Stephen Colbert abriu o último episódio do “The Late Show” com um discurso dirigido diretamente ao público, num momento fora do formato habitual do programa norte-americano.
Antes do início formal da emissão, o apresentador explicou que costuma conversar com a audiência presente em estúdio antes de cada gravação, mas que desta vez quis também incluir quem acompanhava o programa a partir de casa.
“Este programa, quero que saibam, foi uma alegria para nós fazê-lo para vocês”, afirmou Colbert no arranque da emissão.
Ao longo de cerca de dois minutos, o humorista e apresentador referiu-se ao “Late Show” como a “Joy Machine” (“Máquina de Alegria”), numa referência à banda do programa, liderada por Louis Cato e conhecida como “Louis Cato and the Great Big Joy Machine”.
Colbert brincou com o nome da banda ao dizer: “Louis roubou-nos isso e estamos atualmente em litígio. Mais vale arranjares um advogado.”
O apresentador explicou que o programa precisava de funcionar como uma “máquina” para conseguir produzir mais de 1.800 episódios ao longo de 11 anos, mas acrescentou que fazê-lo “com alegria” tornava o processo mais suportável.
“Se escolhermos fazê-lo com alegria, dói menos quando os dedos ficam presos nas engrenagens”, afirmou.
Durante o discurso, Colbert destacou também a relação criada entre a equipa do programa e o público ao longo da última década: “Não consigo explicar adequadamente aquilo que as pessoas que trabalham aqui fizeram umas pelas outras e o quanto significam umas para as outras”, disse.
O apresentador recordou ainda uma frase do primeiro episódio do “The Colbert Report”, programa satírico que apresentou antes do “Late Show”: “Qualquer pessoa pode ler-vos as notícias. Eu prometo senti-las convosco.”
Segundo Colbert, percebeu rapidamente que o objetivo do programa não era apenas comentar a atualidade, mas “sentir as notícias com o público”.
“Não sei quanto a vocês, mas eu certamente senti tudo isto”, afirmou.
Já perto do final da mensagem, Colbert perguntou a Louis Cato como descreveria a relação entre o programa e os espectadores. O músico respondeu: “Uma relação emocional recíproca.”
Colbert concordou: “É exatamente isso, porque nós adoramos fazer este programa para vocês, mas o que realmente adoramos é fazer este programa convosco.”
O apresentador terminou com a frase que diz ter repetido em todas as gravações ao longo dos últimos 11 anos: “Tenham um bom programa. Obrigado por estarem aqui. Vamos a isto.”
Programa satírico “The Late Show” termina após pressão de Trump contra apresentador
O programa satírico norte-americano “The Late Show” vai hoje para o ar pela última vez, ao fim de 33 anos, num cancelamento pela estação CBS que o apresentador, Stephen Colbert, e outros consideram cedência a pressões de Donald Trump.
Nas últimas semanas, o “The Late Show” recebeu vários convidados de alto nível, incluindo o ex-presidente Barack Obama, o ator Tom Hanks e a apresentadora Oprah Winfrey, tendo todos manifestado apoio face à decisão da CBS de tirar do ar o programa líder de audiências no seu horário.
Na quarta-feira, para o penúltimo programa, o cantor Bruce Springsteen, crítico assumido de Donald Trump, compareceu para demonstrar o seu apoio ao apresentador.
“És o primeiro tipo nos Estados Unidos a perder o programa porque temos um Presidente que não tolera uma piada”, disse o célebre compositor.
No palco do teatro Ed Sullivan, na Broadway nova-iorquina, Springsteen interpretou ainda “Streets of Minneapolis”, o seu hino musical contra a repressão da imigração no país.
A CBS insistiu que a decisão de cancelar o “The Late Show” foi puramente financeira, sem relação com os esforços da Paramount, sua empresa-mãe, para obter a aprovação do governo para a sua fusão de 8,4 mil milhões de dólares com a Skydance Media.
Mas muitos, incluind o apresentador de 62 anos, viram na decisão a mão do Presidente norte-americano, em guerra aberta contra os media que considera hostis.
Colbert chegou a apelidar de “grande suborno” um pagamento de 16 milhões de dólares feito pela Paramount a Trump, numa queixa após uma polémica sobre a edição de uma entrevista com a sua antiga rival presidencial, Kamala Harris.
Em várias ocasiões, o Trump considerou a CBS “fora de controlo”, chamando a Colbert “um desastre patético” que precisava de ser “tirado de cena”.
Desde então, a jornalista e empresária de media Bari Weiss foi nomeada chefe da CBS News, onde promoveu uma reestruturação.
Tal como os seus colegas de outros ‘talk shows’ noturnos, Stephen Colbert é um acérrimo crítico do Presidente republicano, implacavelmente satirizado no ar.
Colbert ficou visivelmente emocionado na semana passada quando foi acompanhado em direto pelos seus colegas e concorrentes de outras estações — Jimmy Kimmel, Seth Meyers, John Oliver e Jimmy Fallon — que vieram prestar homenagem e expressar o seu apoio.
O próprio Kimmel foi brevemente afastado do ar em setembro de 2025 pela sua estação, a ABC, após uma reação negativa dos republicanos por um comentário que fez sobre o assassínio do influenciador ultraconservador Charlie Kirk.
Depois de se iniciar no teatro de improviso, Stephen Colbert entrou na carreira televisiva em 1995, antes de se juntar ao “The Daily Show” de Jon Stewart em 1997, encarnando um apresentador conservador reacionário.
Foi com esta personagem que criou o seu próprio programa, “The Colbert Report”, em 2005, antes do auge da sua carreira com “The Late Show” dez anos depois.
Para o futuro, Stephen Colbert admitiu lançar um novo programa, sem adiantar pormenores.
Grande fã do universo do autor britânico Tolkien, anunciou ainda que vai escrever com o realizador neozelandês Peter Jackson um novo filme baseado em “O Senhor dos Anéis”.
Para o episódio final do programa, gravado hoje, a lista de convidados foi mantida em segredo.
Na semana passada, Stephen Colbert recebeu também o antigo apresentador e criador do programa, David Letterman, que substituiu em 2015. Em jeito de crítica, os dois subiram ao telhado do edifício e atiraram móveis do estúdio para um grande logótipo da CBS colocado no passeio.
“Podem tirar o programa a um homem”, disse David Letterman. “Mas não lhe podem tirar a voz.”
Trump regozija-se com fim de programa televisivo “The Late Show”
Donald Trump comemorou a última emissão do programa televisivo satírico “The Late Show” da autoria do comediante Stephen Colbert: “Colbert, finalmente, acabou na CBS. Incrível que tenha durado tanto tempo!”, escreveu o líder dos EUA na sua plataforma digital Truth Social.
Para Trump, Colbert estava “sem talento, sem audiência, sem vida (…) como um morto”.
“Qualquer pessoa na rua seria melhor do que aquele completo idiota. Graças a Deus, finalmente foi-se!”, escreveu o presidente norte-americano.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé com Lusa também





