O ESG entrou definitivamente no léxico empresarial. Tornou-se tema de conferências, relatórios e agendas estratégicas. Mas, no meio de tantas siglas e métricas, importa recentrar a discussão naquilo que verdadeiramente transforma empresas e territórios: as pessoas. É precisamente no “S” de Social que reside uma das maiores oportunidades de diferenciação competitiva das organizações portuguesas.
A recente iniciativa promovida pela Associação Empresarial de Portugal, através do projeto “Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade”, merece destaque por assumir uma visão particularmente relevante: a sustentabilidade não pode ser entendida apenas como uma obrigação ambiental ou regulatória. Tem de ser encarada como uma estratégia integrada de criação de valor, fortalecimento do ecossistema empresarial e reforço da competitividade coletiva.
Com um investimento superior a 924 mil euros e abrangendo 500 micro, pequenas e médias empresas da região Norte até 2027, o projeto aposta na capacitação, disseminação de boas práticas e fortalecimento da cadeia de valor regional. Mais do que apoiar empresas individualmente, pretende criar condições para que cresçam em conjunto, cooperem mais e estejam melhor preparadas para os desafios da transição verde e digital.
Ao longo do meu percurso profissional, quer no setor público, quer no universo empresarial e académico, fui percebendo que os territórios mais competitivos não são necessariamente os que têm mais recursos. São, muitas vezes, aqueles que conseguem criar maiores níveis de confiança, colaboração e alinhamento entre instituições, empresas, universidades e comunidades.
Foi isso que tive oportunidade de observar em diferentes contextos e, mais recentemente, no contacto diário com empresas instaladas em ecossistemas colaborativos como o Lionesa Group e o Lionesa Business Hub. A capacidade de criar pontes, gerar encontros e estimular redes de cooperação é hoje um ativo económico tão importante quanto o investimento financeiro ou a capacidade tecnológica.
É aqui que ganha relevância o conceito de “coopetição”: cooperar para competir melhor.
Os desafios atuais, da sustentabilidade à inovação, da escassez de talento à digitalização, obrigam-nos a olhar para a competitividade de forma mais colaborativa. A partilha de conhecimento, a criação de redes de inovação e a valorização conjunta dos territórios produzem benefícios impossíveis de alcançar individualmente.
E os dados confirmam-no. Um estudo da McKinsey & Company concluiu que empresas posicionadas no quartil superior em diversidade étnica e cultural apresentam 36% mais probabilidade de superar financeiramente os seus concorrentes. Já a Deloitte concluiu que empresas orientadas por propósito crescem, em média, três vezes mais rapidamente do que os seus concorrentes. Por sua vez, dados da PwC revelam que 71% dos consumidores deixam de comprar produtos ou serviços de marcas em que perderam confiança.
Estes números demonstram que diversidade, cultura organizacional, ética, confiança e impacto social deixaram de ser temas periféricos. São hoje fatores centrais de competitividade, atração de talento e reputação.
O “S” do ESG obriga precisamente a esta mudança cultural. Obriga-nos a perceber que as empresas não vivem desligadas da sociedade e que o desenvolvimento económico, ambiental e social são dimensões inseparáveis do mesmo caminho.
Nesse sentido, iniciativas como o “Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade” têm um mérito adicional: ajudam a democratizar o acesso à sustentabilidade. Muitas PME reconhecem a importância do ESG, mas não dispõem dos recursos ou do conhecimento técnico necessários para responder às novas exigências do mercado. Criar ferramentas práticas, fomentar redes de cooperação e promover capacitação será decisivo para garantir que esta transição não deixa ninguém para trás.
Talvez seja precisamente essa a principal mensagem do “S” do ESG: nenhuma empresa terá sucesso sustentável numa comunidade fragilizada. E nenhum território será verdadeiramente competitivo sem empresas capazes de cooperar entre si, investir nas pessoas e construir futuro em conjunto.
Tiago Maia,
Gestor e Empreendedor





