O interesse dos norte-americanos em mudar-se para a Europa durante a reforma continua a crescer. Dados de sondagens e estatísticas recentes mostram que cada vez mais cidadãos dos Estados Unidos procuram países como Portugal, Itália, Grécia, Espanha e França em busca de custos de vida mais acessíveis, maior estabilidade e uma melhor qualidade de vida.
Estes destinos europeus reúnem vários fatores considerados atrativos para reformados internacionais: despesas mais baixas, sistemas públicos de saúde robustos, vias de residência acessíveis e, em alguns casos, regimes fiscais favoráveis. A estabilidade política, numa altura marcada por incerteza geopolítica global, é também apontada como um fator relevante.
Custo de vida mais baixo está a acelerar mudança para a Europa
O aumento do interesse pela reforma na Europa está fortemente ligado ao custo de vida. Sondagens da Monmouth University e da Gallup indicam que 17% dos norte-americanos com 55 ou mais anos querem deixar os Estados Unidos, mais de quatro vezes acima do registado em 1974.
A tendência acelerou sobretudo a partir de 2017, impulsionada pela procura de uma melhor qualidade de vida a custos inferiores, incluindo acesso a cuidados de saúde e habitação mais acessíveis.
Portugal surge frequentemente como um dos exemplos mais destacados. Segundo as contas feitas pelos norte-americanos, o custo mensal de vida para uma pessoa solteira, excluindo renda, ronda os 592 dólares, cerca de 503 euros, enquanto nos Estados Unidos esse valor sobe para aproximadamente 1.166 dólares, cerca de 990 euros. As rendas em Portugal são também cerca de 40% a 50% mais baixas do que a média norte-americana.
Num contexto de aumento do custo de vida e maior incerteza nos Estados Unidos, a atratividade da reforma na Europa continua a crescer.
Em Itália, o custo de vida é quase 27% inferior à média dos Estados Unidos. Em ambos os casos, os reformados norte-americanos conseguem manter um padrão de vida considerado elevado, próximo da costa mediterrânica, com clima ameno e forte oferta cultural.
Além disso, vários países europeus, incluindo Portugal, Itália e Grécia, possuem acordos de dupla tributação com os Estados Unidos, evitando que os reformados sejam tributados duas vezes sobre o mesmo rendimento.
Europa é vista como “plano B” perante incerteza global
A crescente instabilidade geopolítica também está a levar muitos norte-americanos a procurar um “plano B” para património, residência e mobilidade internacional.
A ideia de possuir um local alternativo para viver e investir ganhou força nos últimos anos, sobretudo devido à rapidez com que regras migratórias e fiscais podem mudar. O Brexit é apontado como um dos exemplos mais evidentes, ao retirar aos cidadãos britânicos o direito automático de viver, trabalhar e circular livremente na União Europeia.
A Bloomberg nota ainda que alterações fiscais podem mudar rapidamente a atratividade dos países. França aboliu o imposto sobre grandes fortunas em 2018, enquanto Espanha introduziu um mecanismo semelhante mais tarde. No caso dos norte-americanos, que continuam sujeitos a tributação independentemente do país onde vivem, o cenário pode tornar-se ainda mais complexo.
Ter direitos de residência e trabalho em diferentes geografias é visto como uma forma de mitigar esse risco.
Vistos gold continuam a atrair reformados para Portugal
Segundo Zaid Aldayriyeh, fundador da consultora Citizenship Bay, os programas de vistos gold europeus continuam a atrair reformados norte-americanos, não apenas pelos direitos de residência, mas também pelo potencial retorno financeiro.
No caso português, os fundos de investimento associados ao programa terão oferecido historicamente retornos estimados entre 4% e 12%. Na Grécia, investimentos imobiliários podem gerar rendimentos na ordem dos 3% a 4%, enquanto em Itália investimentos em empresas elegíveis poderão situar-se também entre 3% e 4%.
Custos mais baixos, acordos fiscais, acesso à saúde, diferentes regimes de vistos e fatores associados ao lifestyle, como clima e segurança, continuam a posicionar países como Portugal entre os destinos preferidos dos reformados norte-americanos.
Uma das vantagens destes programas é não exigirem residência permanente nem mudança imediata para a Europa, permitindo aos investidores fazer a transição de forma gradual.
Para reformados com capacidade financeira para obter um visto gold, a residência europeia é apresentada não apenas como uma mudança de país, mas como “uma abordagem estruturada ao planeamento da reforma, diversificação geográfica e segurança de lifestyle de longo prazo em múltiplas jurisdições”.
Portugal mantém forte presença entre reformados norte-americanos
Portugal continua entre os principais destinos escolhidos por reformados dos Estados Unidos. Mais de 20 mil norte-americanos vivem atualmente no país, sendo que cerca de 71% recebem benefícios da Social Security, o sistema público norte-americano de pensões.
Ainda assim, há sinais de mudança no mercado português. Alterações recentes à lei da nacionalidade, que aumentaram de cinco para dez anos o período de residência necessário antes de um pedido de cidadania, bem como o fim do imobiliário no programa de vistos gold, estarão a levar alguns norte-americanos a olhar para outros destinos europeus, nomeadamente Espanha, Itália e Grécia.
Itália é atualmente um dos destinos em maior crescimento. Mais de 14.676 reformados norte-americanos recebem ali benefícios da Social Security. A procura pelo visto gold italiano aumentou 27% no primeiro trimestre de 2026 face ao mesmo período do ano anterior, impulsionada pelo investimento mínimo de entrada a partir de 250 mil euros e pelo interesse crescente na via de investimento empresarial.
A Bloomberg acrescenta que os custos anuais de saúde em Itália rondam apenas alguns milhares de dólares e que o sul do país oferece vantagens fiscais específicas, incluindo uma taxa fixa anual de 7% para reformados estrangeiros que se mudem para pequenas localidades em regiões menos desenvolvidas.
A Grécia também regista crescimento. O país acolhe atualmente 11.135 reformados norte-americanos e registou um aumento de 14% na procura, sobretudo através de investimentos de conversão imobiliária de 250 mil euros em Atenas.
Andorra, Malta e Chipre surgem como alternativas fiscais
A revista Condé Nast Traveler destacou recentemente alguns dos países europeus mais favoráveis do ponto de vista fiscal para cidadãos norte-americanos, incluindo Andorra, Malta e Chipre.
Andorra, apesar de não integrar a União Europeia, beneficia da proximidade geográfica a Espanha e França e dispõe de visto para nómadas digitais e programa de visto gold.
Malta possui um programa específico para reformados, que exige rendimentos de pensão combinados com compra ou arrendamento de imóvel na ordem dos 10 mil dólares anuais, cerca de 8.500 euros. O país aplica uma taxa de 15% sobre rendimentos estrangeiros, uma das mais baixas da União Europeia.
Já o Chipre disponibiliza um visto para nómadas digitais, exigindo rendimento mensal líquido de aproximadamente 3.500 dólares, cerca de 2.970 euros, ou um programa de residência permanente através de investimento imobiliário superior a 300 mil dólares, cerca de 255 mil euros.
Clima europeu continua a ser fator decisivo
O clima (a meteorologia) permanece um dos fatores mais relevantes para quem pondera reformar-se na Europa.
O jornal The European Correspondent analisou recentemente quais os melhores destinos europeus ao longo do ano para quem procura temperaturas amenas. Segundo essa análise, Murcia, com dez dias amenos, e Sevilha, com 15 dias amenos, são boas opções em janeiro e fevereiro.
Em março e abril, Nicósia, no Chipre, destaca-se com 23 dias amenos, enquanto Valeta, em Malta, regista 28 dias amenos em maio. Málaga surge como uma das melhores apostas para junho, com 27 dias amenos, e Lisboa destaca-se em agosto e setembro, com 31 dias amenos.
O portal Holidu, especializado em arrendamento de férias, publicou recentemente um ranking das 30 cidades mais soalheiras da Europa. Espanha ocupa sete posições do top 10, com Cartagena no primeiro lugar, apresentando uma média de 282 horas de sol por mês.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





