Estre o risco, a busca por apoios e o peso da história, Gonçalo e Salvador Amaral querem chegar ao Dakar em 2027

“Em 2002, vimos pela primeira vez o nosso pai embarcar na caravana do Dakar. Nessa altura alinhou ao lado do nosso tio, Bernardo Villar. Sem dúvida que esse foi o primeiro grande impacto nas nossas vidas. Mais tarde, quando regressou desse Dakar, depois de quase um mês fora de casa, fomos recebê-lo ao aeroporto. E,…
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Foram eles que definiram o objetivo, mas a vida quase que o escreveu por eles: cresceram entre as motas e viram o pai Rodrigo Amaral competir no Dakar por duas vezes. Gonçalo e Salvador Amaral vão passar o ano atrás do mesmo objetivo, entre competições, preparação e procura de apoios. É que o Dakar pode até ser uma das provas mais mediáticas do mundo, mas é também das mais caras.
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“Em 2002, vimos pela primeira vez o nosso pai embarcar na caravana do Dakar. Nessa altura alinhou ao lado do nosso tio, Bernardo Villar. Sem dúvida que esse foi o primeiro grande impacto nas nossas vidas. Mais tarde, quando regressou desse Dakar, depois de quase um mês fora de casa, fomos recebê-lo ao aeroporto. E, mesmo sem termos plena noção na altura, sabíamos que um dia iria chegar a nossa vez.”

A Rally-Raid Portugal é uma prova integrada no campeonato do mundo. Depois de seis dias de corrida, com mais de dez horas de mota por dia, o português Gonçalo Amaral (27 anos) sagrou-se vencedor da etapa. A competir estava também Salvador Amaral (29 anos), o irmão, que devido a um problema elétrico foi obrigado a abandonar a prova mais cedo.

“Vencer, ainda por cima numa prova deste nível, dá-nos confiança e uma motivação extra para continuar a trabalhar no caminho que temos vindo a construir”, afirma Gonçalo à Forbes. “Dá-nos confiança e mostra que estamos no caminho certo. É uma prova muito longa, com muitos quilómetros, e conseguimos ser consistentes e perder muito pouco tempo para os nossos adversários diretos ao longo dos dias. Isso acaba por ser o mais importante”.

Salvador, por sua vez, acrescenta: “Foi uma experiência diferente para ambos. Ainda assim, ao longo desta semana de corrida conseguimos aprender e evoluir bastante. Muitas vezes é nas derrotas e nos obstáculos que mais crescemos, e este rally colocou-nos vários desafios. Depois de 2300 quilómetros de corrida, ficar a apenas 2 quilómetros do fim é muito difícil de digerir, mas não há outra opção senão voltarmos mais fortes”.

Mas a história dos irmãos na modalidade começou muito antes deste momento. E pode ir muito mais longe. A Forbes Portugal foi conhecer a dupla que sonha com uma repetição da história do pai: chegar ao Dakar.

Como é que começou a vossa ligação à modalidade e em que momento decidiram que queriam fazer o Dakar?

Salvador Amaral (SA): Desde muito cedo que se respira motos lá em casa. O nosso pai competiu durante muitos anos no circuito nacional e participou em vários Dakar, por isso este sonho sempre esteve presente. Acreditamos que temos vindo a construir um caminho sólido e, com a experiência que ganhámos no Rally Raid, ganhámos ainda mais motivação para encarar o Dakar e perceber que podemos realmente fazer parte dele. Já deixou de ser um sonho distante e passou a ser um objetivo concreto, algo que queremos mesmo realizar.

Como funciona o vosso trabalho de equipa, entre irmãos?

SA: Somos melhores amigos fora das corridas, e isso reflete-se muito dentro de pista. Estamos sempre um pelo outro e, antes de cada especial, o mais importante para nós é que ambos cheguemos ao fim em segurança, porque sabemos que é um desporto com risco elevado. Somos os dois muito competitivos, claro, mas ao mesmo tempo ficamos genuinamente felizes pelas conquistas um do outro.

O que é que cada um de vocês traz para a dupla?

SA: Eu diria que trago disciplina, muito método, organização e foco no detalhe. O Gonçalo traz aquela vontade enorme, um espírito mais descontraído e leve perante o projeto, que também é super importante. Acho que as nossas duas formas de estar acabam por se complementar muito bem. Vamos puxando um pelo outro e tirando o melhor de cada um.

Qual é o primeiro passo real para chegar ao Dakar?

SA: Hoje em dia, o Dakar é uma das provas mais procuradas do mundo, o que faz com que exista uma grande adesão de participantes. Por isso, há um processo de pré-seleção para que possamos ser elegíveis para a inscrição. O primeiro passo passa por competir noutras provas do calendário do Campeonato do Mundo, de forma a ganhar experiência e cumprir os requisitos necessários. Depois dessa fase, a preparação é contínua e muito exigente: envolve deslocações a Marrocos ao longo do ano para treinar roadbooks e evoluir na navegação, bem como um trabalho consistente a nível físico e mental para estarmos à altura do desafio.

Que etapas são obrigatórias antes de lá chegar?

Gonçalo Amaral (GA): Antes de lá chegarmos, temos de ter pelo menos 12 pontos no campeonato, para isso temos que terminar um rally grande como o Rallye Du Marroc, que vamos tentar alinhar em Setembro deste ano. Além dos pontos obrigatórios, queremos ganhar experiência a navegar no deserto com deslocações a Marrocos para treinar a navegação em pista aberta.

Quanto tempo demora esse percurso?

GA: Acho que demora pelo menos um ano, estamos desde Janeiro a pensar na logística e apoios que temos que ter para alinhar no Rally Dakar em Janeiro de 2027. Mas penso que a parte mais difícil seja reunir apoios suficientes para conseguir estar à partida. Por outro lado, o Dakar é a corrida Off Road mais mediática de sempre e com uma visibilidade de milhões de espetadores, por isso acreditamos que, com os parceiros certos, vamos conseguir tirar um bom partido para ambos os lados.

O que é mais difícil: a preparação desportiva, logística ou financeira?

SA: Sem dúvida que, não sendo uma equipa profissional ou de fábrica, a parte mais desafiante acaba por ser toda a preparação fora da vertente desportiva. O trabalho físico e de pilotagem é algo que fazemos ao longo do ano, de forma consistente. O mais exigente é mesmo a componente logística e financeira. Este tipo de projeto é bastante dispendioso e envolve uma grande organização. Conseguir reunir patrocinadores, garantir os recursos necessários e estruturar toda a operação para estarmos presentes acaba por ser, sem dúvida, a parte mais difícil e desgastante.

Fala-se muito da prova, mas pouco do custo: quão exigente é financeiramente?

GA: É verdade, o Dakar é a prova que toda a gente que gosta de desportos motorizados espera o ano inteiro para voltar a acompanhar, o Rally mais duro do mundo com intensidade durante os 15 dias de corrida. A nível financeiro é realmente muito exigente, podendo chegar a mais de uma centena de milhares de euros por piloto, entre preparação e participação.

Como se constroi um projeto destes?

GA: Acho que não há um manual a seguir num projeto destes, mas há a ajuda de muita gente que temos a sorte de ter por perto, que já lá foi e sabe exatamente o que é preciso para esta corrida. Além desta ajuda que temos, precisamos também de muitos patrocínios, para conseguir ter o apoio financeiro que é preciso para esta corrida. Sacrifícios pessoais também são precisos, porque um projeto destes exige muito tempo, dedicação e preparação, mas acho que não sentimos como um sacrifício, porque é o caminho que temos que percorrer para a concretização de um sonho.

Como lidam com o risco?

SA: Esta é, sem dúvida, uma das partes mais difíceis, não só para nós, mas também para a nossa família e amigos. Sabemos que existe sempre um risco, mas, se a preparação for feita da melhor forma possível, conseguimos minimizá-lo ao máximo. É algo inevitável e, por isso, temos de estar preparados e dispostos a enfrentar o desafio com uma grande responsabilidade.

Têm mais receio do lado físico, mental ou técnico?

GA: Acho que o que mais nos dá receio é, sem dúvida, a parte técnica. Ou seja, o que poderá não depender de nós. Quanto ao físico e mental acho que conseguimos sempre dar a volta pela preparação que temos vindo a fazer e pela força de vontade que temos para realizar este sonho.

Qual é o verdadeiro desafio do Dakar que as pessoas não veem na televisão?

GA: Penso que o verdadeiro desafio do Dakar, que só quem lá está sente, é a montanha russa de emoções que se pode ter todos os dias, algo que sentimos no rally como o que fizemos agora em Portugal, mas que no Dakar é sempre multiplicado por mil, por ser o Dakar e por se repetir durante 15 dias.

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