Funky Chunky: “O feito antes do perfeito”

Várias palavras são corretas para definir o ano de 2020, mas “perfeição” não é uma delas. Foi exatamente nesse ambiente que Sofia Pontifex Horn, nomeada na lista 30 Under 30 da Forbes Portugal do ano passado, decidiu criar um negócio. Com a imperfeição como inspiração, fundou a Funky Chunky, uma marca que, utilizando ingredientes naturais,…
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Com a pandemia como empurrão, Sofia Pontifex Horn criou a Funky Chunky e trouxe para Lisboa as bolachas que, na sua opinião, estavam a faltar: imperfeitas e delicadas. Neste momento já tem quatro lojas abertas e prepara a inauguração da quinta.
30 Under 30 Negócios

Várias palavras são corretas para definir o ano de 2020, mas “perfeição” não é uma delas. Foi exatamente nesse ambiente que Sofia Pontifex Horn, nomeada na lista 30 Under 30 da Forbes Portugal do ano passado, decidiu criar um negócio. Com a imperfeição como inspiração, fundou a Funky Chunky, uma marca que, utilizando ingredientes naturais, cria bolachas imperfeitas: “Exatamente como nós gostamos”.

“O feito antes do perfeito. Eu sempre fui muito atrás da perfeição, sou a minha pior chefe no sentido de me cobrar. O fato de estar constantemente a desafiar-me e a abraçar o imperfeito, permitiu-me chegar onde cheguei. Foi no imperfeito que eu consegui abrir uma loja com poucos recursos, ao ter-me permitido. Então acho que essa postura de imperfeição vai muito além da assinatura [do negócio], é um lema que para mim é um desafio”, diz Sofia à Forbes.

As bolachas da Funky Chunky chegaram ao mercado num espaço subalugado com uma empresa de catering. “Eles estavam no fundo a cozinhar leitão, frango e outras carnes e eu na frente a vender cookies de uma forma tão improvisada que hoje olhamos para trás e não conseguimos imaginar como era possível estar a vender assim. Foi das coisas mais imperfeitas que eu já me permiti fazer”, lembra a fundadora.

Sofia chegou à Europa através do programa Erasmus, no seguimento da sua licenciatura em Publicidade e Marketing, que estava a fazer em São Paulo. A escolha foi Barcelona, mas quando terminou o semestre e se viu com vontade de continuar na Europa, foi Lisboa a escolha final. “Olhei para o mapa e pensei: que lugares fazem sentido? Estava entre Madrid e Lisboa. Decidi Lisboa porque gosto muito, é um lugar com o mesmo idioma, então era mais fácil a nível de equivalências de matérias e terminei a faculdade aqui. Fui mais atrás de conhecimento e estilo de vida que me fez terminar a minha faculdade de publicidade aqui na Europa mesmo”, diz.

Sempre empreendedora e criativa, por cá decidiu aliar aos estudos o trabalho numa agência de publicidade, onde se apaixonou pela construção de marcas através do trabalho com grandes nomes como a Amplify ou Netflix. Até que a pandemia causada pela covid-19 colocou um travão neste trabalho e surgiu a sua própria marca: “A Funky começou como um desafio intelectual, essa ideia de tentar ver se eu conseguiria fazer uma marca por conta própria”.

No fundo, foi a própria pandemia que esteve na base da decisão de Sofia. “Estava em casa, fui demitida porque a agência teve um colapso. Era o empurrão que eu precisava, porque eu tinha vontade de sair, mas não tinha coragem”, admite. E consegui-lo fazer também está muito ligado à ideia que criou. A Funky trabalha um monoproduto e procura um espaço o mais simples possível, com foco no take-away e não propriamente um restaurante. “A loja tem umas pequenas mesas de esplanada, mas a ideia é sempre pegar e ir embora. Então, na pandemia a essência do negócio manteve-se, não tive de adaptar muito”.

Bolachas imperfeitas

“Quando há muita coisa é difícil manter a qualidade em tudo de forma espetacular”, defende a Under 30. É por isso que, apesar de ter algumas bebidas disponíveis nas lojas, opta pela estratégia de monoproduto.

As bolachas são um amor de toda a vida, começando nas que a avó fazia e terminando na rede internacional Ben’s Cookies, na qual se inspirou. “Eu sou apaixonada por doces, mas eu realmente sou apaixonada por cookies, acho que é uma das minhas sobremesas favoritas desde sempre. Para mim são uma sensação de família, que está tudo bem, é um aconchego”, conta Sofia.

Em Portugal percebeu que a oferta era um pouco limitada. Por um lado, encontrou um país com uma pastelaria forte, mas que não apostava muito nas bolachas, e por outro encontrou algumas bolachas que considerava “muito secas ou muito doces”. Como não era nada disso que procurava, decidiu meter mãos à obra e fazer ela própria a bolacha mais delicada e saborosa que procurava.

“Os nossos cookies, numa mesma fornada, como eles não têm ingredientes químicos e coisas que permitem uma padronização de fábrica, o nosso é com manteiga, farinha, com mãos de verdade, naturalmente não são perfeitos, eles não vão sair de uma esteira de produção igual às bolachas de mercado. E é isso que os torna interessantes, porque numa mesma fornada, pode haver um mais alto, um mais baixo, um mais crocante, um mais molinho. Dentro do mesmo sabor nunca vais comer o mesmo cookie. É como na vida: aquele nariz tortinho, o olho com uma cor específica, as bochechas coradas ou as sardinhas, tudo isso faz com que a pessoa seja única. Nós somos muito a favor disso, de uma maneira geral, e refletimos muito isso nos nossos ingredientes e na forma como fazemos os nossos cookies”, diz.

Os grandes sucessos da marca são as bolachas de nutella, red velvet e chocolate. “Nunca param, nunca deixam de estar no ranking”, conta. Sendo que o segundo, por exemplo, era apenas uma edição limitada e acabou por ficar, como aconteceu também com outros sabores. Na. Funky há sabores que são fixos e outros rotativos, mas todos os meses existem coisas novas. Para os próximos meses, por exemplo, irá surgir uma bolacha de churros.

A marca conta com quatro espaços em Lisboa e prepara já a abertura de uma quinta loja para breve. A expansão nacional e internacional faz parte dos planos de Sofia: “São Paulo é um dos planos e também Espanha, a partir da Península Ibérica. Mas primeiro acho que temos outros lugares de Portugal onde queremos marcar presença. Até porque começámos aqui, a nossa casa é aqui”.

Olá, concorrência

Se é verdade que quando a Funky Chunky chegou ao mercado encontrou quase que um terreno vazio pronto a explorar, hoje em dia a concorrência é bastante. As bolachas foram ganhando destaque, principalmente com a ajuda das redes sociais, e os negócios foram abrindo ao longo dos últimos cinco anos.

“Naturalmente o monopólio não é para sempre, eu sabia isso desde o início e até achei que demorou para chegar concorrência. Mas é natural que cheguem outros, quando existe um negócio que dá certo, as pessoas inspiram-se e percebem que existe esse mercado”, diz Sofia, realçando que, ainda assim, a Funky continua a ter um produto muito próprio, mesmo quando comparado com os outros: “Não são aqueles cookies grandes american style e atualmente a concorrência só faz isso. Aqueles que podem até ser bons, mas você come um e já está satisfeito. São cookies mais maçudos, com mais ingredientes e acaba por ser uma proposta diferente. A nossa ideia é que você coma um cookie delicado, pequeno, e que possa provar mais sabores. Mas é bom por que exista concorrência, porque nos faz inovar e procurar cada vez mais formas de se diferenciar”.

Com uma faturação de quase 700 mil euros no ano passado, a Funky Chunky continua a crescer de ano para ano, apesar de o crescimento ter sido menor no último ano: 10%, sendo que no ano anterior tinha chegado aos 60%. Sofia aponta o momento atual a nível económico como motivo para essa percentagem, mas garante que é nestes momentos que a resiliência mais está presente.

A Funky tem 80% do seu negócio em loja física e 20% no e-commerce e aplicações de delivery. Ainda assim, não nega o papel das redes sociais no sucesso que foi atingido até hoje. “É uma forma de chegarmos a uma grande parte da nossa clientela e temos experimentado bastante a nível de conteúdos. Apostamos muito num food porn, numa coisa bastante de indulgência, mostrando um pouco também por trás dos bastidores. Acho que isso também humaniza muito e eu tenho aparecido muito ultimamente para mostrar um rosto também”, diz Sofia.

Este crescimento ao longo dos anos acabou por levar a algumas mudanças no negócio. Uma das principais prende-se com a entrada de uma sócia. Luísa Campos, que é advogada, já ajudava Sofia na empresa há algum tempo e, por isso, a decisão acabou por surgir de uma forma muito natural. “Chegou a um ponto em que as duas se davam tanto pelo trabalho e se complementavam tanto que não fazia mais sentido eu tomar as decisões por conta própria”, acredita a fundadora.

Para os próximos anos há vários planos traçados, como um novo conceito de loja que chegará em breve, mas a ambição está muito clara na cabeça de Sofia: “A nossa ideia é ser as Oakberry dos cookies”, conclui.

(Artigo publicado na edição de fevereiro/março 2026 da Forbes Portugal)

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