Há vinte anos, a AWS deu os primeiros passos na computação na cloud. Hoje, existem mais de 240 serviços e, pelo meio, tudo mudou. O acesso à capacidade de processamento, armazenamento e software avançado exigia um investimento significativo numa infraestrutura própria e limitava a velocidade com que as organizações conseguiam inovar. Até 2006, a aposta da Amazon na AWS era considerada um investimento arriscado pelos analistas e por toda a indústria. Ainda assim, foi em março desse mesmo ano que a AWS assumiu o risco, e lançou o Amazon S3. Esta tecnologia marcou um ponto de viragem na indústria tecnológica, ao introduzir uma nova forma de acesso a armazenamento escalável, através da internet.
O lançamento deste serviço ajudou a concretizar a visão da Amazon de que qualquer organização, com ligação à internet e um cartão bancário, podia aceder a tecnologia à escala global – uma visão que, com o tempo, viria a mudar a forma como trabalhamos e vivemos. Foi também em 2006 que o lançamento do Amazon EC2 contribuiu para reforçar esta ideia, ao permitir o acesso à capacidade de computação à medida e totalmente escalável, e ao lançar as bases de um dos pilares fundamentais da cloud moderna.
Ao longo das últimas duas décadas, a cloud deixou de ser apenas uma camada tecnológica para se tornar parte estrutural da forma como as empresas operam e inovam. Em Portugal, esta evolução reflete-se na modernização de sistemas em setores como a banca, seguros, saúde, indústria e retalho, bem como no crescimento de empresas tecnológicas que passaram a competir em mercados globais.
A evolução da cloud não aconteceu de uma forma isolada, tem sido acompanhada por uma cultura de inovação contínua e por uma expansão progressiva da infraestrutura global. Hoje, essa infraestrutura já não se limita a grandes regiões centralizadas. Modelos como as AWS Local Zones aproximam a capacidade de computação e de armazenamento dos utilizadores finais, ao responder a necessidades de latência, desempenho e requisitos de residência de dados em setores altamente regulamentados.
No contexto português, um estudo recente da Telecom Advisory Services LLC, associado à implementação de uma AWS Local Zone em Portugal, indica potenciais efeitos relevantes, incluindo um impacto estimado de cerca de 3 mil milhões de euros no PIB, a criação de aproximadamente 17 mil empregos qualificados e um aumento significativo da adoção de cloud pelas empresas. Mais do que os valores em si, estes dados refletem a forma como a infraestrutura digital tende a influenciar a competitividade e a densidade do ecossistema tecnológico, incluindo a estimativa de um impacto de cerca de 1% no PIB nacional.
Em paralelo, a adoção de inteligência artificial tem vindo a acelerar de forma significativa. E esta aceleração não seria possível sem a cloud. Treinar um modelo de inteligência artificial exige uma capacidade de computação que nenhuma organização conseguiria sustentar de forma isolada, tanto a nível de custo como de tempo. A cloud resolve este problema ao disponibilizar, em minutos, a infraestrutura necessária para processar milhares de milhões de parâmetros, gerir volumes massivos de dados e escalar recursos em tempo real. De acordo com o estudo Unlocking Portugal’s AI Ambitions 2025, cerca de 41% das empresas em Portugal já utilizam IA, com um crescimento de 17% face ao ano anterior. Entre estas organizações, 77% reportam ganhos de produtividade e 94% indicam aumentos médios de 30% nas receitas, enquanto as startups apresentam níveis de adoção ainda mais elevados, na ordem dos 62%.
Esta transição marca um novo momento: a cloud deixa de ser apenas a base da transformação digital e passa a ser o suporte para uma nova geração de sistemas inteligentes e uma nova vaga de inovação assente em IA agêntica. Serviços de machine learning, modelos fundacionais e agentes de IA estão a ser integrados em processos empresariais, alterando a forma como as decisões são tomadas e as tarefas são executadas.
Estamos, assim, a entrar numa fase em que a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser um aliado, que atua como um colaborador em processos de negócio. A evolução recente aponta para sistemas mais autónomos, capazes de executar tarefas e interagir com outros sistemas e pessoas de forma coordenada.
Ao longo destes 20 anos, a cloud permitiu democratizar o acesso à tecnologia. Hoje, essa mesma base está a sustentar uma nova transformação, em que o potencial da inteligência artificial se une à escala e flexibilidade da cloud para abrir novas possibilidades.
O que este percurso evidencia é cada vez mais uma aposta na continuidade: a evolução de uma infraestrutura que começou por democratizar o acesso à capacidade computacional e que hoje serve como base para sistemas mais complexos e inteligentes.
Em 2006, quando a AWS lançou os seus primeiros serviços de computação na cloud, ninguém sabia ao certo de que forma esta tecnologia viria a transformar o mundo. O que se seguiu superou qualquer previsão: a Netflix reinventou a forma como consumimos conteúdo, a Airbnb mudou a forma como viajamos e a Uber redefiniu a mobilidade urbana.
Todas estas empresas foram construídas sobre a infraestrutura da AWS. O próximo ciclo não vai ser definido apenas pelas novas tecnologias, mas pela forma como estas se integram na realidade das empresas e da sociedade. E, tal como no passado, o impacto mais significativo vai ser difícil de prever: vai construir-se ao longo do tempo, através de casos de utilização que ainda não existem. Se foi isto que a cloud tornou possível, quem sabe até onde poderá chegar a IA agêntica nos próximos vinte anos?
André Rodrigues,
Head of AWS em Portugal e Technology ISV para a Europa do Sul e França na AWS





