É inequívoco que o futuro da saúde se constrói cada vez mais através do progresso científico, e da sua convergência com a sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e inovação tecnológica.
A Sanofi, farmacêutica francesa com presença em Portugal, tem vindo a destacar-se no setor por alinhar as suas prioridades com os temas mais urgentes da atualidade, colocando a sustentabilidade e a inovação no centro da sua estratégia para responder aos desafios da saúde, do ambiente e da sociedade.
Nesta entrevista, Helena Freitas, diretora-geral da Sanofi Portugal apresenta a estratégia AIR – Acesso, Impacto Ambiental e Resiliência -, e explica como esta visão está a redefinir a forma de fazer saúde numa empresa onde 70% do portefólio atua em doenças agravadas pelas alterações climáticas.Uma conversa sobre transformação cultural, impacto concreto para os doentes portugueses e a convicção de que sustentabilidade e inovação são, hoje, inseparáveis.
A Sanofi é frequentemente associada à inovação científica, mas nos últimos anos tem emergido também como referência em sustentabilidade. Como é que uma empresa farmacêutica redefine o seu papel num contexto de crescente exigência ESG?
É uma transformação profunda e, diria, inevitável. O setor da saúde existe para proteger vidas, mas também contribui para o problema ambiental. Em Portugal, representa cerca de 5,8% das emissões totais de CO₂. Não podemos ignorar este paradoxo. Na Sanofi, decidimos transformá-lo numa oportunidade. A nossa estratégia assenta no modelo AIR – Acesso, Impacto Ambiental e Resiliência -, que integra sustentabilidade ambiental, equidade no acesso e resiliência dos sistemas de saúde como pilares inseparáveis da nossa missão. Não é um programa de responsabilidade social corporativa. É uma forma completamente diferente de pensar e fazer saúde. Os resultados já são mensuráveis: já reduzimos 49% das emissões desde 2019, atingimos 86% de eletricidade renovável e conseguimos reduzir em até 50% o consumo de água nas nossas operações industriais. Mas o que mais me orgulha é que esta lógica chega até ao doente: com soluções que reduzem deslocações, internamentos e impacto ambiental. O uso de inteligência artificial para mapear riscos ambientais permite antecipar o impacto das condições climáticas na saúde respiratória, apoiando sistemas de saúde mais preventivos. Isto é particularmente relevante em Portugal, onde os verões cada vez mais quentes e os episódios de poluição atmosférica têm impacto direto nas doenças respiratórias. A tecnologia, quando bem aplicada, é um multiplicador de impacto, tanto para as pessoas que servimos como para o planeta. Porque, para nós, não há saúde humana sem saúde planetária.
Essa transformação que descreve não acontece por decreto… Fala em transformação profunda. Qual foi a mudança interna mais exigente para alinhar a Sanofi com estas metas?
Diria que foi a mudança cultural, sem dúvida. Integrar a sustentabilidade como critério transversal e obrigatório em todas as decisões – da investigação à produção, da logística ao acesso ao mercado -, exige uma reconfiguração de mentalidades, processos e competências. Não basta ter uma política ambiental. É preciso que cada equipa, em cada decisão pense no impacto. Isso é desafiante. Exige formação, tecnologia e, acima de tudo, o compromisso da liderança. Na prática, recorremos à inteligência artificial e a tecnologias avançadas para acelerar a produção com menos recursos. Convertemos 50% da nossa frota em eco-cars. E estabelecemos que, até 2027, todos os novos produtos terão eco-design integrado e embalagem sem blíster, isto significa que a sustentabilidade não é um complemento: é parte do ADN do produto desde a sua conceção. Só com metas muito concretas conseguimos inovar com impacto real e mensurável, essa é a nossa diferenciação.
E esse impacto torna-se ainda mais relevante quando olhamos para o vosso portefólio, uma vez que mais de 70% atua em doenças agravadas por fatores ambientais. O que é que isso significa na realidade para um doente português?
Na prática, significa que a nossa ciência está diretamente alinhada com os desafios do nosso tempo. As alterações climáticas e a poluição do ar agravam doenças como a asma, a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), as alergias e as doenças cardiovasculares. Quando desenvolvemos terapêuticas inovadoras para estas áreas, estamos simultaneamente a tratar a doença e a responder a um problema ambiental. Para um doente português com doença respiratória crónica, isto traduz-se em menos exacerbações, menos internamentos, menos deslocações ao hospital. O impacto é triplo: melhor qualidade de vida, menos pressão sobre o SNS e menor pegada ambiental. Há um número que resume bem esta lógica: cada euro investido em saúde pública gera cerca de 14 euros de retorno*. Investir em prevenção e sustentabilidade não é apenas correto do ponto de vista ético: é economicamente inteligente. Num contexto em que o SNS precisa de ser mais eficiente e resiliente, esta equação é fundamental.
O Projeto Terra tem sido apresentado como uma iniciativa pioneira na área das vacinas. O que o torna diferente e qual é o seu potencial em Portugal?
O Projeto Terra nasceu de uma convicção simples: a sustentabilidade tem de entrar na cadeia de valor do medicamento, do fornecedor ao utente. E nas vacinas, existe uma margem enorme para agir, sem comprometer a entrega. Estamos a trabalhar em quatro medidas concretas: embalagem sem blíster – com redução real de plástico -, caixas mais compactas que ocupam menos espaço em armazém e exigem menos energia para refrigeração, melhor estimativa de doses para evitar desperdício, e redução de agulhas desnecessárias. São mudanças que podem parecer pequenas, mas o impacto agregado é muito significativo. Em conjunto, estas quatro medidas representam uma redução de cerca de 400 toneladas de CO₂ por ano. Para tornar este número mais tangível: é como plantar uma pequena floresta de cerca de 2.000 árvores por ano, ou evitar as emissões de aproximadamente 1.200 voos Lisboa-Madrid. E o mais importante: sem comprometer o acesso. Sustentabilidade não retira valor, acrescenta. Em Portugal, o Projeto Terra tem também uma dimensão de diálogo com as autoridades de saúde, para que os critérios ambientais passem a ter peso real nos concursos públicos de vacinas. O enquadramento legal já existe, falta agora operacionalizá-lo em decisões concretas e nós estamos prontos para liderar esse caminho.
Portugal comprometeu-se a reduzir 69% das emissões do setor da saúde até 2050. Estamos no caminho certo? E qual é o papel da indústria farmacêutica neste percurso?
Portugal tem ambição, e isso é importante, mas precisamos de transformar essa ambição em ação. Há sinais positivos: os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) estão a preparar-se como central de compras sustentável, existe o projeto “Operação Zero” para reduzir consumo de energia, água e resíduos nas unidades de saúde, e o enquadramento legal para critérios ecológicos nos contratos públicos já existe. São passos na direção certa. Mas na prática, os concursos de vacinas e medicamentos ainda avaliam sobretudo o preço. Os critérios ambientais existem no papel, mas ainda não se traduzem em decisões concretas. É como ter uma lei que permite fazer algo, mas que ninguém usa. A indústria farmacêutica tem aqui um papel ativo: não apenas cumprir metas internas, mas envolver-se no diálogo com decisores públicos, demonstrar que é possível ter produtos mais sustentáveis sem comprometer o acesso, e ajudar a construir os instrumentos de avaliação que permitam ao Estado comprar com critérios de valor total, não apenas com base no preço. A Sanofi está pronta. Até 2027, teremos eco-design em todos os novos produtos e embalagem sem blíster. Precisamos agora que os decisores públicos ativem os critérios ambientais nos concursos. O caminho está traçado – e queremos percorrê-lo juntos.
Essa perspetiva de colaboração leva-me a perguntar sobre o futuro… Olhando para 2030 e 2045 – as vossas metas de neutralidade carbónica e Net Zero -, qual é a sua maior esperança e o seu maior receio?
A minha maior esperança é a colaboração. Vejo governos, empresas, academia e sociedade civil compreender, cada vez mais, que este não é um problema de uma empresa ou de um setor: é um desafio coletivo, a Sanofi não consegue fazer isto sozinha. Nenhuma empresa consegue. Vejo Portugal a despertar para esta realidade, profissionais de saúde a compreender que cuidar da saúde é também cuidar do planeta e cidadãos mais informados e exigentes em relação ao impacto ambiental dos seus tratamentos. A minha esperança é que, em 2030, quando chegarmos à neutralidade carbónica, isto seja o “novo normal”, não uma exceção. O meu maior receio é que não sejamos suficientemente rápidos e que a ação não acompanhe a ambição. As alterações climáticas não esperam. A OMS estima que, entre 2030 e 2050, haverá cerca de 250.000 mortes adicionais por ano causadas por impactos diretos do clima. Cada ano que passa sem ação concreta tem um custo humano real. É necessário que os critérios ambientais passem do papel a decisões concretas: nos concursos públicos, nas políticas de saúde, nas escolhas do dia-a-dia. Mas estou otimista porque vejo a mudança a acontecer e porque temos o compromisso de ser parte ativa dessa mudança. No fundo, a mensagem é simples mas transformadora: não há saúde humana sem saúde planetária. E é essa convicção que nos move todos os dias.
Este conteúdo foi produzido em parceria com a Sanofi.





