Gonçalo Peixoto: “A IA veio ajudar, mas é importante que não se perca esta personalidade que nos é dada através das nossas memórias e vivências”

Como é que a tua carreira evoluiu nestes últimos três anos, desde a tua nomeação para a primeira lista 30 Under 30 da Forbes Portugal? Têm sido anos muito bonitos, não vou mentir que 2023 teve um sabor especial na minha bucket list. Felizmente as coisas continuam a correr bem, a empresa continua a crescer,…
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Do backstage ao desfile, passando pela primeira fila mais esperada da Moda Lisboa. A Forbes Portugal esteve no desfile de Gonçalo Peixoto - que misturou memória, criatividade e inteligência artificial - e falou com o designer sobre a sua nova coleção, a indústria da moda e os planos no cenário internacional.
30 Under 30 Forbes Life

Como é que a tua carreira evoluiu nestes últimos três anos, desde a tua nomeação para a primeira lista 30 Under 30 da Forbes Portugal?
Têm sido anos muito bonitos, não vou mentir que 2023 teve um sabor especial na minha bucket list. Felizmente as coisas continuam a correr bem, a empresa continua a crescer, eu acho que todos os anos temos aqui algumas coisas novas a acontecer, este desfile em específico é um desfile em que há todo um cenário na Moda Lisboa. Às vezes, por várias razões, não conseguimos montar um cenário no desfile, este é um desfile que tem cenário, ou seja, que me ajuda a contar aqui a história, e vai ter um sabor especial. As coisas continuam a correr super bem, a marca continua, felizmente, a crescer e a ir-se desmembrando cada vez mais, e isso deixa-me muito feliz. E é esperar pelos próximos passos, que sejam ainda mais importantes.

E fala-me desta coleção que vais apresentar hoje.
É uma coleção para o início de um debate. Não quero de todo tirar uma resposta desta coleção, é um debate sobre o que será o futuro, o que foi o passado, como é que nós podemos usar esta inteligência artificial (IA) a nosso favor e, na minha opinião, o que é que não podemos esquecer. Estas coleções têm sempre um lado muito manual, há muitas rendas, vários looks só de penas que são feitas uma a uma, há um casaco que tem um fundo todo com pedraria que é colocado à mão, e eu queria que tivesse este antagonismo: o que é que a inteligência artificial não pode mesmo levar. Ao mesmo tempo temos materiais que são super inovadores e um bocadinho mais IA. Por isso é uma discussão e uma conversa a termos a partir de agora sobre o que é que poderá ser a moda com este aliado.

E qual é a tua opinião em relação a isso, a inteligência artificial na indústria da moda?
Eu acho que tem de ser muito bem medido em tudo. Acho que veio ajudar e facilitar muitos processos, trazer muita inovação. No meu caso em específico, em que eu tenho muitas coisas passadas, como a história das minhas avós, há um lado muito pessoal das minhas coisas e muito pouco industrial, e que nunca irá ser industrializado. Por isso é que eu estava a dizer que penso sempre: eu estou a fazer uma coleção e estamos nesta era super digital, mas bora trazer-lhe um toque de personalidade. Veio ajudar muito, mas é importante que não se perca esta personalidade que nos é dada através das nossas memórias, dos nossos passados, das nossas vivências e de quem somos.

E em termos de materiais?
Tudo muito Gonçalo Peixoto. Lantejoulas, brilhos, pernas, tudo o que a cliente Gonçalo Peixoto esteja à espera, mas ao mesmo tempo, materiais muito novos: cedas, musselines, camisarias como faziam as camisas dos meus avós. É isto que eu te dizia, tentar fazer este bocadinho de tudo para trazer para uma coleção que seja rica, tanto a nível de memórias e de passado e humano, como a nível de IA e tecnologia. E é isso mesmo que eu tentei fazer nesta coleção, tentei trazer o melhor dos dois mundos.

O que é que te inspira?
Isto é uma chatice, porque tudo me inspira e tudo me dá vontade de fazer coisas. Desde viagens com amigas, conversas, livros, músicas. Às vezes o desfile começa pela música e vai tudo um bocadinho à volta disto, cenários, alguma coisa que eu tenha visto, um post no Instagram, tudo pode ser um mote de uma coleção nova. Eu acho que isso é interessante, porque vivemos numa era em que é tudo tão digital e somos tão estimulados a toda hora, temos de estar atentos àquilo que nos estimula. No meu caso tudo, um state of mind ou um pensamento, tudo pode ser o início de uma coleção. No meio em que eu me insiro, neste meio artístico, tudo pode levar a mote de uma coleção, de uma história ou de uma peça específica.

Tu inovaste ao levar a coleção também para a primeira fila do desfile. Vai continuar a ser assim?
Vai continuar sim. É muito engraçado porque quando eu comecei a fazer isto há uns anos, achavam que eu era meio louco. E cada vez mais vemos as marcas internacionais a fazerem a mesma coisa. Eu acho que isto é um alinhar o pensamento que todos nós temos, que é o compromisso que temos com as vendas, com os nossos compradores, com os nossos consumidores, e que é um sonho, mas é um negócio. Por isso, aproximar os nossos clientes e as pessoas que usam Gonçalo Peixoto ao consumidor final, é só inteligente porque nos vai trazer vendas. Isto faz parte do meu processo e da maneira como a minha marca foi construída, nem eu sei fazer de outra maneira.

Fala-me de alguns nomes que vão estar presentes e o que te levou a escolher as peças que escolheste para elas.
Dou-te provavelmente o maior nome, a Margarida Corceiro, que é uma das minhas melhores amigas. Tem um calendário louco, mas conseguimos alinhar agendas e estou muito, muito feliz que ela esteja cá, já não vem desde 2024. Ela vai assistir ao desfile com um fato da coleção e é muito diferente do que ela já usou, porque ela já usa muitos fatos Gonçalo Peixoto, mas este tem camisa, gravata, quase como um full man look. E acho que é muito engraçado, primeiro ela tem uma cara surreal e toda ela é tão bonita que tudo lhe fica bem, mas é tentar fazermos um look que seja muito impactante.

Eu sou desta era do digital, por isso o Gonçalo não é o Gonçalo sem todas estas pessoas do digital que trabalham comigo e há vários nomes. Eu tento fazer este exercício: eu gostava mesmo de ter na primeira fila um bocadinho de diversidade, desde o Instagram a cantoras, apresentadoras, desportistas, ou seja, fazer uma primeira fila muito completa para perceberem que a marca Gonçalo Peixoto é efetivamente uma marca muito completa e que chega a toda a gente e é muito transversal. E era isto que eu podia fazer com a minha primeira fila de hoje e acho que consegui.

Como é que olhas para a indústria da moda em Portugal hoje em dia?
Felizmente, as coisas nos últimos anos têm melhorado no aspecto de haver mais conhecimento sobre isto. Quando eu comecei há 10 anos, havia muito um pré-conceito de alguma coisa, não sabiam o que era isto e o que era aquilo, então havia um conceito pré-definido sobre isto. Eu acho que a moda está a evoluir, aparecem a toda hora designers novos, ótimos, frescos, com sangue novo. Nós, portugueses, estamos a dar cada vez mais valor àquilo que compramos e fazemos em Portugal, até porque há uma percentagem gigante de marcas internacionais que produzem em Portugal, por isso nós temos tudo o que é preciso, temos a produção, a qualidade, a excelência, o detalhe, e por isso eu acho que o futuro da moda em Portugal é risonho para as marcas que estão no panorama.

Isto é uma tendência que se vê com as gerações mais novas, não optarem tanto pelo fast fashion e apostarem em peças com um ciclo de vida maior.
Completamente, que duram mais, que são um bocadinho mais diferentes. Eu vejo que há um regresso de um certo nicho de pessoas que voltaram à marca porque querem cada vez mais investir em marcas portuguesas, não querem andar iguais a toda a gente, não querem sair à rua e alguém estar com a mesma roupa, sair à noite ou ir a um casamento e estar com os mesmos vestidos que outras pessoas. Isso é importante, não traz só esta personalidade, mas traz também uma nova esperança a esta moda portuguesa. As pessoas são muito informadas, vêm muito, consultam muito, procuram muito e eu acho que agora é giro voltar a usar marcas portuguesas, investir menos, comprar menos, mas com consciência. Falamos de muitos aspetos, da sustentabilidade, do apoio à moda portuguesa, da economia portuguesa, entramos aqui num nicho que toca a muita gente e que é importante.

Eu costumo dizer isto a toda a gente: eu acho que comprar português é estar a ser sustentável de alguma forma. Nós, todos os designers portugueses, nenhum de nós produz numa escala desmedida, num desperdício de tecidos e por isso a comprar português estás de alguma maneira a ser consciente e sustentável. Muitas vezes nós fazemos upcycling de tecidos e buscar tecidos que já usámos, mas que de alguma maneira podemos voltar a traze-los para a coleção e é isso o mais importante, tentarmos ser conscientes do nosso trabalho também. E somos responsáveis, é uma das indústrias que mais polui no mundo inteiro, por isso tentarmos ser responsáveis e fazer a nossa parte.

Em que momento é que começas a pensar na próxima coleção?
Eu faço uma pausa de duas, três semanas, descansar um bocadinho e início de maio eu começo com a nova coleção.

Começas por onde?
Normalmente eu começo com os tecidos, mas já comecei por músicas, já comecei por peças em específico que queria muito fazer, já comecei por um jantar de amigos que me deu alguma coisa e comecei a escrever. É diferente em todas as coleções e isso é que é o giro, é que não é nada monótono.

Quais são os teus grandes objetivos para a tua marca?
Para 2026 eu gostava de internacionalizar mais a marca. 2025 foi um ano muito, muito importante para isso acontecer, nós tivemos muitas vendas nos estrangeiros e isso deixa-me muito feliz, mas em 2026 eu gostava muito de voltar a uma semana da moda internacional, gostava de vestir uma ou outra pessoa entre as figuras públicas internacionais. É um processo, vamos trabalhando e vai acontecendo.

Como é que funciona esse processo de chegar a uma semana da moda internacional?
Há vários métodos. Normalmente o que acontece em Portugal é, nós temos algumas instituições que nos apoiam, e há apoios da União Europeia para isso acontecer, e isto é a maneira mais fácil de começar. Há várias coisas que não dependem só de mim, não é só o querer fazer, é o conseguir alinhar as agendas, haver apoios, mas acho que o futuro vai ser brilhante, está tudo certo.

Alguma em particular?
Sim, nós já fizemos Milão e acho que é a cidade com a qual mais me identifico enquanto criador. Acho que Milão seria importante voltar. E vamos voltar com certeza.

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