A empresa responsável por Tilly Norwood, uma personagem digital criada com recurso a inteligência artificial (IA) que se tornou símbolo do debate sobre o impacto da tecnologia em Hollywood, lançou um novo videoclipe protagonizado pela própria figura virtual.
O vídeo, intitulado “Take The Lead”, foi publicado no YouTube na manhã de terça-feira e mostra a personagem, que assume a forma de uma jovem mulher, a ser perseguida por paparazzi, a atuar num concerto e a voar num flamingo insuflável cor-de-rosa.
A música aborda diretamente as críticas dirigidas ao projeto desde o seu lançamento. A letra começa com versos que respondem às dúvidas sobre o papel da IA na criação artística: “Quando falam de mim, não veem a centelha humana, a criatividade” e “Sou apenas uma ferramenta, mas tenho vida”.
Ao longo da canção, a personagem digital dirige-se também aos profissionais da indústria cinematográfica, alertando: “Não fiquem de fora, não fiquem para trás”, acrescentando que “Esta é a próxima evolução, não conseguem ver? A inteligência artificial não é o inimigo, é a chave”.
A letra rejeita igualmente o argumento de que criações geradas por inteligência artificial não conseguem reproduzir emoções humanas. Num dos versos, Tilly Norwood canta: “Dizem que não é real, que é falso. Mas continuo a ser humana, não se enganem”.
O vídeo começa com um aviso que refere que foi “feito por 18 humanos reais, desde diretores de produção a figurinistas, especialistas em prompts, editores e um ator”. A empresa Particle6, responsável pelo projeto, indicou em comunicado que as vozes utilizadas na música foram geradas com recurso ao gerador musical de inteligência artificial Suno.
Na descrição do vídeo surge ainda a frase “Mal posso esperar para ir aos Óscares!”, numa referência à cerimónia da Academia, que decorre neste próximo domingo. No entanto, Tilly Norwood não participa em qualquer filme nem está associada a projetos nomeados.
Porque é Tilly Norwood tão controversa?
A personagem gerada por inteligência artificial tornou-se alvo de críticas por parte de sindicatos e atores de Hollywood. O sindicato SAG-AFTRA (Screen Actors Guild – American Federation of Television and Radio Artists), que representa mais de 160.000 profissionais da indústria do entretenimento, condenou o projeto em setembro.
A organização afirmou opor-se à substituição de atores humanos por “sintéticos”, argumentando que a criatividade “é, e deve continuar a ser, centrada no ser humano”. O sindicato acrescentou que Tilly Norwood não é uma atriz real e não possui experiências de vida que possam ser traduzidas em interpretações.
O SAG-AFTRA também alertou que a normalização de atores gerados por inteligência artificial poderá colocar em risco o emprego de intérpretes humanos. A organização alegou ainda que o modelo poderá ter sido treinado com base em performances de atores que não deram autorização nem receberam compensação.
Vários atores manifestaram publicamente oposição à utilização de intérpretes gerados por IA. Whoopi Goldberg afirmou que o público consegue distingui-los facilmente: “O público consegue sempre distingui-los de nós. Movemo-nos de forma diferente, os nossos rostos movem-se de forma diferente, os nossos corpos movem-se de forma diferente.”
A atriz Emily Blunt também criticou o projeto em setembro, classificando-o como “assustador”. “Meu Deus, estamos tramados. Isto é mesmo muito assustador. Vá lá, agências, não façam isso”, afirmou.
Uma experiência para testar os limites da IA
Tilly Norwood foi criada por Eline Van der Velden, atriz e produtora que lidera a empresa de produção Particle6 e o estúdio de inteligência artificial Xicoia. Van der Velden apresentou a personagem digital em setembro, afirmando que gostaria que se tornasse “a próxima Scarlett Johansson ou Natalie Portman”.
A responsável tem defendido o projeto perante as críticas. Em comunicado divulgado esta terça-feira, afirmou que Tilly Norwood foi concebida como “um veículo para testar as capacidades criativas e os limites da inteligência artificial, não para tirar o emprego a ninguém”.
Segundo Van der Velden, a criação de conteúdos com inteligência artificial continua a depender de ideias, direção criativa e julgamento humano: “Os conteúdos com inteligência artificial exigem sempre boas ideias, gosto, direção, julgamento e tempo. Por outras palavras: as pessoas continuam no centro de tudo.”
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





