“Para não ficarmos na periferia, precisamos de transformar despesa na defesa em investimento estratégico”

A ASD Convention trouxe a Lisboa alguns dos principais decisores da indústria aeroespacial e de defesa europeia. Que sinal é que Portugal deu ao acolher este evento neste momento? Ao acolher a ASD Convention 2026 em Lisboa, Portugal enviou um sinal inequívoco de que está pronto para ser um polo de inovação e de capacidade industrial…
ebenhack/AP
"Nos próximos cinco a dez anos, Portugal pode afirmar-se como uma plataforma atlântica para a inovação em aeronáutica, espaço e defesa", é a convicção de José Neves, Presidente da AED Cluster Portugal que aponta, nesta entrevista à Forbes, algumas exigências para que isso aconteça.
Economia

A ASD Convention trouxe a Lisboa alguns dos principais decisores da indústria aeroespacial e de defesa europeia. Que sinal é que Portugal deu ao acolher este evento neste momento?
Ao acolher a ASD Convention 2026 em Lisboa, Portugal enviou um sinal inequívoco de que está pronto para ser um polo de inovação e de capacidade industrial no coração da estratégia de defesa europeia.

Não se tratou apenas da realização de um evento, foi um momento de afirmação nacional perante alguns dos principais líderes industriais, institucionais e políticos da Europa. Coorganizada pela ASD Europe e pela AED Cluster Portugal, a convenção reuniu executivos, decisores políticos e especialistas num contexto de profunda transformação estratégica para o continente. Para nós, isso demonstra que Portugal já não deve ser visto como um mercado periférico, mas como uma plataforma atlântica de inovação, talento, engenharia e cooperação industrial. O sinal que demos foi de maturidade, abertura e ambição.

Portugal investe em defesa, com 2% do PIB em 2025 – o nível mais alto dos últimos 50 anos –  e tem a ambição de contribuir para a autonomia estratégica europeia. O nosso papel, enquanto AED Cluster Portugal, é transformar esta visibilidade em parcerias de longo prazo. Nesse sentido, convidamos OEM (fabricantes de equipamentos originais), investidores e institutos de pesquisa a explorar o nosso cluster, um ecossistema com mais de 80% de PME ágeis, certificadas NATO e focadas em soluções de defesa sustentáveis. Juntos, podemos acelerar a entrega de capacidades europeias à escala que o continente necessita.

“Portugal já não deve ser visto como um mercado periférico, mas como uma plataforma atlântica de inovação, talento, engenharia e cooperação industrial”

O setor da defesa está a ganhar um novo peso político e económico na Europa. Portugal está preparado para acompanhar este ciclo de investimento ou corre o risco de ficar na periferia?
Portugal tem todas as condições para surfar a nova onda de investimento em defesa na Europa. Mas transformar despesa em investimento estratégico será a chave para não ficar à margem.

Temos hoje uma indústria muito diferente da que existia há duas década. Há capacidade em aeronáutica, espaço, sistemas autónomos, comunicações, software, ciberdefesa, materiais avançados e integração de sistemas. Mas, para não ficarmos na periferia, precisamos de transformar despesa em investimento estratégico.

A Europa criou instrumentos de dimensão inédita, como o SAFE, que prevê até 150 mil milhões de euros em empréstimos para investimentos em defesa, e Portugal apresentou um plano de investimentos de 5,8 mil milhões de euros até 2030. Se envolvermos a indústria nacional desde o início, estaremos a criar emprego, tecnologia, exportações e soberania económica.

Por isso, a AED tem defendido um triângulo virtuoso entre Governo, Forças Armadas e indústria. A decisão operacional cabe naturalmente às Forças Armadas e ao poder político; mas o desenho da cooperação industrial beneficia do envolvimento quem conhece a capacidade produtiva e tecnológica nacional. Em conjunto, acreditamos ser possível transformar este ambicioso plano em resultados concretos e garantir que Portugal deixe de ser “periférico” para se tornar um ponto de referência no ecossistema de defesa da UE.

“Se envolvermos a indústria nacional desde o início, estaremos a criar emprego, tecnologia, exportações e soberania económica”.

Quando se fala de defesa, fala-se cada vez mais de indústria e menos apenas de capacidade militar. Que papel pode Portugal ambicionar nas cadeias de valor europeias?
Portugal pode ambicionar um papel muito mais relevante do que o de fornecedor pontual. A nossa ambição deve ser subir na cadeia de valor: passar de Tier 3 para Tier 2, de Tier 2 para Tier 1 e, em áreas onde temos competências próprias, fornecer diretamente grandes fabricantes e programas internacionais. Ou, como já sucede hoje, a liderança ser realizada por empresas nacionais.

José Neves, Presidente da ASD Cluster

Temos capacidades na fase inicial do ciclo, desde a conceção, à engenharia, desenvolvimento, software, integração, que são precisamente as fases de maior valor acrescentado. Temos também competências em manutenção, produção aeronáutica, satélites, drones, comunicações, comando e controlo, ciberdefesa e sistemas dual-use.

O objetivo não é Portugal fazer tudo. Isso não seria realista. O objetivo é Portugal ser indispensável em partes críticas das cadeias de valor europeias. É aí que se constrói soberania tecnológica e económica.

“O objetivo é Portugal ser indispensável em partes críticas das cadeias de valor europeias. É aí que se constrói soberania tecnológica e económica”.

A AED Cluster Portugal reúne mais de 180 entidades. Em termos concretos, que impacto económico já está hoje a gerar este ecossistema e qual é o seu potencial de crescimento?
Os dados públicos mais recentes mostram que estamos perante um ecossistema com impacto económico real. Em 2024, os setores da aeronáutica, espaço e defesa em Portugal representaram cerca de 2,1 mil milhões de euros de volume de negócios, aproximadamente 20 mil postos de trabalho e uma orientação exportadora muito forte: 92% do que é produzido é exportado. O Cluster integra hoje mais de 180 entidades, entre empresas, universidades e centros de investigação.

Mas mais importante do que o ponto de partida é o potencial. Este é um setor intensivo em conhecimento, com emprego qualificado, forte incorporação tecnológica e capacidade de arrastamento para outros setores da economia. Quando desenvolvemos competências em defesa, desenvolvemos também competências em software, eletrónica, materiais, comunicações, espaço, automação e cibersegurança.

O potencial de crescimento é muito significativo, sobretudo se Portugal conseguir ligar os grandes ciclos de aquisição e investimento à indústria nacional. A defesa pode ser uma alavanca para a economia portuguesa, desde que seja tratada como economia de defesa e não apenas como aquisição militar.

“Quando desenvolvemos competências em defesa, desenvolvemos também competências em software, eletrónica, materiais, comunicações, espaço, automação e cibersegurança”.

Muito se fala da necessidade de “comprar europeu”. Mas isso implica também produzir na Europa. Portugal tem escala e competências para ir além do papel de fornecedor e assumir funções de maior valor acrescentado?
Portugal tem competências avançadas, e a escala necessária será construída através de especialização inteligente, cooperação transnacional e integração de cadeias. Não pretendemos copiar a dimensão industrial dos grandes países, pretendemos ser o parceiro europeu de alto valor nas áreas em que já somos fortes.

Comprar europeu tem de significar também produzir europeu, desenvolver europeu e integrar europeu. E Portugal tem condições para assumir funções de maior valor acrescentado em engenharia, software crítico, sistemas autónomos, MRO, integração de sistemas, componentes aeronáuticos, tecnologias espaciais e soluções dual-use.

A escala constrói-se com previsibilidade, certificação, investimento em talento e contratos de longo prazo. É por isso que defendemos que as grandes aquisições devem incluir compromissos industriais mensuráveis, acompanhados ao longo do ciclo de vida dos programas. Só assim se cria valor duradouro em Portugal, projetando as empresas num sector complexo, mas com um potencial de crescimento imenso. Ao transformar “comprar europeu” em “produzir e inovar na Europa”, Portugal não só aumentará a sua presença nas cadeias de valor, como também contribuirá para uma soberania tecnológica duradoura da União Europeia.

“Comprar europeu tem de significar também produzir europeu, desenvolver europeu e integrar europeu. E Portugal tem condições para assumir funções de maior valor acrescentado”.

O Governo tem também em cima da mesa projetos como a eventual fábrica da Embraer em Beja. Qual o ponto de situação acerca deste projeto?
O ponto de situação público é que o Governo tem vindo a assumir esse projeto como uma possibilidade cada vez mais concreta. O ministro da Defesa Nacional referiu recentemente que o Governo está a dar “passos largos” para a instalação em Beja de uma fábrica da Embraer dedicada ao Super Tucano, depois de uma carta de intenção assinada em dezembro de 2025. Também foi referido publicamente que a expectativa seria concretizar o projeto até ao final de 2026, seguindo-se a fase de adaptação de infraestruturas.

Da nossa parte, olhamos para esse projeto com elevado interesse estratégico. A Embraer tem uma relação profunda com Portugal, através da OGMA, do KC-390 e de competências de engenharia já instaladas no país. Uma nova capacidade industrial em Beja poderia reforçar o eixo aeronáutico nacional, criar emprego qualificado no interior e ampliar a presença portuguesa em programas internacionais.

Mas importa sublinhar que cabe ao Governo e à empresa anunciar decisões formais. O AED Cluster Portugal dispõe-se a contribuir para que, se o projeto avançar, tenha o máximo impacto possível no ecossistema nacional.

“Uma nova capacidade industrial em Beja poderia reforçar o eixo aeronáutico nacional”

Este tipo de investimento pode transformar estruturalmente o cluster nacional ou são oportunidades isoladas?
Sim, o investimento pode ser um motor de transformação estrutural do AED Cluster, mas isso só acontece se for inserido dentro de uma estratégia de longo prazo e não tratado como uma série de oportunidades pontuais.

Uma fábrica, uma linha de montagem ou um contrato internacional são relevantes, mas o verdadeiro impacto surge quando esses projetos geram fornecedores locais, qualificam PME, criam engenharia, estimulam centros tecnológicos, desenvolvem talento e abrem portas a novos mercados. É esse efeito multiplicador que procuramos.

Portugal tem de evitar o erro de olhar para cada investimento como uma exceção. Precisamos de criar um modelo replicável, atrair projeto, envolver indústria nacional, medir incorporação, qualificar fornecedores, acompanhar execução e transformar cada oportunidade numa plataforma para a seguinte.

Portugal está pronto para transformar cada contrato em plataforma de crescimento. Convidamos OEM, investidores e instituições europeias a incluir cláusulas de subcontratação local nos seus programas, a cofinanciar centros de excelência que apoiem a qualificação de fornecedores e a participar de consórcios onde o AED Cluster seja parceiro de integração e teste.

Ao fazer isso, cada investimento deixa de ser uma exceção e passa a ser um pilar de uma indústria de defesa europeia mais resiliente e competitiva, com Portugal como hub de alto valor no ecossistema.

“Portugal tem de evitar o erro de olhar para cada investimento como uma exceção. Precisamos de criar um modelo replicável, atrair projeto, envolver indústria nacional”

As PME são frequentemente apontadas como peças-chave deste ecossistema. As PME nacionais estão preparadas para responder à escala e exigência destes projetos internacionais?
Muitas PME portuguesas já estão preparadas e demonstram isso diariamente nos mercados internacionais. Temos empresas altamente especializadas, exportadoras, com competências muito avançadas em engenharia, software, materiais, fabrico de precisão, sistemas autónomos, espaço e cibersegurança.

Mas também temos de ser claros, a exigência destes programas é muito elevada. Requer certificações, escala financeira, capacidade de produção, compliance, cibersegurança, talento especializado e previsibilidade de contratos. Por isso, o papel do Cluster é ajudar a criar pontes entre as PME, os grandes integradores, os instrumentos europeus e os decisores institucionais.

A própria Convenção da ASD teve um programa dedicado às PME, precisamente para transformar contactos em contratos e ideias em escala, aproximando empresas inovadoras de grandes contratantes, investidores, UE, NATO e instrumentos como EDF, EDIP, EIC Accelerator e NATO DIANA.

“Temos empresas altamente especializadas, exportadoras, com competências muito avançadas em engenharia, software, materiais, fabrico de precisão, sistemas autónomos, espaço e cibersegurança”

Olhando para os próximos cinco a dez anos, que posição é que julga que Portugal vai ter no mapa europeu da aeronáutica e defesa?
Nos próximos cinco a dez anos, Portugal pode afirmar-se como uma plataforma atlântica para a inovação em aeronáutica, espaço e defesa, com especial destaque para tecnologias dual-use. Não seremos o maior país europeu nestes setores, mas podemos ser um dos mais inteligentes na forma como nos posicionamos.

A nossa ambição deve ser clara, a de reforçar a presença nas cadeias de valor europeias, aumentar exportações, atrair investimento, desenvolver competências críticas e transformar talento científico e tecnológico em produtos, serviços e capacidade industrial. Hoje, as exportações de defesa ainda têm um peso reduzido no total nacional, mas existe ambição para que possam chegar a 2% ou 3% num horizonte de cerca de 10 anos.

O futuro dependerá da nossa capacidade de trabalhar em conjunto. Governo, Forças Armadas, empresas, universidades e centros de investigação têm de estar alinhados. O AED Cluster Portugal está disponível para continuar a ser esse ponto de encontro: agregador, catalisador e representante de um ecossistema que quer contribuir para a segurança da Europa e para o desenvolvimento económico de Portugal.

Mais Artigos