A ARCOlisboa é a principal feira internacional de arte contemporânea em Portugal que vai para a 9ª edição, fazendo de Lisboa um ponto de encontro para colecionadores, galeristas, artistas e profissionais do setor quer nacionais, quer internacionais.
A feira decorre na Cordoaria Nacional entre os dias 28 e 31 de maio, estando previstos, neste momento, mais de 450 artistas e 83 galerias de 17 países.
À Forbes Portugal, Rita Sousa Tavares, coordenadora local da ARCOlisboa, fala do evento deste ano, do peso financeiro do mercado da arte contemporânea e do tipo de compradores de arte que procuram Lisboa para fazer as suas aquisições.

A ARCOlisboa começou como uma aposta cultural e tornou-se também uma plataforma económica. Hoje, qual é o verdadeiro peso financeiro do mercado da arte contemporânea em Portugal?
É muito difícil de aferir em números redondos e qualquer tentativa minha seria sempre por sugestão. Existe uma lacuna em termos de dados de desempenho financeiro para a representação da cultura em Portugal e em particular no setor das vendas de arte. Ou seja, o impacto da arte contemporânea não pode ser apenas valorizado pelo valor tangível.
A ARCOlisboa tem um impacto estratégico no setor do mercado da arte que se reflete numa projeção global de Portugal e dos artistas portugueses. É sem dúvida o principal, ou um dos principais, instrumentos de promoção internacional de Lisboa como capital de arte contemporânea, atrai turismo cultura, que é o mais qualificado e aquele com maior impacto económico. Por outro lado, funciona como um agente no setor, sendo sem dúvida um dos principais catalisadores que estimulou a abertura de novas galerias em Portugal na última década e atraiu outros eventos contribuindo para um ecossistema mais robusto, profissional e internacionalizado. Por fim, contribuiu para incentivar um investimento mais focado na área artística institucional de arte e, ano após ano, introduz novos visitantes nacionais e internacionais aos museus e galerias do país.
“A ARCOlisboa atrai turismo cultura, que é o mais qualificado e aquele com maior impacto económico”
Voltando ao peso financeiro das vendas, no caso da ARCOlisboa, o valor total de vendas das galerias é reservado. O que sabemos é que existe uma consistência na participação das galerias ao longo destes anos e isso serve por si só de barómetro e indicador, assim como o aumento do número de galerias, de espaços artísticos, de prémios corporativos de aquisição, prémios de colecionismo. Tudo isso prova o aumento do investimento em arte contemporânea no mercado português.
Para perceber mais sobre a dinâmica do peso financeiro do mercado da arte contemporânea e daí retirar a leitura possível para Portugal, é importante ler anualmente o relatório da UBS em parceria com a Art Basel – The Art Basel and the UBS Global Art Market Report. Basicamente, o ano de 2025 foi de recuperação, depois de uma queda violenta que se fez sentir em 2023 e 2024. O mercado de arte global apresentou um aumento de 4% nas vendas globais em 2025 para um total estimado de 59,6 mil milhões de dólares, mas este valor continua abaixo do pico de 67,8 mil milhões de dólares atingido em 2022, e como sabemos, o mercado está a operar num contexto geopolitico instável ou volátil, pelo que a recuperação pode demorar algum tempo.
“O mercado de arte global apresentou um aumento de 4% nas vendas globais em 2025 para um total estimado de 59,6 mil milhões de dólares”
O perfil do colecionador mudou nos últimos anos? É português ou é estrangeiro?
Eu diria que continua a ser sobretudo português, mas começamos sem dúvidas a contar com coleções de arte de expats muito interessantes em Portugal. Brasileiros, franceses, belgas, americanos, turcos e até canadianos. Todos os anos escolhemos um conjunto de coleções privadas em Lisboa para visitarmos durante a ARCOlisboa com o grupo de colecionadores internacionais de arte que a feira convida, disponibilizando voos, hotel e um programa artístico intenso para além da visita à feira, neste programa têm aparecido cada vez mais casas estrangeiras o que enriquece muitíssimo o panorama, não só em termos de artistas representados, como em termos de experiência de colecionismo.
Estamos perante compradores mais passionais ou mais investidores atentos ao potencial de valorização das obras?
Não conheço ninguém que compre arte apenas pelo seu potencial de valorização. Primeiro vem a empatia, a ligação à peça, primeiro vem a paixão. Quem compra arte gosta de arte e quer viver com a peça que adquire, ou tê-la no seu acervo ou coleção; caso contrário, provavelmente apostaria noutro tipo de investimento financeiro. Dito isto, os compradores tendem a ter uma atitude ponderada. Pelos menos os que conheço.
Na feira, assisto frequentemente à pergunta feita aos galeristas, sobretudo por parte dos compradores menos experientes, quando já se apaixonaram pela peça, já tomaram a decisão e estão a querer fechar o negócio: “Acha que isto se vai valorizar?”, mas sinto que é quase um conforto final para justificar a compra.
“Quem compra arte gosta de arte e quer viver com a peça que adquire, ou tê-la no seu acervo ou coleção; caso contrário, provavelmente apostaria noutro tipo de investimento financeiro”.
Depois, há os compradores informados, que fazem o trabalho de casa e conhecem o contexto e o percurso dos artistas. Esses sabem que certos nomes lhes dão mais segurança, mas muitas vezes apostam no desconhecido e nos artistas mais emergentes. O que noto é que há cada vez mais compradores bem informados, naturalmente porque hoje há acesso a muito mais informação.
Se olharmos para trás percebemos que as grandes coleções mundiais de arte fizeram-se com apostas em artistas emergentes que estavam a começar, com muita paixão, e não apenas em apostas racionais e “seguras”. As grandes coleções de arte fizeram-se por pessoas que têm capacidade de ver para além dos números.

A verdade é que quem compra uma peça de arte com paixão raramente se arrepende; arrependem-se mais os que compram apenas por investimento. Viver com arte de que gostamos, que nos faz questionar e que enriquece o nosso dia a dia, o nosso imaginário e o dos nossos filhos, é muito mais gratificante do que assistir à valorização financeira de um investimento. Os dividendos retirados da convivência diária com a arte não podem por isso ser subestimados nesta equação.
“Se olharmos para trás percebemos que as grandes coleções mundiais de arte fizeram-se com apostas em artistas emergentes que estavam a começar, com muita paixão, e não apenas em apostas racionais”.
Que tipo de colecionadores internacionais estão hoje a olhar para Portugal? Há nacionalidades ou perfis de investidores particularmente ativos nesta edição da ARCOlisboa?
Sim, colecionadores belgas, brasileiros e espanhóis. São as principais nacionalidades dos colecionadores internacionais que sabemos de antemão que visitarão a ARCOlisboa este ano.
A arte contemporânea tornou-se um ativo. O mercado português já acompanha essa lógica mais financeira?
Nos termos descritos em cima, acho que sim. Temos artistas portugueses muito bons e muito valorizados internacionalmente.
“Quem compra uma peça de arte com paixão raramente se arrepende; arrependem-se mais os que compram apenas por investimento”.
Há hoje uma nova geração de colecionadores portugueses? Se sim, que diferenças existem entre os colecionadores mais antigos e os compradores mais jovens que entram agora no mercado?
Começa a haver sim. Há sinais claros do surgimento de uma nova geração de colecionadores/compradores de arte em Portugal, embora este movimento esteja numa fase inicial.
Os grandes colecionadores de arte portugueses, da geração que tem hoje entre 60 e 80 anos, são na sua maioria homens, frequentemente empresários com poder de compra.
A nova geração de compradores de arte tem um perfil mais diversificado em termos de género e origem, incluindo jovens profissionais e expats, são no fundo o reflexo da evolução da sociedade portuguesa como um todo.

A ARCOlisboa tem investido muito na divulgação da feira junto dos jovens e de há três anos para cá, com o apoio do Ministério da Cultura, abrimos as portas da feira de forma completamente gratuita a todos os jovens até aos 25 anos. Isto é importante porquê? Porque estamos a apostar no futuro e na sustentabilidade deste setor. Estes jovens serão os colecionadores, curadores, artistas, galeristas diretores dos museus e os empresários deste mercado amanhã. É fundamental que as gerações se renovem, e só através da promoção do gosto de ver arte se consegue renovar esta geração.
As novas gerações não começam a comprar arte só porque sim, ou só porque está na moda, não, elas têm que ser lavadas, convidadas, seduzidas, contextualizadas, têm que ver, ver e ver, têm que ter contacto com este mercado. Em Portugal e pelo mundo fora.
Não é por acaso que as galerias mais jovens e mais inovadores estão a ter um bom desempenho a nível de vendas, é porque elas sabem comunicar com as novas gerações.
“Abrimos as portas da feira de forma completamente gratuita a todos os jovens até aos 25 anos. Isto é importante porquê? Estes jovens serão os colecionadores, curadores, artistas, galeristas diretores dos museus e os empresários deste mercado amanhã”.
Este ano, a ARCOlisboa está prevista ter, neste momento, 83 galerias de 17 países. O que torna Lisboa atrativa para o circuito global da arte contemporânea neste momento?
A cidade está sem dúvida a viver um período de grande dinamismo, alimentado pela chegada de uma nova onda de residentes internacionais, mas também de um turismo mais qualificado.
Este novo público, composto por profissionais de tecnologia, nómadas digitais, reformados com poder de compra e empresários estrangeiros, está a injetar um novo poder de compra e interesse no mercado artístico local.
Basta ver o público que vai hoje às inaugurações das galerias em Lisboa, galerias essas, que em alguns casos são estrangeiras e estão aqui estabelecidas.

No que toca à ARCOlisboa, desde 2016, ela é intencionalmente, muito mais do que uma feira de arte e de um evento concentrado na Cordoaria Nacional. É uma celebração da arte na cidade e um motor que muito tem contribuído para ativar todo a ecossistema artístico. Assim, como já tem vindo a acontecer em articulação com as principais instituições culturais lisboetas, a par da feira concebemos um programa paralelo dirigido a convidados nacionais e estrangeiros, que inclui inaugurações, visitas a exposições, coleções privadas, jantares, e outras atividades.
A ARCOlisboa converteu-se numa verdadeira art week, e a par dos conteúdos das galerias representadas, a feira conta com um programa intenso de conversas sobre arte – aberto a todo o público de forma gratuita, duas grandes exposições, em cada um dos torreões, uma área toda reservada a edições de arte, entre muitas outras atividades.





