A felicidade organizacional em Portugal atingiu o valor mais elevado desde o início do estudo Happiness Works, em 2012. A edição de 2026, apresentada por Georg Dutschke, cofundador da Happiness Works, registou uma média de 4,0 numa escala de 1 a 5, consolidando uma trajetória de crescimento face aos 3,5 registados há 14 anos. De acordo com Georg Dutschke, isto “reflete o trabalho das empresas” e o “esforço das empresas em trabalharem cada vez mais as pessoas, os seus colaboradores”.

O estudo, desenvolvido no âmbito da iniciativa Happiness Works, promovida pela Forbes Portugal em parceria com a Happiness Works, analisou respostas de 8194 profissionais distribuídos por 11 setores de atividade e procurou identificar os fatores com maior impacto na felicidade organizacional, retenção de talento e produtividade.

Os resultados mostram uma mudança relevante nas prioridades dos colaboradores. O salário continua a ser importante, mas deixou de surgir como principal fator de retenção. Segundo a análise apresentada, o indicador com maior peso na probabilidade de permanência numa organização é a perceção de utilidade: “sinto que sou útil à organização”.

“Realização é o preditor dominante”, refere Georg Dutschke na apresentação do estudo. O modelo preditivo utilizado coloca esta variável no topo dos fatores associados à retenção, com um peso significativamente superior aos restantes indicadores. As condições financeiras surgem apenas na sétima posição.
“O salário é um pré-requisito, não uma alavanca”, refere ainda o estudo.

A análise identifica também uma forte correlação entre propósito organizacional e felicidade no trabalho. O indicador apresenta uma correlação de 0,78, a mais elevada de todo o estudo. Logo a seguir surge a variável “a organização ajuda-me a desfrutar a vida”, com uma correlação de 0,76.
Os dados sugerem que as empresas que promovem equilíbrio, tempo disponível e bem-estar conseguem reduzir de forma significativa a intenção de saída dos colaboradores. Entre os profissionais que consideram que a empresa os ajuda a desfrutar a vida, a probabilidade de saída situa-se nos 15,3%. Entre os que discordam dessa afirmação, o valor sobe para 34,8%.

“Tempo, dinheiro e bem-estar são variáveis valorizadas. E tempo vem em primeiro lugar. Mais valorizado do que o dinheiro”, realça Georg Dutschke.
Quando questionados sobre o que necessitam para desfrutar melhor da vida, 42% dos participantes apontaram mais tempo, através de horários flexíveis, redução de sobrecarga ou modelos como a semana de quatro dias. Outros 32% referiram salário adequado à função e 26% destacaram fatores ligados ao bem-estar, como teletrabalho, férias ou planos de saúde.
Uma das respostas citadas na apresentação resume essa expectativa: “Calma, paz, tranquilidade emocional e não sobrecarga de trabalho”, escreveu uma enfermeira do setor público. “Poder impactar no outro cria valor”, afirmou Georg Dutschke.

O estudo conclui também que o modelo de trabalho, remoto, híbrido ou presencial, tem hoje um impacto reduzido nos níveis de felicidade organizacional. Os três formatos apresentam resultados praticamente idênticos, entre 4,0 e 4,1 pontos.
Segundo Georg Dutschke, o debate sobre o local de trabalho pode estar a desviar a atenção dos fatores realmente determinantes, como liderança, autonomia, reconhecimento e propósito.
A análise identifica ainda diferenças relevantes entre setores. Construção e Imobiliário lideram o ranking de felicidade organizacional com 4,3 pontos, seguidos por Comunicação e Informação com 4,2. No extremo oposto surge o Estado, com 3,3 pontos, o valor mais baixo entre os setores analisados.

Outro dos sinais considerados preocupantes é a quebra progressiva de felicidade ao longo da carreira. Os profissionais com menos de 25 anos apresentam um nível médio de felicidade de 4,3 pontos, enquanto nos colaboradores com mais de 55 anos o valor desce para 3,8.
O estudo aponta possíveis explicações para esta diferença, incluindo menor progressão profissional, reconhecimento insuficiente da experiência acumulada e menor evolução salarial nas fases mais avançadas da carreira.
A apresentação destaca ainda o impacto económico associado à felicidade organizacional. Comparando profissionais considerados felizes com os restantes participantes, o estudo identificou menos 69% de probabilidade efetiva de saída, menos 45% de vontade de abandonar a empresa, mais 7% de produtividade percecionada e mais 46% de probabilidade de recomendar a organização a terceiros.
“O colaborador que se sente ser feliz falta menos. O estar feliz na empresa influencia também a vontade de sair da empresa. Quem tem menos vontade, também tem menos probabilidade de abandonar a empresa”, realça Georg Dutschke.

“Sem sentido de utilidade, a probabilidade de saída é muito elevada”, refere a apresentação. “O propósito formal sem reflexo no dia a dia origina desconfiança. É fundamental estar alinhado com o projeto de vida do colaborador.”
No entendimento de Georg Dutschke, uma das ideias-chave da atualidade no mundo do trabalho é a “flexibilidade: é o que os colaboradores procura. As pessoas veem o trabalho em sim como um meio não um fim”. Perceber isso é estar mais perto de conseguir criar condições para reter pessoas, frisou este especialista.





