Imobiliário em Portugal: entre atratividade global e bloqueios internos

Imobiliário em Portugal
Moderada por Ana Filipa Rosa, a sessão reuniu Nuno Durão (Managing Partner da Fine & Country Portugal), Ricardo Amantes (Diretor do Departamento Comercial e de Investimentos na Coporgest), Ricardo Louro (Advogado e Managing Partner da Beyond Legal) e João Gameiro (Regional Sales Manager da FROM/Euroglobal), que convergiram numa ideia-chave: Portugal mantém-se altamente competitivo à escala global,…
ebenhack/AP
Nova rubrica Forbes Sessions – The Blueprints by Forbes Lab arranca com conversa sobre um setor determinante da economia portuguesa: o imobiliário. Ao longo de uma hora, protagonistas na área traçaram um retrato abrangente, e nem sempre confortável, de um mercado que atrai investimento internacional, mas enfrenta bloqueios estruturais
Forbes LAB

Moderada por Ana Filipa Rosa, a sessão reuniu Nuno Durão (Managing Partner da Fine & Country Portugal), Ricardo Amantes (Diretor do Departamento Comercial e de Investimentos na Coporgest), Ricardo Louro (Advogado e Managing Partner da Beyond Legal) e João Gameiro (Regional Sales Manager da FROM/Euroglobal), que convergiram numa ideia-chave: Portugal mantém-se altamente competitivo à escala global, mas precisa de resolver fragilidades internas para sustentar esse posicionamento. Na introdução da conversa, Nuno Durão começou por afirmar que “O imobiliário é um barómetro da confiança na economia”, defendendo que a atração de capital estrangeiro é essencial para o crescimento do país.

Nesse sentido, recordou que “muitos investidores iniciam a relação com Portugal via turismo ou estadias temporárias, evoluindo para decisões de investimento estruturadas”. Ainda assim, alertou para o risco de decisões políticas e mediáticas que comprometem essa dinâmica: “Temos um mercado que funciona e outro que não, e há uma tentação de destruir o que funciona em vez de resolver o que está mal.” A crise da habitação foi outro tema central, sendo definido como um problema estrutural agravado pelo aumento dos custos de construção e escassez de oferta. “A nossa crise é da classe média, da primeira habitação, não no luxo”, explicou Ricardo Loura, acrescentando que “os custos de construção chegaram a triplicar no pós-pandemia, sem correspondência no aumento dos rendimentos, o que dificultou o acesso à habitação”.

No entanto, o país continua a beneficiar de uma combinação rara de fatores: estabilidade social, segurança, qualidade de vida e infraestruturas. “Portugal é visto como um refúgio seguro num mundo instável”, afirmou Ricardo Amantes, destacando o impacto do teletrabalho e da mobilidade global na decisão de investimento. “Hoje, muitos estrangeiros não vêm apenas temporariamente, mas para viver”, referiu, sublinhando-se que a centralidade geográfica, a facilidade de deslocação no território e a qualidade dos serviços de saúde e educação reforçam essa atratividade.

Nova lógica do investimento

Tal, reflete-se no perfil da procura. Mais do que localização ou preço, os investidores procuram experiências integradas e diferenciadoras. “Hoje, vende-se lifestyle, identidade, uma experiência completa”, explicou João Gameiro, apontando para o crescimento de projetos que integram serviços, marca e curadoria, como as branded residences, onde “o imóvel deixa de ser apenas um ativo físico para se tornar numa proposta de valor mais ampla, associada a bem-estar, conveniência e prestígio”.

Apesar deste cenário favorável, persistem entraves, como a morosidade dos processos administrativos e judiciais. Ricardo Louro foi direto: “Uma justiça tardia não é justiça”, sublinhando que a falta de previsibilidade nos prazos compromete decisões de investimento, lembrando “os processos de Golden Visa que se arrastam anos, contrariando os prazos legais e fragilizando a confiança no sistema”. Também a burocracia e a complexidade dos procedimentos são obstáculos. “Quanto demora abrir uma empresa ou aprovar um projeto? Não sabemos”, resumiu, evidenciando a necessidade de “maior eficiência institucional”, face à dificuldade em ter respostas rápidas da administração pública e a sobrecarga dos serviços que penalizam a competitividade do país.

 

Urgência de uma resposta integrada

Outro desafio passa pela organização do território e pressão crescente sobre os centros urbanos. O aumento dos preços “empurra” a população para a periferia, muitas vezes sem infraestruturas e redes de transporte que suportam essa expansão. “Sem um plano nacional de infraestruturas e mobilidade, é impossível resolver o problema da habitação de forma sustentável”, defendeu João Gameiro, sublinhando a importância de uma ação integrada e de longo prazo.

A necessidade de repensar o papel do Estado foi outro ponto recorrente. Para Nuno Durão, o caminho passa mais por facilitar do que por intervir diretamente: “O Estado pode ajudar, saindo da frente”, afirmou, defendendo “a redução de cargas fiscais e a simplificação de processos como forma de estimular o investimento e aumentar a oferta”. Ao mesmo tempo, destacou que “a atração de capital estrangeiro deve ser vista como uma oportunidade estratégica e não um problema”.

Não obstante, o tom geral foi de otimismo cauteloso. Portugal tem uma oportunidade única para se consolidar como destino de investimento global, sobretudo num contexto internacional marcado por instabilidade geopolítica e incerteza económica. “O país evoluiu muito e tem tudo para continuar a crescer”, resumiu Ricardo Amantes, e, entre oportunidades e desafios, o consenso é que o caminho passa por reforçar a confiança, acelerar processos e alinhar políticas públicas com a ambição de um mercado cada vez mais global.

Este artigo foi produzido em parceria com a Fine & Country. 

Mais Artigos