Bari Weiss defendeu esta semana a decisão de despedir Scott Pelley, um dos mais conhecidos jornalistas da televisão norte-americana, argumentando que os esforços para encontrar uma solução falharam e que os problemas internos tinham atingido um ponto sem retorno.
Segundo informações avançadas pelo The Guardian, a diretora editorial da CBS News afirmou durante uma reunião com colaboradores que pretendia construir uma redação assente na confiança e no respeito mútuo.
“Tentámos envolver o Scott Pelley e encontrar um caminho de regresso”, afirmou Weiss. “Não queríamos que isto acontecesse, mas foi esse o caminho que ele escolheu.”
Apesar das críticas, Weiss elogiou o trabalho desenvolvido pelo jornalista ao longo da sua carreira no programa 60 Minutes, destacando reportagens como a investigação sobre a chamada Síndrome de Havana e uma entrevista ao antigo senador republicano Ben Sasse, que sofre de cancro pancreático metastático.
Tom Cibrowski, presidente e diretor executivo editorial da CBS News, também participou na reunião e descreveu Pelley como “uma parte integrante” da estação, reconhecendo que as mudanças em curso são “muito para processar”.
Scott Pelley foi despedido na terça-feira, após um confronto com Nick Bilton, o novo produtor executivo de 60 Minutes. Segundo vários meios de comunicação norte-americanos, o jornalista terá questionado duramente as credenciais de Bilton durante uma reunião interna e criticado o despedimento de vários produtores veteranos do programa.
Numa carta citada pelo The New York Times, Bilton informou que Pelley foi “despedido com justa causa e efeito imediato”, acusando-o de ter “sequestrado” a sua primeira reunião com a equipa.
Num memorando enviado aos colaboradores de 60 Minutes, o novo responsável alegou ainda ter feito “repetidas tentativas” de dialogar diretamente com Pelley durante o fim de semana para procurar um entendimento, sem sucesso.
De acordo com relatos da imprensa norte-americana, a reunião que precipitou a saída de Pelley foi particularmente tensa. O jornalista terá confrontado Bilton sobre os despedimentos recentes de produtores históricos e de outros correspondentes do programa.
Quando Bilton afirmou que Bari Weiss “ama esta instituição”, Pelley respondeu: “Ela está a matar o ‘60 Minutes’.”
Segundo as mesmas fontes, o jornalista acusou ainda Weiss, que não estava presente na reunião, de ter sido contratada pelo novo proprietário da CBS para enfraquecer a divisão de informação.
“Ela não gosta deste lugar”, terá afirmado. “Foi trazida para matar a divisão de notícias e tem feito exatamente isso.”
Após o despedimento, Pelley divulgou uma declaração na qual defendeu o legado do programa: “‘60 Minutes’ foi o programa número um da América durante décadas porque o nosso público encontra integridade, qualidade e humanidade nas nossas histórias”, afirmou.
O jornalista acusou ainda os novos proprietários da CBS de estarem a abandonar esse legado “aparentemente para conquistar um momento de favor junto da administração Trump”.
“A perda é devastadora”, acrescentou.
Pelley considera que 60 Minutes perdeu parte da sua identidade com o afastamento recente da liderança editorial e de “dois dos nossos melhores correspondentes no ar”, que, segundo afirma, foram despedidos sem motivo válido.
O antigo pivô acusou também a nova administração de lhe ter pedido para introduzir “falsidades e enviesamentos” numa reportagem politicamente sensível, instruções que garante ter ignorado.
O caso é mais um episódio da transformação em curso na CBS News desde que David Ellison concluiu a aquisição da Paramount, empresa-mãe da estação.
Ellison integrou igualmente no grupo o projeto editorial digital The Free Press, fundado por Bari Weiss, e entregou-lhe a liderança da divisão noticiosa da CBS.
Desde então, Weiss tem promovido mudanças profundas na organização, justificando-as com a necessidade de adaptar a CBS News ao século XXI.
A estratégia tem gerado resistência interna, sobretudo em 60 Minutes, que continua a ser um dos programas mais bem-sucedidos da televisão norte-americana. O episódio mais recente do formato reuniu cerca de 5,9 milhões de espectadores em direto e mantém-se regularmente como o programa não desportivo mais visto dos Estados Unidos.
Entre as saídas recentes contam-se também as correspondentes Sharyn Alfonsi e Cecilia Vega, a antiga produtora executiva Tanya Simon, o editor executivo Draggan Mihailovich e vários outros profissionais ligados ao programa.
Uma das decisões mais controversas da gestão de Weiss ocorreu no ano passado, quando ordenou a retirada de uma reportagem de 60 Minutes pouco antes da sua emissão. A peça abordava as condições enfrentadas por migrantes deportados dos Estados Unidos para uma prisão de segurança máxima em El Salvador.
Segundo o The New York Times, Weiss considerou que a reportagem necessitava de mais contexto e de declarações de responsáveis da administração Trump.
Sharyn Alfonsi, uma das jornalistas envolvidas no trabalho, contestou a decisão numa comunicação interna enviada à equipa: “Na minha opinião, retirar a reportagem agora, depois de ter ultrapassado todos os rigorosos processos internos de validação, não é uma decisão editorial. É uma decisão política”, escreveu.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





