados da Esprinet?
Há uma característica que se destaca sempre para mim, a proximidade. Os clientes portugueses valorizam conhecer as pessoas que estão por trás do negócio. Atribuem grande importância às relações pessoais, à capacidade de resposta e à acessibilidade. Muitas vezes, o fator decisivo entre dois fornecedores não é o produto ou o preço, mas sim o nível de confiança que inspiram. Considero também que os parceiros de canal em Portugal demonstram uma capacidade de adaptação notável. São empreendedores, resilientes e altamente capacitados para identificar novas oportunidades, mesmo em condições de mercado desafiantes.
“Os clientes portugueses valorizam conhecer as pessoas que estão por trás do negócio”
Portugal poderá ganhar uma maior relevância estratégica dentro da organização?
Sem qualquer dúvida. Num grupo internacional como o nosso, a importância da operação de um país não é determinada unicamente pela sua dimensão atual. É definida pela sua trajetória. Os mercados que crescem, criam valor para os fabricantes, atraem novos parceiros e demonstram de forma consistente uma forte capacidade de execução ganham inevitavelmente influência na estrutura.
Portugal tem vindo a demonstrar precisamente essas qualidades. Existe ainda outra vantagem importante, que é a agilidade. Num mercado com esta dimensão, é frequentemente mais fácil testar novas abordagens, implementar mudanças com rapidez e aprender de forma mais célere.
Por esse motivo, vejo perfeitamente possível que Portugal venha a desempenhar um papel ainda mais significativo dentro do Grupo nos próximos anos. Para ser sincero, acredito que já nos encontramos no caminho certo para que isso se concretize.





