Forbes Green Awards: A economia circular tem de estar no centro da estratégia das empresas

Foi ontem, durante uma alegre tarde soalheira e no meio do verde de Monsanto, em Lisboa, que a Forbes Portugal entregou os prémios Green ESG Awards 2026, em colaboração com a BCSD. A sessão que reuniu líderes, especialistas e ativistas na área da sustentabilidade contou com um painel no qual se debateu a importância da…
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Representantes de várias empresas nacionais, reunidos no evento de entrega de prémios da Forbes Portugal, mostraram o que estão a fazer relativamente à economia circular e como estão a contribuir para cumprir a metas da descarbonização nos próximos anos.
Economia Forbes Green ESG Awards

Foi ontem, durante uma alegre tarde soalheira e no meio do verde de Monsanto, em Lisboa, que a Forbes Portugal entregou os prémios Green ESG Awards 2026, em colaboração com a BCSD. A sessão que reuniu líderes, especialistas e ativistas na área da sustentabilidade contou com um painel no qual se debateu a importância da economia circular como novo motor da economia verde, o qual contou com os especialistas Luís Nunes, COO da Prio, Claúdia Silva, Sustainability Manager Siemens, Luísa Jervell, Diretora de Sustentabilidade da NOS, Rui Santos Costa, country manager AION Portugal e Maria José Ferreira, Diretora de Investigação do Centro Tecnológico do Calcado de Portugal. Ficou demostrado que todas estas empresas se preocupam com a questão da circularidade dos seus produtos, tendo sido apresentados à audiência alguns exemplos daquilo que está a fazer feito nesta área.

“A Prio é um dos maiores produtores de bioenergia em Portugal, produz em Aveiro, e hoje a sua produção é praticamente 100% a partir dos resíduos”, diz Luís Nunes.

Luís Nunes, da Prio arrancou os trabalhos referindo mesmo que o seu negócio começa na circularidade, ao usar todo o tipo de resíduos na produção dos seus biocombustíveis. “A Prio é um dos maiores produtores de bioenergia em Portugal, produz em Aveiro, e hoje a sua produção é praticamente 100% a partir dos resíduos. Já não é só com os óleos alimentares usados, hoje usamos todo o tipo de resíduo, desde resíduos urbanos a baterias usadas e toda uma panóplia diferente de resíduos, ligados à economia circular”, explica o responsável. Ou seja, a economia circular está na base de todo o negócio da companhia. Luís Nunes refere ainda que este tipo de resíduos, que não era muito valorizado, permite assim que sejam mais valorizados e, deste modo, contribuem para reduzir a dependência energética, que é um problema energético tremendo, como estamos a ver da conjuntura atual. “Atualmente esta questão deixou de ser apenas ambiental, mas económica também” refere o especialista.

O especialista refere ainda que a recolha de resíduos está a aumentar, e é toda uma economia que não existia e que agora cria emprego. “Portugal está a aumentar essa recolha, mas ainda não é autossuficiente. Há ainda importações de resíduos, nomeadamente de Espanha”, diz. No caso dos óleos alimentares, 90% da recolha já é feita em Portugal, refere.

Ecodesign está na base dos produtos da Siemens

Também Claúdia Silva, da Siemens, refere que o “ecodesign está na primeira linha do pensamento de como é que o nosso produto vai ser desenhado”. A empresa coloca a eficiência de recursos na circularidade ao mesmo nível da ética e da descarbonização. “Isto significa que quando começamos a pensar nos produtos, começamos a pensar com ecodesign, uma metodologia que é aplicada a todo o ciclo de vida do produto”, refere. E acrescenta que em 2025, o portfolio de produtos da empresa já estava coberto em 67%, sendo a meta de cobrir 100% até 2030. “Isto não fica só no papel. Isto reflete-se na utilização modular: os nossos produtos estão feitos para que os possam ser retirados, o que quer dizer que estamos a reprogramar e substituir apenas o produto que precisa ser substituído”. Cláudia Silva explica ainda que dos 40 mil produtos da Siemens só 5% não podem ser reparados, e destes 5% apenas 1% dos resíduos é que não podem ser reciclados. “Por isso os nossos produtos voltam a ser reparados, voltam a entrar na produção e isto é a nossa economia circular”, diz.

A Siemens envolve também os seus parceiros na sua prática da circularidade, mas este é um desafio grande em toda a cadeia de valor. “Temos metas muito concretas até 2030, que é na redução de 30% destas emissões. E para isso tentamos fazer um engagment directo com os nossos fornecedores, para que adotem práticas sustentáveis alinhadas com a nossa visão”, refere.

“Isto significa que quando começamos a pensar nos produtos, começamos a pensar com ecodesign, uma metodologia que é aplicada a todo o ciclo de vida do produto”, refere Cláudia Silva, da Siemens. 

Luísa Jervell refere também que a sustentabilidade e a transição energética são pilares da NOS, que estão a trabalhar no tema, mas a solução não passa só por aí, por isso a circularidade dos materiais e dos equipamentos é também fundamental. “Lançamos este ano o programa Re-ciclo que é transversal a toda a organização e assenta em três pilares”, diz. Um primeiro pilar é a incorporação da circularidade da operação, na logística, nas redes, com exemplos como o das box que são recolhidas e recondicionadas e as que estão em condições voltam para casa dos clientes. Outro exemplo, no caso dos cinemas, é a utilização de copos reutilizáveis, entre outros. O segundo pilar tem a ver com a oferta de produtos e serviços circulares, dando uma segunda vida aos equipamentos móveis, como os smartphones e entregamos desconto aos clientes com isso.  Num terceiro pilar, Luísa Jervell indica que se trata de facilitar o sistema ecossistema circular, envolvendo os fornecedores e parceiros, mas também os colaboradores, envolvendo-os nos processos, como a digitalização, mas também, internamente dando-lhe literacia e formação.

Falando na cadeia de valor, na parte dos clientes, a NOS afirma que consegue potenciar junto dos clientes as soluções que possam ajudar a reduzir a pegada carbónica. A tecnologia tem o poder de escalar a circularidade junto das pessoas e das empresas. “O facto de termos feito uma fábrica 5G com sensorização em toda a fábrica, permitiu-nos ser mais eficientes em 10% e ter poupanças de 15% nos desperdícios”, afirma Luísa Jervell.

BioShoes for All é o maior projeto do cluster do calçado

Já o setor do calçado é uma referência no ecodesign e nos biomateriais. Maria José Ferreira, diretora de Investigação do Centro Tecnológico do Calcado de Portugal mostrou à plateia inúmeros exemplos daquilo que está a ser feito nesta área. “O nosso projeto mais emblemático é o “BioShoes For All”, que envolve 69 parcerias, 49 empresas indústrias, e 20 são entidades, como universidades e centros tecnológicos. Posso dizer que este projeto está a provocar uma revolução no calçado em Portugal e na Europa. (…) É o maior investimento do cluster do calçado português”, explica Maria José Ferreira, que partilha com a audiência que o calçado português é o que tem o segundo maior valor à saída da fábrica, a seguir ao italiano. Refere ainda que envolve toda a cadeia de valor, com novos conceitos ao nível de todas as fases do ciclo de vida do produto.

E mostra alguns exemplos saídos deste projeto que pretende criar produtos com menor pegada ambiental e ainda assim serem produtos muitos confortáveis e duráveis. Uma mala de couro, sem forro, com a pele estabiliza com extracto de borra de café, que implica uma redução de 38% na pegada ambiental, e é compostável em casa, no fim de vida. Mostra ainda uma palmilha que inclui na sua composição restos de maça e de laranja, ou uns ténis, em têxtil, que são feitos a partir do aproveitamento de fatos de homem, com cerca de 70% de lã. Também as solas estão a incluir bioborracha, que incluem resíduos, nomeadamente resíduos do couro. “As nossas soluções de biomateriais já estão em ser lançados nas feiras e as nossas soluções, nestes cinco anos, já atingiram 44 milhões de pessoas. Por isso toda esta cadeia está a ser construída”. O cluster está já a trabalhar há duas décadas na área da sustentabilidade, afirma a responsável.

“Outro aspeto importante é o reaproveitamento das baterias do elétricos – o estádio de futebol do Ajax é totalmente alimentado a baterias de elétricos – ou seja, a sobrevida é já uma realidade”, diz Rui Santos Costa, da AION Portugal.

Rui Santos Costa, country manager da AION Portugal, começa por explicar em que consiste esta nova marca: trata-se de uma marca de automóveis elétricos, oriundos da China e que acabam de entrar em Portugal. Admitindo que a indústria automóvel é uma das que mais contribui para a pegada carbónica, mostra que estes automóveis estão a tentar dar um contributo para um mundo mais verde. “Um automóvel hoje já pode ser reciclado praticamente a 100%. As próprias marcas têm algumas linhas de aproveitamento das peças mais importantes e que são mais caras para o cliente final, e que são absorvidas pelas oficinas, e conseguem assim ter um produto aceitável nesta economia circular”, refere Rui Santos Costa.

Sobre o recondicionamento de peças, Rui Santos Costa refere que, tendo em conta que na Europa existem 300 milhões de automóveis em circulação, o conceito de economia circular vai ter cada vez mais impacto nas marcas. “Outro aspeto importante é o reaproveitamento das baterias do elétricos – o estádio de futebol do Ajax é totalmente alimentado a baterias de elétricos – ou seja, a sobrevida é já uma realidade”, diz. O facto de a legislação dizer que as marcas só tenham de ter peça para substituição durante dez anos implica também que seja importante para as marcas apostarem neste recondicionamento.

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