É já amanhã que começa, em Nova Iorque, o diálogo interativo com os quatros candidatos a secretário-geral da ONU. Depois do antigo primeiro-ministro português António Guterres, chega a vez que escolher quem vai chefiar o Secretariado das Nações Unidas a partir de 1 de janeiro de 2027. A organização poderá ter, pela primeira vez, uma mulher a liderar os seus destinos: dos quatro candidatos dois são do género feminino.
Cada potencial candidato teve de ser oficialmente indicado por um Estado ou grupo de Estados, mas não necessariamente pelo seu país de origem, e todas as sessões de diálogo interativo, que decorrerão na sala do Conselho de Tutela das Nações Unidas, em Nova Iorque, serão transmitidas online. Nestas sessões, que terão três horas de duração, cada candidato apresentará a sua declaração de visão para a organização, respondendo às perguntas dos Estados-membros.
Mantendo a tradição de rotação geográfica, nem sempre observada, a posição de secretário-geral da ONU para o mandato de 2027–2031 está a ser reivindicada pela América Latina. Além disso, muitos países também defendem que uma mulher ocupe o cargo pela primeira vez nos 80 anos de história da ONU. A ex-presidente chilena Michelle Bachelet será a primeira candidata a ser ouvida, na manhã de terça-feira, em Nova Iorque, seguindo-se o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, na tarde do mesmo dia. Na quarta-feira será a vez da ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan, que terá a sua audição de manhã, e do ex-presidente senegalês Macky Sall, que será ouvido no período da tarde.
“Uma organização que serve todas as pessoas em todo o mundo (…) e que une todos os países como nenhuma outra, precisa de se questionar se realmente serve toda a humanidade se, em 80 anos, nunca houve uma secretária-geral mulher”, defende Annalena Baerbock, presidente da Assembleia-Geral da ONU.
Em entrevista à Agência Lusa, à jornalista Marta Moreira, Annalena Baerbock, presidente da Assembleia-Geral da ONU, que a seleção do próximo secretário-geral será “uma questão de credibilidade” para a organização, uma vez que em 80 anos de história nunca teve uma mulher na liderança. A responsável garantiu que, entre os 193 Estados-membros das Nações Unidas (ONU), há o entendimento de que, passados 80 anos, chegou o “momento certo” da organização multilateral ser chefiada no feminino. “Estamos num ano histórico porque, após 10 anos, estamos a selecionar o próximo secretário-geral para o século XXI, e a escolha enviará uma mensagem poderosa sobre quem somos enquanto comunidade internacional e se as Nações Unidas estão a servir todos os seus cidadãos em todo o mundo, dos quais, como todos sabemos, metade são mulheres e raparigas”, observou.
“Uma organização que serve todas as pessoas em todo o mundo (…) e que une todos os países como nenhuma outra, precisa de se questionar se realmente serve toda a humanidade se, em 80 anos, nunca houve uma secretária-geral mulher”, acrescentou. Nesse sentido, a ex-ministra dos Negócios Estrangeiros alemã considera que a “questão de quem será selecionado é também uma questão de credibilidade para as Nações Unidas”.
Conheça em baixo cada um dos candidatos que vai disputar a eleição para 10.º secretário-geral da ONU:
# Michelle Bachelet
A ex-presidente chilena Michelle Bachelet entrou na corrida à liderança da ONU através da nomeação conjunta do Chile, México e Brasil. Contudo, o seu país de origem desistiu de a apoiar na sequência da eleição do Governo de extrema-direita de José Antonio Kast.
Bachelet é a mais politicamente destacada dos quatros candidatos atualmente em competição, tendo presidido o Chile de 2006 a 2010 e de 2014 a 2018, além de ter sido a primeira mulher do Chile e de toda a América Latina a ocupar o cargo de ministra da Defesa. Também foi a primeira diretora da ONU Mulheres e ocupou ainda o cargo de alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Apesar de ser mulher e de ser da América Latina – dois fatores que poderiam pesar a seu favor -, Bachelet enfrentará dois adversários de peso no Conselho de Segurança, ambos com poder de veto. Um deles é a China, que protestou veementemente contra um relatório independente da chilena sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur, apresentado em 2022 na sua despedida do cargo de alta comissária para os Direitos Humanos.
O segundo adversário poderoso são os Estados Unidos, que já denunciaram as críticas da chilena a Israel e a Washington. A juntar a tudo isto, a posição pró-aborto da antiga presidente tem atraído duras críticas dos republicanos mais conservadores dos Estados Unidos. Michelle Bachelet é formada em Medicina com especialização em Cirurgia, Pediatria e Saúde Pública. Também estudou estratégia militar na Academia Nacional de Estratégia e Política do Chile e no Colégio Interamericano de Defesa, nos Estados Unidos.
# Rafael Mariano Grossi
Diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi é um diplomata argentino com 40 anos de experiência em diversas áreas, incluindo paz e segurança, não proliferação e desarmamento, e desenvolvimento internacional. Chegou à corrida para sucessor de António Guterres através da nomeação da Argentina.
“Rafael Mariano Grossi é um dos diplomatas argentinos mais respeitados, cujo trabalho como diretor-geral da AIEA lhe rendeu admiração mundial”, defendeu o Governo argentino. “O seu profundo conhecimento do sistema multilateral, capacidade de fomentar o diálogo diplomático, o seu histórico comprovado em situações de conflito e grandes crises internacionais como interlocutor imparcial e eficaz, a sua competência técnica e linguística e o seu compromisso com a Carta da ONU fazem dele um candidato excecional para cumprir as responsabilidades que o mundo exige hoje do secretário-geral”, acrescentou Buenos Aires.
Grossi é licenciado em Ciências Políticas, tem um mestrado em Relações Internacionais e um doutoramento em História e Política Internacional. Com uma campanha baseada em “resultados efetivos”, é atualmente o favorito entre aqueles que procuram um líder mais técnico, especializado em programas de armas nucleares. Em outubro passado, numa conferência de imprensa em Nova Iorque, Grossi considerou que a sua experiência pessoal a mediar conflitos e o papel de interlocutor regular entre potências beligerantes poderão contribuir para ser eleito.
Grossi recusou renunciar ao cargo na AIEA enquanto concorre à liderança da ONU, contrariando uma resolução da Assembleia-Geral que pedia aos funcionários das Nações Unidas que “considerassem” suspender funções durante a campanha, a fim de evitar conflitos de interesse.
# Rebeca Grynspan
A costa-riquenha Rebeca Grynspan suspendeu a sua liderança da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) quando se tornou candidata à sucessão de Guterres. Economista, ex-vice-presidente da Costa Rica – país que a nomeou oficialmente – e a primeira mulher a liderar a UNCTAD em 60 anos de história, Grynspan é uma líder experiente em instituições internacionais.
Com uma sólida trajetória em governo, diplomacia da ONU, política económica e cooperação multilateral em nível global, recebeu em 2024 o Prémio de Negociadora do Ano de Doha por liderar os esforços da ONU para restaurar as rotas comerciais do Mar Negro face à guerra iniciada pela Rússia na Ucrânia. Na sua declaração de visão para a ONU, a costa-riquenha afirmou que a confiança nas Nações Unidas estava a diminuir e que era necessária coragem para mudá-la e restaurar a crença na capacidade da organização de promover a paz e o desenvolvimento.
# Macky Sall
No início de março, o ex-presidente senegalês Macky Sall entrou na corrida para secretário-geral após uma nomeação do Burundi, sendo potencialmente a candidatura mais polémica em competição. A candidatura não foi apresentada pelo Senegal, uma vez que Macky Sall é acusado pelos novos dirigentes do seu país de ter ocultado dados económicos importantes, como a dívida pública. A União Africana (UA) recusou apoiar a candidatura de Sall, depois de ter sido rejeitada por 20 dos 55 Estados-membros da organização.
Sall, 64 anos, que governou o Senegal de 2012 a 2024, é visto pelos seus apoiantes como um candidato capaz de conduzir negociações multilaterais em nome do continente, mas os seus detratores criticam o seu regime pela dura repressão aos protestos da oposição. A falta de apoio consensual em África poderá enfraquecer a influência do continente no processo de seleção da ONU, onde o apoio regional é importante. Na sua declaração de visão para o cargo, Sall afirmou que a ONU precisava de ser reformada, simplificada e modernizada.
(Com Lusa)





