João Espregueira-Mendes é especialista em Ortopedia e lidera a rede de Clínicas Espregueira desde 1989. Em 2005, torna-se ortopedista do Futebol Clube do Porto, tendo então passado a sua clínica para as instalações do Estádio do Dragão. Conduz atualmente os destinos de uma rede de clínicas que, em Portugal, está presente em 20 cidades, e em outras 15 através de duas unidades móveis. Tem ainda presença directa em Espanha, e emprega cerca de 250 profissionais especializados.
Foi eleito há um ano para a presidência da ISAKOS – Sociedade Mundial de Traumatologia Desportiva, numa eleição que envolveu 114 países, depois de ter presidido à Sociedade Europeia de Traumatologia Desportiva, a ESSKA, entre 2012 e 2014. Acredita que este facto prestigia Portugal e que o nosso país tem vindo a ser cada vez mais respeitado no contexto global da medicina e da traumatologia desportiva. Á Forbes Portugal, este especialista faz um balanço de um ano à frente da Instituição e revela os próximos passos para a rede de clínicas, que prevê, nos próximos três anos, multiplicar o seu volume de negócios. Entre os vários exemplos de internacionalização, o NJoão Espregueira Mendes destaca um: a Clínica Espregueira – Estádio do Dragão recebeu um grupo de quatro clínicos, da Sultan Bin Abdulaziz Humanitarian City, com quem tem um acordo para fazer um hospital em Ryad e apoiar o desenvolvimento da medicina desportiva naa Arábia Saudita.
Conheça a restante estratégia a seguir.
Assumiu há um ano a presidência da Sociedade Mundial de Traumatologia Desportiva (ISAKOS), tendo sido o primeiro profissional da Península Ibérica a atingir essa posição. Como foi recebido pelos seus pares e qual é a imagem exterior que Portugal tem nesta profissão?
Tomar posse como Presidente da ISAKOS, no Congresso de Munique, foi uma honra e uma responsabilidade que ultrapassa muito o plano pessoal. Depois da minha presidência da sociedade europeia ESSKA entre 2012 e 2014, assumir agora a liderança da ISAKOS 2025–2027 representa um percurso invulgar, que prestigia Portugal com a presidência das duas grandes sociedades internacionais da traumatologia desportiva. E, hoje, com o Prof. Joan Carles Monllau (Espanha) na ESSKA e eu próprio na ISAKOS, a Península Ibérica está na liderança das principais organizações que ajudam a definir o futuro global da nossa especialidade. Portugal tem vindo a afirmar-se e a ser cada vez mais respeitado no contexto global da medicina e da traumatologia desportiva.
Qual o balanço que faz deste ano de presidência? E o que estima para o futuro do seu mandato, que termina em 2027?
O balanço é positivo, mas sobretudo exigente. Este primeiro ano consolidou uma ISAKOS mais global, mais digital e mais orientada para equidade no acesso à educação médica de excelência. Reforçámos a educação online, vídeos, publicações e os conteúdos sobre inteligência artificial. Procuramos que a ISAKOS seja uma sociedade sem barreiras linguísticas, económicas, culturais ou de género. Todas as nossas iniciativas no mundo são traduzidas na língua local. O ISAKOS Regional Summit deste ano, em Mumbai, reuniu mais de 1.100 delegados, 17 professores internacionais, mais de 50 especialistas nacionais e 30 parceiros da indústria. Até 2027, a prioridade é expandir este modelo, apostar na cirurgia robótica e na realidade virtual levando conhecimento gratuito às mais recônditas regiões do mundo. No Congresso de Sidney em 2027, esperamos ter mais de 4.000 inscritos, com mais de 100 nacionalidades.

Que marca pessoal gostaria de deixar à frente desta instituição, e o que está a fazer neste sentido?
Gostaria de deixar a ISAKOS como a maior referência internacional na disseminação do conhecimento médico, na medicina desportiva. Não apenas a que produz excelência, mas a que a distribui de forma mais justa. O acesso à educação médica de topo não pode depender apenas da geografia, da língua ou da capacidade económica. Por isso, tentarei fortalecer recursos digitais, programas de mentoria, bolsas, estágios em centros de referência, liderança jovem, liderança feminina e colaboração com sociedades nacionais e regionais. A educação é um instrumento técnico, mas sobretudo um gesto de humanidade.
Qual é a importância da medicina desportiva a nível mundial? Em termos de mercado, que valor gera e que impacto tem no setor da saúde?
A medicina desportiva é hoje estratégica para a saúde pública, porque se cruza com um dos maiores desafios globais: as doenças crónicas não transmissíveis, foram responsáveis por mais de 43 milhões de mortes em 2021. Ao mesmo tempo, cerca de 1,8 mil milhões de adultos não cumprem os níveis recomendados de atividade física, o que agrava risco cardiovascular, diabetes, cancro, depressão, perda funcional e dependência.
“A inatividade física poderá custar 300 mil milhões de dólares aos sistemas de saúde, até 2030, sem contar com custos indiretos significativos como a perda de produtividade, pelo que promover movimento com segurança é também uma decisão económica e social”, afirma o médico.
Neste contexto, o exercício físico deve ser entendido como prevenção, tratamento e reabilitação. Mas, para que mais pessoas sejam fisicamente ativas com segurança, é indispensável o acompanhamento médico nas intercorrências musculoesqueléticas, na dor, na lesão e na doença degenerativa. A medicina do sistema locomotor tem aqui um papel decisivo para habilitar fisicamente as pessoas, preservar autonomia, reduzir absentismo, melhorar produtividade e contribuir para sociedades mais saudáveis. A inatividade física poderá custar 300 mil milhões de dólares aos sistemas de saúde, até 2030, sem contar com custos indiretos significativos como a perda de produtividade, pelo que promover movimento com segurança é também uma decisão económica e social.
A marca fundada pelo seu avô completa um século de atividade. Como é ver crescer este legado, que perdura no tempo? Qual a sua maior ambição para a rede?
Há instituições que não pertencem apenas a quem as fundou ou a quem as lidera; pertencem à memória coletiva das pessoas que serviram, das vidas que tocaram e da confiança que souberam construir ao longo do tempo. Celebrar 100 anos das Clínicas Espregueira é, por isso, uma honra, mas sobretudo uma responsabilidade perante uma história que atravessa gerações. As Clínicas Espregueira são hoje verdadeiros centros de excelência, suportados pela evidência científica, pelas boas práticas, pela inovação e, acima de tudo, pelas pessoas. A Clínica Espregueira-Dragão reúne um quarteto de acreditações internacionais excecionais: FIFA Medical Centre of Excellence, distinção em que foi a primeira da Península Ibérica e continua a ser única em Portugal e centro oficial de ensino da ISAKOS, ESSKA e ICRS.
No seu conjunto, tanto quanto sabemos, esta combinação poderá mesmo ser única no mundo. Mas o mais importante é que a instituição valha pelo seu padrão, pela sua cultura e missão numa visão partilhada. A minha ambição é que este legado continue a transformar-se em futuro: excelência clínica, investigação, formação e ciência ao serviço das pessoas.
Já iniciou a sua internacionalização? Se sim, quando e para onde?
A nossa internacionalização começou antes de ser uma estratégia formal, quando doentes, médicos, fisioterapeutas e investigadores de diferentes geografias passaram a procurar-nos. Hoje recebemos doentes de todo o mundo e estagiários dos cinco continentes, que vêm aprender com as nossas equipas nos gabinetes médicos, nas salas de cirurgia e nas salas de aula, físicas e virtuais. Esta dimensão internacional é sustentada também por uma cultura científica robusta, com mais de 300 publicações científicas, 24 livros internacionais e mais de 700 conferências, que traduzem a capacidade da instituição para produzir conhecimento, validar práticas e contribuir para a evolução da medicina músculo-esquelética.
“Formalizamos este ano uma parceria com o Hospital da Lapa, no Porto, onde gerimos clinicamente toda a área do sistema locomotor. Esta unidade funciona como Centro cirúrgico das Clínicas Espregueira no norte do país. Contamos, em breve, replicar este modelo noutra unidade de Lisboa, para darmos resposta às pessoas da zona sul do país, que nos procuram no Porto”, diz João Espregueira-Mendes.
A Academia Clínicas Espregueira é hoje uma extensão natural dessa missão, com programas internacionais como o Football Medicine Advanced Course, provavelmente um dos cursos de medicina do futebol mais reconhecidos do mundo, com alunos de mais de 40 países, incluindo médicos de seleções nacionais, clubes profissionais e estruturas amadoras. Neste momento, por exemplo, temos connosco na Clínica Espregueira – Estádio do Dragão um grupo de quatro clínicos, da Sultan Bin Abdulaziz Humanitarian City, com quem temos um acordo para fazer um hospital em Ryad e apoiar o desenvolvimento do que de melhor se faz em medicina desportiva, na Arábia Saudita.
Formalizamos este ano uma parceria com o Hospital da Lapa, no Porto, onde gerimos clinicamente toda a área do sistema locomotor. Esta unidade funciona como Centro cirúrgico das Clínicas Espregueira no norte do país. Contamos, em breve, replicar este modelo noutra unidade de Lisboa, para darmos resposta às pessoas da zona sul do país, que nos procuram no Porto. Em Portugal estamos presentes em 20 cidades (e em 15 com duas unidades móveis). Neste momento, temos cerca de 250 colaboradores nas nossas unidades de Portugal e Espanha.
Recentemente, abrimos também o hospital MIKS, no País Basco, com 3 blocos operatórios e internamento, reforçando uma visão de internacionalização. Internacionalizar é transferir conhecimento, formar profissionais, desenvolver investigação e colaborar com instituições que partilham a mesma ambição, isto é, elevar a qualidade dos cuidados, da formação e da ciência ao serviço das pessoas. Teremos muito em breve o acordo para Madrid, em Espanha e Jacarta, na Indonésia. Estamos numa fase de forte expansão, a nível nacional e internacional. Nos próximos três anos planeamos multiplicar várias vezes, o volume de faturação atual.
Sente que a liderança da ISAKOS lhe retira algum tempo do seu próprio negócio, ou pelo contrário até o motiva a fazer mais?
A liderança da ISAKOS exige muito tempo, mas devolve visão, responsabilidade e sentido de missão. As clínicas têm hoje uma dinâmica própria, sustentada por uma cultura de exigência, pela qualidade das suas pessoas e por uma organização que não depende de um homem, mas de um propósito partilhado. O meu foco nunca foi apenas o negócio; foi sempre a missão e a equipa: cuidar melhor, formar melhor e contribuir.
Tentamos ser uma fábrica de talentos, com oportunidades para milhares de jovens, médicos e profissionais de saúde. A gestão rigorosa, a sustentabilidade e o rigor nas contas, muito à moda do Porto, são precisamente aquilo que permite preservar a missão e transformar ideais em ações concretas. A presidência da ISAKOS reforça esse propósito: capacitar profissionais, elevar padrões e servir melhor as pessoas.





