A OpenAI tem vindo a apresentar uma sucessão de projetos e parcerias ambiciosas, mas nem todos chegaram a materializar-se. Entre cancelamentos, adiamentos e iniciativas ainda por concretizar, a empresa enfrenta agora pressão para demonstrar resultados financeiros concretos, numa altura em que se posiciona para uma possível oferta pública inicial em bolsa (IPO).
Em janeiro, Fidji Simo, CEO de aplicações da OpenAI, defendeu à Forbes uma abordagem experimental ao desenvolvimento de produtos, que inclui áreas como publicidade, comércio, saúde, redes sociais, navegadores, dispositivos físicos, geração de vídeo e marketplaces semelhantes a lojas de aplicações. “A IA vai transformar tudo”, afirmou na altura, acrescentando que a empresa não encara estas iniciativas como apostas isoladas.
Dois meses depois, a OpenAI recuou numa das suas iniciativas mais mediáticas, o modelo de vídeo Sora, bem como num acordo de licenciamento com a Disney que previa um investimento de 1.000 milhões de dólares (cerca de 864,82 milhões de euros). A decisão sinaliza uma mudança estratégica, com maior foco na rentabilidade. Apesar de receitas de 13 mil milhões de dólares em 2025 (11,24 mil milhões de euros), a empresa continua longe de ser lucrativa e está a redirecionar esforços para áreas com procura comprovada, como ferramentas de programação e produtividade empresarial.
O CEO Sam Altman já tinha reconhecido a possibilidade de erros estratégicos, escrevendo num blogue em outubro: “Tomaremos boas decisões e também alguns passos em falso, mas vamos recolher feedback e tentar corrigir rapidamente esses erros.”
Ainda assim, a sucessão de mudanças tem gerado instabilidade. Projetos como um dispositivo de hardware desenvolvido com o designer Jony Ive, cuja empresa foi adquirida pela OpenAI por mais de 6.000 milhões de dólares (5.188,94 milhões de euros), ou uma rede social baseada em dados biométricos, permanecem envoltos em incerteza.
Disney e Sora
Entre os casos mais emblemáticos está o acordo com a Disney, anunciado em dezembro como “histórico”. O conglomerado de media comprometia-se a investir 1.000 milhões de dólares (864,82 milhões de euros) e a licenciar 200 personagens para utilização no Sora, além de integrar conteúdos na plataforma Disney+. Em março, a OpenAI cancelou o projeto, depois de a adoção do Sora ter caído acentuadamente. O modelo consumia elevados recursos computacionais e chegou a gerar custos estimados de 15 milhões de dólares por dia (12,97 milhões de euros). As receitas totais da aplicação ficaram abaixo dos 3 milhões de dólares (2,59 milhões de euros).
Modo NSFW no ChatGPT
Outro projeto suspenso foi o chamado “modo NSFW” no ChatGPT, que permitiria interações de teor sexual com utilizadores adultos verificados. A iniciativa, avançada por Sam Altman em outubro, foi colocada em espera por tempo indeterminado após críticas internas e de investidores. A OpenAI indicou que pretende aprofundar a investigação sobre os efeitos deste tipo de interações antes de tomar uma decisão.
Instant Checkout com a Walmart
Também no comércio digital, a funcionalidade Instant Checkout, desenvolvida em parceria com a Walmart, não teve o desempenho esperado. Anunciada em outubro, permitia comprar diretamente dentro do ChatGPT, mas registou taxas de conversão três vezes inferiores às obtidas quando os utilizadores eram redirecionados para o site da retalhista. Em março, a OpenAI descontinuou a funcionalidade, passando a privilegiar a navegação e pesquisa de produtos, mantendo o processo de compra nas plataformas dos vendedores.
GPT-4o
No campo dos modelos de inteligência artificial, a OpenAI retirou em fevereiro o GPT-4o, conhecido pela sua personalidade mais expressiva, mas também criticado por ser excessivamente complacente. A decisão gerou contestação entre utilizadores, levando a empresa a reintroduzir temporariamente o modelo após uma primeira tentativa de descontinuação.
Project Stargate
Outro projeto de grande escala é o Project Stargate, anunciado no início do segundo mandato de Donald Trump, com um investimento de 500 mil milhões de dólares (432,41 mil milhões de euros) em parceria com a Oracle e a SoftBank para desenvolver centros de dados nos EUA. Um ano depois, o projeto enfrenta dificuldades, incluindo divergências entre parceiros e atrasos na execução. A expansão inicial no Texas também foi revista, embora algumas infraestruturas se mantenham em desenvolvimento.
Nvidia
No campo das parcerias industriais, a OpenAI anunciou em setembro que a Nvidia pretendia investir até 100 mil milhões de dólares (86,48 mil milhões de euros), embora sem calendário definido. Declarações recentes do CEO Jensen Huang sugerem que o valor poderá ficar mais próximo de 30 mil milhões de dólares (25,94 mil milhões de euros), especialmente se a OpenAI avançar para bolsa. Parte deste montante já terá sido transferida, incluindo uma tranche paga a 31 de março.
A relação segue um padrão semelhante a outros acordos da Nvidia com empresas de inteligência artificial, em que o investimento acaba por financiar a compra dos próprios chips da empresa. A OpenAI prevê gastar mais de 1 bilião de dólares (864,82 mil milhões de euros) em capacidade computacional nos próximos oito anos.
AMD
Em paralelo, a OpenAI anunciou um acordo com a AMD, rival da Nvidia, envolvendo 160 milhões de ações da empresa, avaliadas em cerca de 30 mil milhões de dólares (25,94 mil milhões de euros). O negócio prevê a utilização de chips AMD em centros de dados com capacidade de seis gigawatts, mas as ações só serão atribuídas mediante o cumprimento de metas técnicas e comerciais, que ainda não foram alcançadas até ao final de 2025.
O histórico recente da OpenAI evidencia uma estratégia marcada por anúncios de grande escala, nem sempre acompanhados por execução imediata, num contexto de crescente pressão para transformar ambição tecnológica em resultados financeiros.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





