O Reino Unido, um dos mercados mais emblemáticos da indústria automóvel global, está a assistir a uma inversão pouco habitual: um modelo chinês lidera as preferências dos consumidores. O Jaecoo 7, SUV do grupo Chery, foi o automóvel mais vendido em março de 2026, com 10.064 unidades matriculadas, superando modelos estabelecidos como o Ford Puma e o Nissan Qashqai.
O dado ganha particular relevância num país com uma longa tradição automóvel e onde marcas como a Land Rover ajudaram a definir o segmento dos SUV premium. Não por acaso, o Jaecoo 7 tem sido apelidado de “Temu Range Rover”, numa referência à sua estética próxima de modelos britânicos e a um posicionamento de preço significativamente mais baixo, com valores a partir de cerca de 30 mil libras (cerca de 35 mil euros), face a mais de 50 mil libras (cerca de 58 mil euros) em propostas comparáveis.

A estratégia da Chery passa por oferecer níveis elevados de tecnologia e equipamento a preços mais competitivos, numa altura em que o contexto económico pressiona decisões de compra. Gary Lan, CEO (Chief Executive Officer) da Jaecoo no Reino Unido, tem defendido que a marca procura replicar no mercado britânico a lógica que, durante anos, levou veículos ocidentais a ganhar espaço na China, mas agora em sentido inverso.
A entrada no Reino Unido é recente. A marca chegou há pouco mais de um ano e, em pouco mais de 14 meses, conseguiu posicionar um dos seus modelos no topo das vendas. No acumulado do primeiro trimestre, o Jaecoo 7 soma 15.569 unidades, aproximando-se do líder Ford Puma. A maioria das vendas corresponde a versões híbridas plug-in, que representam cerca de 85% das unidades comercializadas em março.
Apesar do arranque rápido, a adaptação ao mercado britânico exigiu ajustes. A marca afinou sistemas de assistência à condução, alterou configurações para responder a especificidades locais, como rotundas, e até considerou dimensões típicas de garagens e acessos residenciais no Reino Unido.

As marcas chinesas têm vindo a ganhar terreno não apenas no mercado britânico, mas também nos restantes países europeus, apoiadas por uma oferta cada vez mais competitiva no segmento dos veículos eletrificados. No Reino Unido, os construtores chineses representaram cerca de 10% das vendas em 2025, com projeções que apontam para 15% em 2026 e 20% até 2027.
Na Europa, a trajetória é semelhante. Em fevereiro de 2026, os fabricantes chineses já representavam cerca de 8% do mercado automóvel da União Europeia, com grupos como a SAIC Motor, através da marca MG, e a BYD a reforçarem presença.

Em Portugal, essa tendência também começa a ganhar expressão. No primeiro trimestre de 2026, as marcas chinesas atingiram uma quota de mercado de 8,55% no segmento de ligeiros de passageiros, refletindo uma maior diversificação da oferta e uma crescente abertura dos consumidores a novos fabricantes. Por cá, a Jaecoo também se vende, sendo uma das marcas chinesas representadas pelo Grupo JAP, tal como a GAC, Omoda, Nio, Firefly e Foton.
A ascensão destes modelos está a colocar pressão adicional sobre os construtores europeus tradicionais, num momento de transição para a eletrificação e de maior sensibilidade ao preço por parte dos consumidores. Num mercado como o britânico, onde a herança automóvel tem um peso simbólico significativo, a liderança de um modelo chinês sublinha a mudança em curso – e sugere que a fidelidade às marcas históricas ocidentais pode já não ser suficiente para travar novos concorrentes.





