A obra “autorretrato” (1972) do pintor britânico Francis Bacon ficou quarta-feira no topo de um leilão de arte moderna e contemporânea da casa Sotheby’s, em Londres, cujos negócios ascenderam a 150 milhões de euros no total.
O quadro de Bacon, posteriormente radicado nos Estados Unidos da América, pertence a um dos períodos mais intensos da sua carreira, caracterizado pela distorção dos rostos das figuras pintadas, e foi vendido por 16 milhões de libras (18,2 milhões de euros), após cinco minutos de barganha que duplicou o valor inicialmente estimado.
Um dos aspetos que torna este autorretrato de 1972 particularmente significativo é o contexto em que foi pintado. A obra pertence a um período profundamente marcado pelo luto na vida de Francis Bacon, pouco depois da morte do seu companheiro George Dyer, em 1971. Nesse momento, o pintor voltou-se intensamente para o género do autorretrato: num curto espaço de tempo produziu várias pequenas pinturas do próprio rosto, transformando o espelho num lugar de confronto psicológico e não de simples representação.
Neste quadro, Bacon constrói a imagem do seu rosto através de pinceladas instáveis e cores inesperadamente delicadas — azuis, rosas e violetas — que contrastam com um fundo negro denso e opressivo. A cabeça surge como se emergisse da escuridão, marcada por cortes de tinta escura e deformações que parecem simultaneamente construir e ferir o rosto. O efeito é típico da linguagem pictórica do artista: uma tensão constante entre figura e dissolução, entre controlo técnico e gestos violentos de pintura.
O historiador de arte Martin Harrison descreveu esta pintura como uma das mais incisivas entre os pequenos autorretratos realizados por Bacon nesse ano, sublinhando também a proximidade cromática com os pastéis de Edgar Degas, sobretudo no uso dominante de azuis e rosas. Apesar da escala reduzida — cerca de 35 por 30 centímetros —, a obra concentra uma intensidade psicológica rara, transformando o retrato num campo de experimentação pictórica e emocional.
Ao contrário da tradição clássica do autorretrato, Bacon não procurava uma imagem heroica ou estável de si próprio. Pelo contrário, via o rosto como algo instável, sujeito à erosão do tempo e da experiência. Numa conversa com o crítico David Sylvester, o artista citou Jean Cocteau para explicar essa visão: “Todos os dias, ao espelho, vejo a morte a trabalhar.” Nos seus autorretratos, essa ideia materializa-se na forma como a identidade parece sempre em processo de transformação ou mesmo de colapso.
Estas pinturas dos anos 1970 são hoje consideradas algumas das mais poderosas da carreira de Bacon e colocam-no numa longa tradição de artistas que exploraram o autorretrato como investigação existencial — de Rembrandt a Van Gogh. No caso de Bacon, porém, o género é reinventado: o rosto deixa de ser um símbolo de identidade estável e torna-se antes um campo de batalha onde se inscrevem fragilidade, violência e introspeção.
Outras obras leiloadas
Neste leilão realizado em Londres, a seguir a Bacon, destacaram-se também retratos do seu contemporâneo Lucian Freud, outro dos artistas britânicos mais aclamados do século XX, com “Um Jovem Pintor”, que estava fora dos mercados há mais de meio século, a atingir 8,2 milhões de euros, enquanto “Rapariga Loira Numa Cama”, do qual a modelo foi a também artista Sophie de Stempel, alcançou 8,4 milhões de euros.
Entre os impressionistas, a “Casa do Jardineiro” do francês Claude Monet foi vendida por 9,3 milhões de euros, mas o momento de maior disputa entre os licitadores foi protagonizado pela “Piscina de Crianças, 11 horas, Sábado de Manhã, Agosto” do também britânico Leon Kossoff, considerada a sua obra prima, comercializada quase sete vezes acima do seu valor anterior, por 5,9 milhões de euros.
com Lusa





