Salários, horas, qualificações e tipo de empregos: o retrato de um país a várias velocidades

Trabalhar em Portugal não é uma experiência igual para todos — e a região onde se trabalha continua a determinar quanto se ganha, quantas horas se faz e até a probabilidade de chegar a cargos de liderança. A conclusão é da mais recente análise da Randstad Research, divulgada no âmbito do Dia do Trabalhador. A…
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No Dia do Trabalhador, a Randstad Research fez uma análise do país para perceber quanto se ganha, quantas horas se trabalha e quais as qualificações nas diferentes regiões. Trazemos-lhe os pormenores da investigação.
Economia

Trabalhar em Portugal não é uma experiência igual para todos — e a região onde se trabalha continua a determinar quanto se ganha, quantas horas se faz e até a probabilidade de chegar a cargos de liderança. A conclusão é da mais recente análise da Randstad Research, divulgada no âmbito do Dia do Trabalhador.

A estrutura do emprego em Portugal é dominada pelos serviços, mas a análise regional revela um país com especializações muito distintas.

Num contexto de crescimento do emprego – com 5,28 milhões de pessoas empregadas em 2025 (+3,2% face ao ano anterior) –, o mercado de trabalho nacional continua marcado por assimetrias que dividem o território em várias realidades distintas.

A nível nacional, as indústrias transformadoras representam 15,9% do emprego, seguidas do comércio (14,6%), saúde (10,1%), educação (8%) e construção (7,1%).

Fonte: Randstad Research

Esta base distribui-se de forma desigual no território: o Norte (32,6%) e o Centro (29,9%) afirmam-se como o principal eixo industrial, enquanto o Algarve (14,6%) e a Madeira (14,2%) dependem fortemente do turismo (alojamento e restauração). Lisboa (14,3%) e a Península de Setúbal (15,5%) concentram o comércio e os serviços, ao passo que o Alentejo apresenta uma maior dependência da administração pública, responsável por 12,7% do emprego regional.

Estas diferenças refletem-se na qualificação da população ativa, refere a Randstad Research. Em Lisboa, o ensino superior assume um peso determinante e sustenta uma economia mais orientada para setores de elevado valor acrescentado.

Fonte: Randstad Research

Na capital, 37,5% dos trabalhadores são especialistas e 45,8% integram quadros superiores ou funções de chefia, valores significativamente acima da média nacional (29,5%). Em contraste, regiões como os Açores apresentam apenas 18,9% de especialistas, enquanto a proporção de cargos de chefia desce para 1,6% nos Açores e 2,0% na Madeira, cerca de metade da média nacional (4,0%). No extremo oposto, estas regiões concentram também os níveis mais elevados de trabalhadores não qualificados, com 14,1% nos Açores, 13,9% na Madeira e 12,0% no Alentejo.

Fonte: Randstad Research

Este desequilíbrio territorial torna-se ainda mais evidente quando se analisam os rendimentos. Lisboa é a única região onde o salário médio líquido ultrapassa os 1.400 euros mensais, fixando-se nos 1.469€, enquanto no Algarve esse valor desce para 1.177€, menos 292€ por mês. Ou seja, um profissional em Lisboa recebe, em termos líquidos, o equivalente a quase mais 3 meses de salário por ano do que um trabalhador no Algarve.

“Lisboa é o principal polo de valorização salarial, sendo a única região a ultrapassar os 1.400 € mensais. Esta liderança é impulsionada pela concentração de cargos de topo, como dirigentes, diretores e especialistas intelectuais, cujas remunerações são significativamente superiores na capital devido à presença de sedes corporativas. Em contraste, o Algarve (1.177 €) e as Regiões Autónomas apresentam os rendimentos mais baixos do país, refletindo economias baseadas em serviços e turismo, onde a ausência de centros de decisão limita o teto salarial regional”, assinala a Randstad.

Fonte: Randstad Research

Quando se analisam as remunerações declaradas, o fosso agrava-se: trabalhar em Lisboa pode significar mais 525€ mensais do que no Baixo Alentejo, com a capital a aproximar-se dos 1.800€ e o interior a manter-se abaixo dos 1.300€. Na prática, esta diferença equivale a quase mais três salários por ano. “A liderança de Lisboa e Setúbal reflete a concentração de centros de decisão, serviços financeiros e indústrias tecnológicas de alto valor acrescentado. O facto de o Porto ocupar a terceira posição confirma a força do cluster industrial do Norte, mas ainda assim com uma diferença de mais de 230 € face à capital”, comentam os especialistas da Randstad.

“A diferença de mais de 500€ entre Lisboa e Beja é um motor primário para a fuga de talentos e para a desertificação do interior”, assinala a Randstad.

Fonte: valor médio mensal das remunerações declaradas pelas entidades empregadoras pelo trabalho dependente – Randstad Research

Onde existe uma maior cultura de horas prolongadas?

A maior valorização salarial está também associada a uma maior intensidade laboral, aponta esta análise: “Lisboa é a região onde mais trabalhadores ultrapassam as 40 horas semanais, representando 21,5% do total, refletindo o peso de funções qualificadas e de maior responsabilidade que frequentemente transbordam o horário regulamentar. No Norte, 59,1% dos trabalhadores cumprem a jornada padrão entre 36 e 40 horas, que reflete a rigidez de horários do setor industrial, onde o controlo de entradas e saídas é mais estruturado”.

Nos Açores, Madeira e Alentejo há uma proeminência das jornadas de 31-35 horas: “Este fenómeno pode indicar uma maior presença de regimes de trabalho específicos do setor público, administrativo ou de serviços nestas regiões. O facto de as regiões com menor escolaridade superior terem jornadas mais curtas, enquanto Lisboa (mais qualificada) tem jornadas mais longas, reforça a correlação entre funções de alta complexidade e a extensão do tempo de trabalho em Portugal”, declara a Randstad.

 

Fonte: Randstad Research

Também ao nível do desemprego se registam diferenças relevantes. A taxa de desemprego de longa duração em Portugal situa-se nos 36,8% no total da população desempregada, mas atinge 43,5% no Alentejo e 41,7% no Norte, sinalizando dificuldades estruturais na reintegração profissional. Em Setúbal, a taxa de desemprego total chega aos 8%, a mais elevada do país. Em contrapartida, o Algarve apresenta 24,2% de desemprego de longa duração, evidenciando maior capacidade de absorção, ainda que influenciada pela sazonalidade. O Centro regista uma taxa de desemprego de 5% e uma incidência de longa duração de 30,8%, abaixo da média nacional.

Fonte: Randstad Research

Para Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad Portugal, “Os dados mostram que o mercado de trabalho em Portugal continua condicionado pela geografia, não apenas em termos de salário, mas também no acesso a funções de decisão e progressão profissional. Este é um desafio estrutural que exige uma visão integrada entre os diversos agentes do mercado e as estratégias empresariais, no sentido de promover a coesão territorial e oportunidades mais equitativas em todo o país.”

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